Nao Acabou pra Mim
Não sabemos o dia da volta de Jesus, mas sabemos como devemos viver até lá: com o coração firmado em Deus e as mãos dedicadas ao bem.
Ser pai espiritual…
Talvez eu tenha demorado para entender que ser pai na fé não é apenas conduzir pessoas a um culto, mas receber de Deus a responsabilidade de ajudar a formar almas, cuidar de vidas e pastorear destinos.
A paternidade espiritual me ensinou que existem presentes que não cabem em caixas, não se medem em dinheiro e não podem ser comprados. Existem presentes que chegam pelas mãos de Deus e transformam para sempre o sentido da nossa existência.
E Deus me confiou esses presentes: as ovelhas desta casa, a Igreja Catedral do Avivamento Nova Vida.
Cada um de vocês, com suas histórias, suas lutas, suas personalidades e suas jornadas… e dentro de cada vida, um pedaço do coração pastoral que Deus me deu.
Ser pai na fé de vocês é descobrir que o amor também corrige, que a disciplina também ensina, que a intercessão é uma forma silenciosa de amar e que, muitas vezes, quando penso que estou ensinando vocês a caminhar com Deus, são vocês que me ensinam o verdadeiro significado da dependência do Senhor.
Vocês me fizeram compreender que o maior legado de um pastor não é aquilo que ele constrói em estruturas, mas aquilo que permanece no coração daqueles que ele amou e serviu em Deus.
Um dia, talvez, vocês sigam seus próprios caminhos, enfrentem suas próprias batalhas, construam suas próprias histórias e amadureçam na fé de formas que hoje nem consigo imaginar. E, quando esse dia chegar, talvez eu não possa mais estar tão perto de cada um como estou em oração e cuidado hoje.
Mas haverá algo que o tempo jamais poderá tirar de mim: a certeza de que Deus me permitiu ser pai espiritual de vocês.
E por isso eu agradeço.
Obrigado, meu Deus, por cada ovelha desta casa.
Obrigado, meu Deus, por cada vida confiada ao meu pastoreio.
Obrigado, meu Deus, pela Igreja Catedral do Avivamento Nova Vida.
Que eu tenha sabedoria para corrigir sem ferir, força para proteger sem aprisionar, humildade para aprender com vocês e amor suficiente para que, mesmo quando eu não estiver por perto, vocês carreguem dentro de si a certeza de que foram profundamente amados em Cristo.
Porque ser pai espiritual não é preparar filhos na fé para dependerem de nós.
É prepará-los para caminharem com Deus, sem nunca esquecerem de onde vieram, quem os amou e de Quem veio a bênção sobre suas vidas.
Se algum dia me perguntarem qual foi a maior riqueza que Deus me deu como pastor, eu não precisarei pensar.
Direi com convicção:
As ovelhas que Ele me confiou.
Vocês não são apenas parte da minha história.
Vocês são uma das razões pelas quais a minha história pastoral vale a pena.
E se Deus me concedesse a oportunidade de viver tudo novamente, com todas as lutas, noites em oração, preocupações, lágrimas e sacrifícios…
Eu escolheria pastorear vocês outra vez.
Sem hesitar.
Porque algumas bênçãos não apenas mudam a nossa vida.
Elas dão sentido a ela.
Obrigado, Senhor, por me permitir ser pai espiritual.
E obrigado por ter confiado a mim vidas que eu amarei enquanto Deus me permitir servir neste altar.
Meus filhos na fé, meu legado espiritual, minha oração constante e uma das maiores provas de que Deus foi generoso comigo. ❤️🙏
“Quando uma mulher perde o respeito pelo marido, não precisa gritar para enfraquecê-lo; basta tratá-lo como incapaz, tomar suas decisões por ele e construir diante dos outros uma imagem negativa de sua pessoa. A filosofia nos lembra que quem tira do outro a autonomia acaba destruindo não apenas sua autoridade, mas também a própria relação que pretendia sustentar.”
"Não a multidão, mas sim a solidão caracteriza a constituição social atual. Ela é abarcada por uma desintegração generalizada do comum e do comunitário. A solidariedade desaparece. A privatização avança até a alma. A erosão do comunicado torna um agir comum cada vez mais improvável."
O Novo Mundo não passa de um mar de promessas onde cada alma busca sua própria ilha, sem notar que o silêncio de Roanoke é o eco do nosso eterno desejo de desaparecer, apenas para recomeçar no instante em que nasce uma nova Virgínia.
Reno Fioraso
Para que lutar, se já não há alento
que avive a chama exânime do peito,
nem esperança que, por entre as ruínas,
ouse novamente florescer?
Tudo se foi.
Assim como a derradeira claridade
se desfaz no ocaso,
quando o Sol, fatigado de iluminar os homens,
recolhe seus derradeiros fulgores
e entrega os céus à cólera da tormenta,
também em mim se extinguiu a luz.
E aquele astro, outrora tão fulgente,
que entre miríades de estrelas
resplandecia como um presságio divino,
já não derrama sobre mim
sequer um tênue vestígio de sua luz.
Vejo-o ainda —
perdido na vastidão celeste,
além dos confins de meu alcance —
mas tão distante,
tão inexoravelmente distante,
que nem mesmo o desejo
poderia transpor a abóbada que nos separa.
Não há mais alvorecer.
Não haverá a brisa amena
das manhãs em que a própria natureza
parecia entoar cânticos de júbilo.
Não haverá o orvalho sobre as flores,
nem o perfume das matas despertando,
nem o canto das aves anunciando
o nascimento de um novo dia.
Tudo se foi.
E as folhas que outrora verdejavam
sobre os ramos da existência
agora se desprendem, uma a uma,
ao sopro inclemente do outono.
Caem.
Silenciosas, pálidas, desprovidas de seiva,
arrastadas pelo vento cruel
que as conduz para um solo sem memória.
Assim também definha o meu ser.
Pouco a pouco,
a derradeira clorofila de minha alma
abandona aquilo que ainda resta de vida;
e aquilo que outrora fora verde,
viçoso e pleno de seiva,
torna-se pálido, quebradiço e estéril.
Já não sou árvore.
Sou o que dela restou
depois que o inverno passou.
E busco, ainda,
nas profundezas obscuras da terra,
algum vestígio de minhas antigas raízes;
um fragmento sequer daquilo que fui,
uma memória adormecida sob o solo,
uma centelha que me restitua
ao princípio de minha existência.
Mas nada encontro.
Nem o néctar mais sublime
destilado do seio da Mãe Natureza,
nem a seiva primordial
que alimenta os troncos milenares,
nem o sopro fecundo que desperta
as sementes sepultadas no ventre da terra
seria capaz de devolver-me ao caule.
Porque há um instante
em que até as raízes esquecem a terra.
E quando isso acontece,
não existe primavera que possa restaurar
aquilo que a própria existência condenou ao fim.
Assim permaneço:
ignoto entre os homens,
estranho até para mim mesmo,
sem aurora, sem primavera, sem raízes,
condenado a contemplar de longe
a luz que um dia me pertenceu.
E talvez esta seja a mais cruel das mortes:
não morrer quando a vida abandona o corpo,
mas permanecer vivo
quando já não existe em nós
lugar algum
onde a vida possa retornar.
No canto do seu viver, a emoção e a razão fazem um dueto.
Agradar a todos certamente não faz parte do seu propósito; entretanto, ela faz questão de ter por perto os seus próximos — aqueles que conquistam de várias formas o seu afeto através de momentos duradouros, laços verdadeiros; entre encontros e reencontros, pois sem eles certamente o seu mundo não seria o mesmo.
O seu tempo de descontração é precioso, esbanja emoção quando canta e quando se expressa de outras maneiras, em cada ocasião, sempre espontânea, mas não dispensa a razão; sabe o quanto que pode custar uma decisão emotiva, tanto que, às vezes, prefere não arriscar — uma personalidade sincera, bastante seletiva.
A vida da sua jovialidade é entusiasmante, ainda que haja dificuldades, inseguranças e fases desafiantes; então, apresenta a sua perseverança e um daqueles sorrisos radiantes oriundos da infância. Tudo ao seu redor é revitalizado, as cores ganham força, principalmente se o canto do seu amor estiver ecoando para aqueles que se importam.
Há um vinho perdido, soterrado num fiapo de névoa fora da criação.
Não é uva, não é sangue é memória de um tempo anterior ao tempo.
Os astrólogos disseram que quem o encontrar sentirá o gosto de tudo que já foi sentido.
E também o que jamais deveria ser.
Os reinos em guerra não o buscam por sede, mas por fome de trono.
Querem o cálice, não o conteúdo.
Querem ser os que ditam o silêncio.
Não beberão, mas farão com que outros se curvem ao aroma.
Eu estou triste.
tão triste que já nem sei mais onde começa ou termina.
é um cansaço que não passa com descanso,
é um peso que não se explica
só se sente.
eu estou tão triste
que até existir parece esforço demais.
e o mais difícil de admitir
é que não é sobre querer ir embora…
é sobre não aguentar mais ficar assim.
eu estou cansada de estar triste.
cansada de tentar e não sair do lugar,
cansada de sustentar algo dentro de mim
que já não se sustenta sozinho.
tem dias que a vontade não é viver,
é só desaparecer um pouco…
silenciar tudo isso que não cala.
Eu disse que estou caindo.
e não é uma queda rápida
é lenta, contínua…
dessas que parecem não ter fundo.
eu estou em uma fase
que não suporta mais nada.
cada dor chega como se fosse única,
infinita, profunda, árdua…
como se eu não fosse atravessar.
e mesmo fazendo parte de um todo,
cada uma delas, sozinha,
já é um abismo.
neste momento
eu estou exausta.
cansada. triste. melancólica.
eu calo… e calo…
e ainda assim choro.
grito por dentro.
e não consigo desligar.
a vida me chama pra continuar,
me pede presença, responsabilidade, cuidado…
mas por dentro
tudo em mim só queria parar.
eu preciso ser forte para os outros,
mesmo quando ninguém é por mim.
então eu guardo a minha dor no bolso
e sigo… como dá.
tem tanta coisa que eu queria dizer,
retrucar, gritar, responder…
mas eu me calo.
e perdoo, em silêncio,
a insensatez de quem não sabe o que diz.
porque não sabem o que eu sinto.
não sabem como eu sinto.
e talvez seja melhor que não saibam.
porque desejar que saibam
seria desejar que sentissem o mesmo.
e eu não desejo isso a ninguém.
então não…
eu não espero que me entendam.
mas eu estou cansada.
cansada de uma dor
que não parece ter fim.
e quando tudo em mim acredita
que isso nunca vai passar…
o pensamento que vem
não é sobre viver
é sobre querer que isso acabe.
Falar da cor dos temporais
como quem nomeia o que não se deixa tocar.
Inventar tons para o que passa rápido demais,
para o que rasga o céu e não pede pra ficar.
Falar de coisas que ninguém viu,
nem os olhos mais atentos, nem a memória mais antiga.
Coisas que só existem no sentir,
no intervalo entre o que dói e o que ainda abriga.
Falar das flores de abril,
mesmo quando o chão insiste em silêncio.
Porque há sempre um brotar escondido,
um gesto de vida acima de qualquer sofrimento.
E então, dizer de tudo aquilo
que escapa do certo e do errado,
do que não cabe em medida, nem em julgamento
apenas existe… vasto, indomável, sentido.
Às vezes, a gente aprende no silêncio do que não aconteceu.
No intervalo entre o querer e o desistir, mora um tipo de verdade que ninguém ensina,
só se sente.
Tem coisas que não florescem, não por falta de cuidado,
mas porque não eram raízes para o nosso chão.
E tudo bem.
Nem tudo que chega é para ficar,
e nem tudo que vai leva embora o que fomos.
Há partidas que devolvem a gente para si.
No fim, a vida não é sobre segurar tudo,
mas sobre reconhecer o que merece ser permanência dentro da gente.
Deus, hoje eu só preciso que o Senhor me enxergue.
Não vim fazer uma oração bonita. Não vim repetir palavras que já não conseguem traduzir o que existe dentro de mim. Hoje eu só vim porque já não consigo carregar sozinha o peso que tenho sentido.
O Senhor conhece cada renúncia que fiz. Conhece cada desejo que calei, cada lágrima que escondi, cada vez que escolhi obedecer mesmo quando tudo em mim queria desistir. Eu tentei ser fiel. Tentei acreditar que toda espera teria um propósito e que nenhuma entrega feita ao Senhor seria em vão.
Mas existe um lado da espera sobre o qual quase ninguém fala.
Ninguém fala da angústia de um corpo que também sente. Da mulher que também deseja ser acolhida, amada, escolhida, desejada e cuidada. Ninguém fala da solidão que visita o quarto quando a noite chega, nem da batalha silenciosa entre a carne e o espírito. Como se viver um propósito anulasse aquilo que também fomos criados para sentir.
E eu sinto, Deus.
Sinto falta de um abraço que permaneça. De um olhar que me encontre. De alguém que faça o meu coração descansar sem que eu precise lutar tanto para acreditar que vale a pena continuar esperando.
Há dias em que me pergunto se não estou apenas assistindo à vida passar pela janela. Enquanto tantos vivem, constroem histórias e encontram companhia, eu permaneço aqui, presa entre crenças, renúncias e promessas que ainda não consigo tocar. Às vezes, tudo parece distante demais. Até a esperança.
Perdoa-me por dizer isso, mas hoje a espera pesa.
Pesa porque eu também sou carne. Sou mulher. Tenho emoções, tenho desejos, tenho medos. E, por mais que o meu espírito queira Te honrar, há dias em que meu corpo se cansa de esperar por respostas que nunca chegam.
Então eu Te pergunto, com toda a sinceridade que ainda me resta: o que o Senhor quer de mim que eu ainda não consegui compreender? Onde estou falhando? O que ainda preciso aprender? Porque eu tenho tentado. Tenho obedecido dentro das minhas limitações. Tenho permanecido quando tudo em mim queria correr para qualquer lugar onde a dor parecesse menor.
Se for para continuar esperando, faz com que essa espera se torne leve. Se ainda não chegou o tempo da resposta, sustenta-me até ela. Mas, por favor, não permita que eu me perca de mim enquanto caminho em direção à Tua vontade.
Olha para mim, Deus.
Não para a mulher que tenta parecer forte diante dos outros, mas para a filha que hoje se sente cansada, confusa e profundamente aflita. Acolhe aquilo que nem eu consigo nomear. Abraça o que em mim está ferido. E, se eu estiver caminhando na direção certa, dá-me apenas a graça de continuar.
Porque hoje eu não preciso de explicações.
Hoje eu só preciso sentir que o Senhor continua aqui.
Expressar sentimentos através da música requer repertório. Não apenas musical, mas também emocional. Quem vive, sente. Quem sente, reconhece. E quem reconhece, escolhe canções que dizem o que as palavras, muitas vezes, não conseguem dizer.
Orar sem cessar
Aprendi que a oração não é um lugar para onde vou. É um lugar onde permaneço.
Sim, há momentos em que o silêncio de um quarto fechado se faz necessário. Há dias em que tudo o que preciso é parar, respirar e derramar a alma diante de Deus. Jesus nos ensinou o valor desse encontro íntimo. Mas limitar a oração a esses momentos seria esquecer que Deus caminha comigo também do lado de fora.
Oro enquanto estou viva.
Converso com Deus enquanto trabalho, enquanto cuido da casa, enquanto lavo a louça, enquanto caminho, entre uma fotografia e outra, enquanto observo o mundo através da minha lente. Muitas das minhas orações sequer atravessam os meus lábios. São diálogos silenciosos, profundos, que nascem no pensamento e encontram um Deus que conhece cada palavra antes mesmo que ela seja pronunciada.
É isso que entendo quando a Bíblia nos exorta a "orar sem cessar". Não significa viver ajoelhada o tempo todo, mas viver consciente da presença de Deus o tempo todo.
Orar é transformar a rotina em comunhão.
Também descobri que algumas orações precisam ser escritas. Não porque Deus necessite ler aquilo que já conhece, mas porque eu preciso me lembrar do que entreguei. Escrever é um ato de fé. É registrar o que pesa, o que espero, o que temo e aquilo que ainda não compreendo.
Quando Deus responde, essas palavras deixam de ser apenas orações. Tornam-se testemunhos.
Voltar a elas é perceber que Deus já estava trabalhando quando eu imaginava que apenas escrevia. Cada página se transforma em memória da Sua fidelidade, lembrando-me de que nenhuma oração sincera se perde diante d'Ele.
A oração não é uma obrigação religiosa, nem um conjunto de palavras decoradas. É relacionamento. É abrir o coração sem máscaras, sem discursos elaborados, sabendo que Deus não espera uma eloquência perfeita, mas uma sinceridade inteira.
Por isso, não espero o momento ideal para falar com Ele. Eu O encontro em qualquer lugar, porque Ele está em todos eles. Faço da oração uma conversa contínua, um diálogo que atravessa os meus dias e habita os meus silêncios.
Porque a oração não interrompe a vida.
Ela é a maneira como escolho vivê-la, em constante diálogo com Aquele que nunca deixa de me ouvir.
Não importa quanto tempo ficou para trás; o que importa é salvar o que ainda está por vir.
Há pessoas que passam a vida inteira lamentando os anos que perderam, como se o passado ainda pudesse ser reescrito. Mas o tempo não negocia com arrependimentos. Ele apenas segue.
O que ainda está em suas mãos não é o ontem, mas o hoje. E é justamente o hoje que molda o amanhã.
Talvez você tenha desperdiçado oportunidades, insistido em caminhos errados ou permanecido onde já não havia vida. Ainda assim, enquanto houver um novo amanhecer, haverá a possibilidade de uma nova escolha.
Não permita que os erros de ontem roubem também os dias que ainda não chegaram. O passado pode explicar quem você foi, mas não tem o direito de decidir quem você será.
No fim das contas, a maior perda não é o tempo que ficou para trás. É continuar perdendo o tempo que ainda resta.
Salve o que ainda está por vir. Às vezes, uma única decisão tomada no presente é capaz de redimir anos inteiros de espera.
Como se devolve aquilo que nunca se recebeu?
Você sabe o que é não ter e, ainda assim, ter que ter para dar? É aprender a esconder a própria fome para repartir o pão. É guardar a dor na gaveta porque alguém precisa encontrar em você um abraço. É enxugar as lágrimas antes que elas caiam, porque há outras lágrimas esperando o seu ombro.
Há dias em que a vida parece nos cobrar exatamente aquilo que nunca nos ofereceu: um amor que nunca nos ensinaram, uma paciência que nunca tiveram conosco, um cuidado que um dia desejamos receber, mas que nunca chegou.
E, então, nasce a pergunta que atravessa a alma: como se devolve aquilo que nunca se recebeu?
Talvez a resposta seja dura. Não se devolve. Porque ninguém pode devolver o que nunca teve.
O que fazemos é diferente. Escolhemos construir. Escolhemos oferecer justamente aquilo que nos fez falta. Não porque transbordamos, mas porque conhecemos a dor da ausência. Quem já caminhou pelo frio sabe o valor de um cobertor. Quem já enfrentou o abandono compreende o peso de uma presença. Quem já implorou por amor aprende, mesmo entre cicatrizes, a semear aquilo que um dia esperou colher.
Mas até a terra mais fértil precisa de chuva.
E há momentos em que é preciso voltar para dentro de si. Habitar a própria casa. Abrir as janelas da alma, tocar as paredes que o tempo ergueu em silêncio e lembrar que também somos lugar de descanso. Porque quem vive oferecendo luz aos outros não pode esquecer de acender a própria.
Talvez seja esse o maior milagre: transformar a ausência em presença, a falta em cuidado e a dor em um amor que, embora nunca tenha sido recebido da forma esperada, escolheu existir.
No fim, talvez não se trate de devolver aquilo que nunca recebemos. Talvez se trate de impedir que a ausência determine quem nos tornaremos. Porque as maiores virtudes, muitas vezes, nascem justamente daquilo que mais nos faltou.
É difícil ser amargo quando se é doce.
A doçura não é um comportamento que se veste conforme as circunstâncias; é uma natureza. Quem é doce por essência pode endurecer a postura, mas raramente endurece o coração. Pode aprender a dizer "não", a partir, a proteger-se, mas sem perder aquilo que o define.
É difícil ser amargo quando a alma foi feita para espalhar leveza. Porque a essência sempre encontra um jeito de falar mais alto do que as feridas.
Leva-me para perto
Quando minhas forças se desfazem,
não me deixes cair no vazio.
Levanta-me com a delicadeza
de quem conhece cada parte quebrada de mim.
Segura minha mão
até que o medo desaprenda o caminho de volta.
Acolhe-me junto ao teu peito,
onde o mundo perde o ruído
e a alma finalmente descansa.
Leva-me para perto da tua luz.
Há tanta noite em mim
pedindo um único amanhecer.
Cuida de mim
como quem protege uma chama
que insiste em permanecer acesa,
mesmo quando o vento parece mais forte.
Reveste-me do teu amor,
da tua paz,
da segurança dos teus braços.
Porque é em Ti
que encontro abrigo,
é em Ti
que volto a respirar.
E, se eu me perder de mim,
leva-me de volta
ao único lugar
onde sempre estive verdadeiramente a salvo:
o teu coração.
Entre a menina e a mulher
Tenho andado sozinha.
Não porque não queira companhia, mas porque há caminhos que ninguém pode percorrer por nós. Há silêncios que precisamos atravessar sozinhas, perguntas que somente o tempo sabe responder e versões de nós mesmas que precisam partir para que outras possam nascer.
Tenho andado assim: aprendiz, menina, mulher.
Às vezes, ainda sou aquela menina que se assusta diante do mundo, que procura abrigo, que acredita, que espera, que guarda sonhos como quem protege uma pequena chama do vento. Em outras, sou a mulher que a vida foi esculpindo à força de perdas, recomeços, esperas e algumas dores que ninguém viu.
E talvez crescer seja justamente isso: não abandonar a menina que fomos, mas aprender a acolhê-la com os braços da mulher que nos tornamos. Quando me perco, já não procuro alguém para me encontrar. Volto para dentro, procuro os pedaços que deixei pelo caminho, recolho meus sonhos, escuto meus silêncios e sigo.
Porque descobri que, muitas vezes, quando penso que estou perdida, estou apenas deixando de ser quem já não cabe em mim. Tenho andado sozinha, sim, mas já não caminho vazia. Levo comigo a menina que ainda sonha, a mulher que aprendeu a resistir e todas as versões de mim que tiveram coragem de continuar.
E talvez seja esse o meu verdadeiro encontro: quando me perco da menina, encontro a mulher. E quando encontro a mulher, finalmente compreendo que a menina nunca esteve perdida. Ela apenas estava me esperando crescer o suficiente para voltar para casa.
