Nao Acabou pra Mim
QUANDO A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL COMEÇA A PENSAR POR NÓS
A inteligência artificial não precisa dominar o ser humano para diminuir sua autonomia. Basta que o ser humano deixe de dominar aquilo que delega a ela.
A grande questão do nosso tempo talvez não seja se as máquinas conseguirão pensar como nós, mas se continuaremos pensando quando elas puderem pensar por nós.
Pensar com uma máquina não é o mesmo que entregar à máquina aquilo que deveríamos continuar pensando.
A tecnologia pode ampliar a inteligência sem ampliar a consciência. Pode acelerar a resposta sem acelerar a compreensão. Pode entregar conhecimento sem entregar discernimento.
E aqui mora o periGO: aquilo que nos ajuda a PENSAR também pode, silenciosamente, começar a PENSAR por nós.
Quanto mais pronta a resposta, maior deveria ser nossa disposição para perguntar.
Porque uma resposta pode estar pronta sem estar certa.
Pode estar CERta e ainda nos tornar inCERTos sobre aquilo que realmente sabemos.
A inteligência artificial produz respostas. O problema começa quando transformamos produção em comprovação.
PRODUZIR não é PROVAR.
INFORMAR não é FORMAR.
RESPONDER não é compreender a PERGUNTA.
Saber utilizar uma ferramenta não significa saber avaliar aquilo que a ferramenta utiliza para nos convencer.
É por isso que tenho insistido, em minha produção acadêmica sobre discernimento, educação, metacognição e autonomia, numa diferença aparentemente pequena, mas decisiva: receber informação não significa conceder autoridade à informação.
A mente recebe.
A consciência percebe.
O discernimento pesa.
E aquilo que não PESAMOS pode acabar PESANDO sobre nós.
Talvez este seja o paradoxo da inteligência artificial: quanto mais inteligente se torna a ferramenta, mais inteligência precisamos desenvolver para não terceirizarmos a nossa.
Não devemos ter medo de máquinas que aprendem.
Devemos prestar atenção em seres humanos que desaprendem porque as máquinas aprenderam por eles.
DESaprender pode ser necessário para REaprender.
Mas desaprender a pensar para aprender a pedir respostas é outra coisa.
Quando perguntamos tudo, corremos o risco de deixar de perguntar a nós mesmos.
Quando terceirizamos todas as respostas, podemos terceirizar também as perguntas.
E quem terceiriza a pergunta talvez já tenha terceirizado parte do pensamento antes mesmo de receber a resposta.
Por isso, não basta prestar atenção na resposta produzida pela inteligência artificial.
É preciso prestar atenção na ATENÇÃO que estamos prestando à resposta.
Depois, é necessário ir além.
Precisamos observar os critérios com os quais julgamos aquilo que observamos.
Porque pensar sobre o pensamento ainda é pensamento.
Discernir exige decidir quanto poder aquilo que pensamos continuará tendo para pensar por nós.
A pergunta do futuro, portanto, não será apenas:
“O que a inteligência artificial consegue fazer?”
Será também:
“O que deixamos de conseguir fazer depois que ela começou a fazer por nós?”
A inteligência artificial pode ser uma extraordinária ferramenta de emancipAÇÃO.
Mas toda emancipAÇÃO tecnológica exige responsabilidade sobre a própria AÇÃO.
Caso contrário, aquilo que deveria ampliar nossa AUTOnomia poderá apenas automatizar nossa HETEROnomia.
A máquina não precisa nos substituir.
Basta que, pouco a pouco, substituamos a nós mesmos.
O verdadeiro desafio não é impedir que a inteligência artificial aprenda a pensar.
É impedir que o ser humano aprenda a NÃO pensar.
Porque talvez o maior risco da inteligência artificial não seja uma máquina adquirir consciência.
Talvez seja o homem, cercado de inteligência, abrir mão da própria.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador
A mente não precisa MENTIR para nos enganar; basta que acreditemos nela sem interrogá-la.
Carlos Eduardo Balcarse
O pensamento que não aceita ser PENSADO acaba, silenciosamente, pensando por nós.
Carlos Eduardo Balcarse
Quem não examina o próprio pensamento transforma opinião em prisÃO e convicção em carcereiro.
Carlos Eduardo Balcarse
Não basta mudar de ideia; é preciso descobrir se fomos nós que mudamos a ideia ou se a ideia mudou quem somos.
Carlos Eduardo Balcarse
A pergunta mais perigosa não é a que não tem resposta, mas a que recebe uma resposta antes de merecer confiança.
Carlos Eduardo Balcarse
Não somos livres porque pensamos; somos mais livres quando conseguimos decidir quanto poder conceder ao que pensamos.
Carlos Eduardo Balcarse
A ideia que não pode ser interrogada já não pede compreensão: exige submissÃO.
Carlos Eduardo Balcarse
Saber muito não impede o erro; às vezes apenas oferece ao erro um vocabulário melhor.
Carlos Eduardo Balcarse
O excesso de informação não elimina a ignorância; pode apenas torná-la mais bem INFORMADA.
Carlos Eduardo Balcarse
Conhecer a resposta não significa conhecer o caminho que tornou a resposta conhecível.
Carlos Eduardo Balcarse
A evidência não deve servir à certeza; a certeza é que deve aprender a SERVIR à evidência.
Carlos Eduardo Balcarse
O saber que não suporta revisão não quer ser conhecimento; quer ser autoridade.
Carlos Eduardo Balcarse
Uma crença pode sobreviver à falta de evidência; uma investigação séria não deveria sobreviver à falta de dúvida.
Carlos Eduardo Balcarse
O fato não precisa concordar conosco; somos nós que precisamos aprender a discordar de nós diante do fato.
Carlos Eduardo Balcarse
Usar inteligência artificial não é deixar de pensar; deixar de pensar porque a usamos é que pode ser inteligência ARTIFICIAL demais e autonomia humana de menos.
Carlos Eduardo Balcarse
A resposta instantânea pode economizar minutos e custar anos de capacidade não exercitada.
Carlos Eduardo Balcarse
A IA não precisa substituir o ser humano; basta que o ser humano se acostume a substituir a si mesmo.
Carlos Eduardo Balcarse
A ferramenta que facilita o fazer não pode nos impedir de descobrir se ainda sabemos FAZER.
Carlos Eduardo Balcarse
