Nao estou Sozinha
Gingado antigo
Eu não nasci agora.
Apenas retornei.
Carrego nos ossos a poeira de constelações antigas,
fui sílaba antes da língua,
fui pulso antes do tempo.
No princípio, eu era clara,
não por ingenuidade,
mas por inteireza.
Quando me feriram,
não foi o corpo que sangrou primeiro,
foi o espanto.
E eu mergulhei onde poucos ousam:
nas sombras que sabem conjurar.
Ali aprendi nomes que não se escrevem,
acendi fogueiras com o que me restava
e chamei isso de sobrevivência.
Passei eras no intervalo.
Nem céu, nem chão.
O limbo é um lugar onde a alma aprende a esperar
sem perder o fogo.
Quando fui chamada de volta,
aceitei o pacto:
retornar quantas vezes fosse preciso
até que o amor deixasse de doer
e virasse ação.
Já alimentei bocas famintas
com as próprias mãos cansadas.
Já pari futuros
em corpos que não eram meus.
Já fui abrigo,
fui silêncio,
fui exemplo moldado para caber
em expectativas estreitas.
Vesti aventais em campos de guerra,
limpei feridas enquanto o mundo desmoronava,
morri cedo por ideias grandes demais
para épocas pequenas.
Redimi-me vivendo.
Redimi-me servindo.
Redimi-me caindo e levantando
com o mesmo coração aberto.
Nesta vida,
vim sem algemas invisíveis.
Não me dobro a dogmas,
não peço permissão a tronos,
não negocio minha essência com medo.
Sou filha da terra viva,
irmã das águas profundas,
aliada do vento que muda tudo
sem pedir desculpa.
Minha missão é guardar o que respira:
florestas, bichos, mares,
e também gente —
mesmo quando a gente esquece como ser humana.
Sim, muitos confundiram minha ternura
com disponibilidade.
Minha criatividade com recurso explorável.
Meu cuidado com obrigação eterna.
Mas quem nasceu para construir mundos
não endurece,
aprende limites que também são sagrados.
Há um gingado antigo no meu passo,
uma malemolência que vem da sobrevivência alegre,
do riso que não se rende,
do corpo que conhece prazer
como forma de oração.
Meus olhos não pedem licença:
atravessam.
Reconhecem.
Despertam.
Sou deusa não porque mando,
mas porque sustento.
Não porque sou perfeita,
mas porque continuo.
Trago no ventre as eras que vivi
e nas mãos o agora pulsando.
E se o mundo tentar me conter,
que saiba:
já fui cinza,
já fui chama,
já fui noite sem nome.
Hoje sou raiz e horizonte.
Livre.
Indomável.
Em plena lembrança de quem sempre fui.
A ansiedade tenta prever para não sofrer. Deus permite a incerteza para ensinar a confiar. Um tenta controlar.
O outro sustenta. Nem todo futuro precisa ser visto agora para ser cuidado desde já.
Quando alguém escolhe apoiar ou caminhar ao lado de um político corrupto, não está apenas fazendo uma escolha política, mas uma escolha moral que diz muito mais sobre si do que sobre ele.
A saudade não chega devagar,
ela atravessa a porta como quem tem direito. Não traz esperança, não oferece consolo, só deixa o impacto seco de quem já perdeu. É memória sem afeto, é amor sobrevivendo em forma de dor.
O bicho homem, consciente ou não, de seu egoísmo nato, trabalha a construção das suas virtudes por algum motivo narcísico, (vaidade, orgulho, medo, ou até mesmo sua busca por evolução) resultando sempre em progresso moral, quer seja lento ou acelerado. Os fins justificam os meios.
Carla Marques
Little Sage
2020
“Liberdade não é fazer tudo o que se deseja, mas sustentar, com consciência e responsabilidade, aquilo que se escolhe ser.” - Leonardo Azevedo.
"O afeto que não se traduz em presença é como um livro de páginas brancas: tem título, mas falta história."
"A vontade é o motor, mas o movimento é o combustível. Quem se importa não apenas acena de longe, mas encurta a distância."
"A importância de alguém na nossa vida não se mede pelo espaço que ela ocupa em nossos pensamentos, mas pelo tempo que ela dedica em nossas urgências."
"Palavras são o rascunho da alma, mas as atitudes são a obra finalizada que o tempo não consegue apagar."
"Nossa identidade não é um ponto estático, mas o rastro deixado pelo que entregamos e a profundidade do que aceitamos acolher."
"Não busque o lugar ao sol para ser visto; busque-o para descobrir o que a sombra estava tentando esconder de você."
