Nao Acabou pra Mim
A dor não me visitou para me quebrar, veio para me ensinar a reconhecer, no que sangra, a única verdade que não sabe mentir.
Há tristezas que não pedem consolo, apenas uma cadeira vazia e o respeito de quem aprendeu a ouvir o próprio ruído interno.
A tristeza mais funda não faz alarde, ela se senta ao lado da alma e a convence de que o silêncio também é um idioma.
Há dores que não procuram resposta, porque a pergunta já é a resposta: continuamos vivos, mesmo depois do que nos diminuiu.
Minha melancolia não é desistência, é o modo que encontrei de olhar o abismo sem negociar minha humanidade.
O sofrimento, quando não me destrói, me afina, ele remove excessos e deixa exposta a nota grave que sempre esteve escondida.
Há um tipo de tristeza que não afunda: ela paira, pesada, sobre a rotina, transformando o banal em lembrança de naufrágio.
Existem dias em que o coração não quebra, apenas se torna mais nítido, e essa nitidez dói como luz em olhos cansados.
Aprendi que a dor não pede licença para existir; ela entra, rearranja a casa e, se eu sobreviver, ainda me obriga a agradecer pela mobília que restou.
Quando ninguém me espera, o tempo perde sua educação e mostra que a existência não tem plateia, tem apenas presença.
Há solidões que não expulsam, apenas iluminam o contorno exato daquilo que eu nunca tive coragem de admitir.
O vazio não me assusta quando o reconheço, o que me apavora é a tentativa de preenchê-lo com qualquer coisa que não seja verdade.
A solidão não me roubou; ela retirou o excesso de vozes até sobrar a pergunta que realmente importava.
Voltar ao começo não é caminhar para trás. É ter coragem de encontrar, entre os escombros, a versão de nós mesmos que ficou esperando para ser amada.
O arrependimento é uma espécie de fantasma: não grita, não corre, não ameaça. Apenas senta ao nosso lado nas madrugadas e nos obriga a lembrar.
Minha epifania não veio como luz.
Veio como uma porta que se abriu apenas para revelar outra fechada atrás dela.
Por alguns instantes, acreditei que a vida finalmente havia decidido me surpreender com gentileza. A notícia chegou como quem devolve o ar aos pulmões de alguém que estava se afogando. Sorri. Acreditei. Permiti-me imaginar possibilidades que eu havia enterrado há muito tempo.
Mas algumas esperanças são frágeis demais para sobreviver à verdade.
Então veio a segunda notícia.
E com ela, a compreensão cruel de que aquilo que parecia uma bênção era apenas um erro. Um equívoco. Uma felicidade enviada ao destinatário errado.
Minha epifania foi perceber que, às vezes, a pior notícia não é aquela que chega trazendo dor. É aquela que primeiro chega trazendo esperança.
Porque a dor machuca.
Mas a esperança, quando é arrancada das mãos, leva junto pedaços de nós que nem sabíamos que ainda estavam vivos.
- Tiago Scheimann
Descobri tarde demais que a liberdade não era um presente.
Era uma sentença.
Ninguém me empurrou para os erros que carrego.
Ninguém escolheu por mim os caminhos que me quebraram.
A vida apenas colocou as portas diante de mim e observou, em silêncio, enquanto eu escolhia qual delas me destruiria.
- Tiago Scheimann
A pior solidão não é estar sozinho.
É perceber que ninguém jamais visitará os lugares onde você mais sofreu.
As pessoas conhecem seu rosto.
Conhecem sua voz.
Conhecem sua história resumida.
Mas existem corredores inteiros de escuridão dentro de você que permanecerão desconhecidos até o último dia.
- Tiago Scheimann
Às vezes olho para trás e não sinto saudade de quem eu era. Sinto pena. Pena daquele homem que acreditava que a dor tinha um propósito, sem saber que algumas feridas simplesmente acontecem, permanecem e envelhecem conosco.
