Nao Acabou pra Mim
A realidade não se entrega pronta; deve ser buscada com meticuloso discernimento. Muito do que ouvimos são opiniões, e muito do que vemos são aparências. A prospecção do real exige esforço e lucidez.
Não permita que a alma dê abrigo ao sofrimento; há dores que chegam sorrateiras, se assentam sem pedir e tornam-se permanentes.
Muitos não suportam ser contrariados; veem no debate uma afronta. Quem realmente quer avançar, porém, ouve seu crítico atentamente.
Naquele momento, não foi possível ver o que aquilo revelava, nem sentir o que havia no ar. Mas a névoa da ingenuidade se dissipou, e agora tudo faz sentido: nas palavras havia sabedoria; no ar, sentimento.
Se suas forças interiores já não o empurram adiante e você se sente perdido na floresta, pare. Reflita. Olhe ao redor. Há uma fortaleza em você — apenas ainda não conseguiu acessá-la. Procure uma rota onde a alma encontre algum repouso e as inseguranças percam terreno. Não mergulhe nas frustrações do presente; recorde as vitórias que já alcançou. Refaça-se, estabilize-se entre o íngreme e o plano e siga, enfim, com passos firmes e prudentes.
O mundo não lhe prometeu justiça; muitos só lembram da justiça quando os ventos não sopram ao seu favor.
Em sua caminhada, ele chega a uma bifurcação. Para decidir, não reflete muito; apenas olha ao redor. Como a paisagem lhe parece a mesma, conclui que qualquer rota serviria e segue adiante sem fazer o desvio.
Mais à frente, encontra um transeunte e pergunta:
— Aonde me leva este caminho?
O homem responde:
— Este caminho leva a um abismo profundo. E o desvio já ficou para trás.
Assim é a vida: muitas escolhas parecem irrelevantes porque, no início, a paisagem quase não muda. Mas é justamente nelas que o destino se inclina.
Distraídos com a paisagem, as escolhas não parecem importantes; mas, quando o abismo chega, o desvio pode já ter ficado para trás.
Mesmo quando a verdade parece prejudicá-lo, não renuncie à honestidade. O que os enganadores lucram nunca iguala a dignidade dos íntegros.
Não basta fazer o certo; é preciso fazê-lo pela razão certa. É isso que define o valor do seu efeito no mundo.
Quem nada fez não deveria se queixar do caos; a ordem que desejava pronta custou o esforço que não quis empregar.
O melhor da vida não está no que se idealiza, mas no simples viver com a consciência de que cada momento já é vida.
A pior das armadilhas é a que não nos derruba de uma vez, mas nos acostuma, aos poucos, a viver abaixo do que poderíamos ser.
O mundo sempre foi e continuará caótico e ruidoso; ainda assim, não perde a paz quem governa a própria alma.
