Nao sou a Mulher Perfeita sou eu
Habito o hiato entre quem eu fui e quem eu nunca serei. É um espaço desconfortável, mas é o único lugar onde sou real.
Cansado de ser o pilar silencioso, mas consciente de que, se eu falar, o estrondo do meu desabafo assustaria a todos.
Sinto saudades de uma versão minha que talvez nem tenha existido, apenas a ideia de quem eu poderia ser antes de tudo.
A tristeza é uma cor que combina com tudo o que eu escrevo, um pigmento que extraio das sombras que o sol projeta quando decide se pôr cedo demais. Não busco o arco-íris, busco a gradação de cinzas que existe entre a dor absoluta e o alívio de um sono sem sonhos.
O mundo é um baile de máscaras onde eu cheguei com o rosto nu e agora todos se afastam, assustados com a honestidade da minha tristeza. Não nasci para o carnaval das aparências, prefiro a quarta-feira de cinzas, onde tudo é cinza, mas ao menos é real.
A minha fé é uma chama trêmula que qualquer brisa de dúvida ameaça apagar, mas que eu protejo com as mãos em concha, mesmo que elas fiquem queimadas no processo. É melhor arder de dúvida do que congelar na certeza absoluta de que não há nada além do fim.
A alma é uma casa abandonada onde o vento sopra entre as frestas de memórias que eu deveria ter enterrado há muito tempo. Mas eu gosto do barulho do vento, ele me lembra que, embora a casa esteja vazia, ela ainda respira a poeira do que foi vivido.
Minha escrita nasce da dor e da fé, desse atrito constante entre o que eu perdi e o que eu ainda espero encontrar em algum lugar além do horizonte. É o fogo que surge do choque entre a pedra da realidade e o aço da minha vontade de continuar sendo.
Meus olhos já viram tanta coisa desmoronar que hoje eu desconfio até das montanhas, esperando que elas também revelem sua natureza de areia a qualquer momento. A impermanência é a única constante, a única verdade que o tempo não consegue desmentir com suas promessas de eternidade.
No fim, sobrará apenas esse amontoado de letras que eu deixei espalhadas pelo caminho, como migalhas de pão que não serviram para eu voltar para casa, mas que talvez alimentem a alma de algum outro pássaro ferido que passar por aqui. Se a minha dor serviu de consolo para a sua, então valeu a pena cada gota de tinta.
- Tiago Scheimann
Eu carrego um deserto na boca do estômago, onde cada passo é areia movediça e cada sonho, um miragem que não se aproxima.
Eu me tornei alguém que observa mais do que vive, como se estivesse sempre um passo atrás da própria existência, avaliando cada emoção antes de permitir que ela me atravesse, mas sempre algo escapa… e talvez seja isso que ainda me mantém humano.
Eu já considerei a possibilidade de que nada disso tenha significado, e, estranhamente, essa ideia não me destruiu por completo, talvez porque até no vazio exista uma presença silenciosa, a experiência inevitável de ainda estar aqui.
Eu aprendi a sorrir como quem esconde evidências, arquivando sentimentos em lugares que nunca deveriam ser revisitados, porque algumas verdades não libertam, elas desmontam, e ainda assim, algo em mim insiste em reconstruir.
Eu me tornei um observador da própria dor, como se houvesse uma distância entre quem sente e quem entende, e talvez seja isso que me mantém funcional, porque sentir tudo diretamente seria insuportável.
Eu sobrevivi a mim mesmo nos meus dias mais sombrios, e isso é uma vitória invisível que nenhum aplauso seria capaz de traduzir.
Dentro de mim ainda vive aquele menino ferido, mas hoje eu o abraço, porque finalmente aprendi que ele também merece amor.
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