Morar
opostos
eu sou de uma hora pra outra
você, tem hora pra tudo
eu deixo roupas aos cantos
você, no cabide
eu prefiro som alto, gente correndo e bafafá
você, prefere pipoca, pijaminha e sofá
eu bebo cerveja
você, vinho
eu passo da conta
você, vê
eu mato a barata
você, vem atrás, gritando: “joga essa merda pra lá!”
eu compro a cebola, o alho e um peito de frango
você, faz
se eu tento fazer
você ri
eu prefiro pizza
você, tanto faz
eu prefiro os EP’s de Caetano
você, Engenheiros
às terças, quintas e sextas
a gente combina:
fico com a louça e recolho as merdas do cachorro
você, dá uma geral na cozinha e limpa o banheiro
se alguma coisa dá errada, você olha pra mim e diz:
“a gente precisa conversar, isso e aquilo!”
eu olho pra ti e digo:
“a gente se vira, depois eu vejo isso!”
deu na tv esses dias e comentei contigo:
“cientistas provaram que os opostos se atraem.”
eu disse que era mentira, os opostos se completam
você riu e concordou comigo.
Onde quero morar até a morte chegar
Vários lugares ja andei, por muitos lugares viajei... mas tem que um que quero sempre percorrer e se possível morar. Os caminhos misteriosos do seu corpo, no calor do seu desejo, no brilho do seu olhar ao me ver despindo-me, no gosto do seu beijo onde mora o desejo, esse desejo de querer mais do que só beijar, mais do que só abraçar, esse desejo de amar intensamente até cansar e a morte desejar.
Pois morrer amor é uma bela forma de amar.
Erika Renata de Macedo Andrade
O alto preço de viver longe de casa
Voar: a eterna inveja e frustração que o homem carrega no peito a cada vez que vê um pássaro no céu. Aprendemos a fazer um milhão de coisas, mas voar… Voar a vida não deixou. Talvez por saber que nós, humanos, aprendemos a pertencer demais aos lugares e às pessoas. E que, neste caso, poder voar nos causaria crises difíceis de suportar, entre a tentação de ir e a necessidade de ficar.
Muito bem. Aí o homem foi lá e criou a roda. A Kombi. O patinete. A Harley. O Boeing 737. E a gente descobriu que, mesmo sem asas, poderia voar. Mas a grande complicação foi quando a gente percebeu que poderia ir sem data para voltar.
E assim começaram a surgir os corajosos que deixaram suas cidades de fome e miséria para tentar alimentar a família nas capitais, cheias de oportunidades e monstros. Os corajosos que deixaram o aconchego do lar para estudar e sonhar com o futuro incrível e hipotético que os espera. Os corajosos que deixaram cidades amadas para viver oportunidades que não aparecem duas vezes. Os corajosos que deixaram, enfim, a vida que tinham nas mãos, para voar para vidas que decidiram encarar de peito aberto.
A vida de quem inventa de voar é paradoxal, todo dia. É o peito eternamente divido. É chorar porque queria estar lá, sem deixar de querer estar aqui. É ver o céu e o inferno na partida, o pesadelo e o sonho na permanência. É se orgulhar da escolha que te ofereceu mil tesouros e se odiar pela mesma escolha que te subtraiu outras mil pedras preciosas.
E começamos a viver um roteiro clássico: deitar na cama, pensar no antigo-eterno lar, nos quilômetros de distância, pensar nas pessoas amadas, no que eles estão fazendo sem você, nos risos que você não riu, nos perrengues que você não estava lá para ajudar. É tentar, sem sucesso, conter um chorinho de canto e suspirar sabendo que é o único responsável pela própria escolha. No dia seguinte, ao acordar, já está tudo bem, a vida escolhida volta a fazer sentido. Mas você sabe que outras noites dessa virão.
Mas será que a gente aprende? A ficar doente sem colo, a sentir o cheiro da comida com os olhos, a transformar apartamentos vazios na nossa casa, transformar colegas em amigos, dores em resistência, saudades cortantes em faltas corriqueiras?
Será que a gente aprende? A ser filho de longe, a amar via Skype, a ver crianças crescerem por vídeos, a fingir que a mesa do bar pode ser substituída pelo grupo do whatsapp, a ser amigo através de caracteres e não de abraços, a rir alto com HAHAHAHA, a engolir o choro e tocar em frente?
Será que a vida será sempre esta sina, em qualquer dos lados em que a gente esteja? Será que estaremos aqui nos perguntando se deveríamos estar lá e vice versa? Será teste, será opção, será coragem ou será carma?
Será que um dia saberemos, afinal, se estamos no lugar certo? Será que há, enfim, algum lugar certo para viver essa vida que é um turbilhão de incertezas que a gente insiste em fingir que acredita controlar?
Eu sei que não é fácil. E que admiro quem encarou e encara tudo isso, todo dia.
Quem deixou Vitória da Conquista, São José do Rio Preto, Floripa, Juiz de Fora, Recife, Sorocaba, Cuiabá ou Paris para construir uma vida em São Paulo. Quem deixou São Paulo pra ir para o Rio, para Brasília, Dublin, Nova York, Aix-en-provence, Brisbane, Lisboa. Quem deixou a Bolívia, a Colômbia ou o Haiti para tentar viver no Brasil. Quem trocou Portugal pela Itália, a Itália pela França, a França pelos Emirados. Quem deixou o Senegal ou o Marrocos para tentar ser feliz na França. Quem deixou Angola, Moçambique ou Cabo Verde para viver em Portugal. Para quem tenta, para quem peita, para quem vai.
O preço é alto. A gente se questiona, a gente se culpa, a gente se angustia. Mas o destino, a vida e o peito às vezes pedem que a gente embarque. Alguns não vão. Mas nós, que fomos, viemos e iremos, não estamos livres do medo e de tantas fraquezas. Mas estamos para sempre livres do medo de nunca termos tentado. Keep walking.
O medo segue os nossos sonhos, menina linda eu quero morar na sua rua, você deixou saudade. quero te ver outra vez, você deixou saudade.
No último andar é mais bonito:
do último andar se vê o mar.
É lá que eu quero morar.
O último andar é muito longe:
custa-se muito a chegar.
Mas é lá que eu quero morar.
Todo o céu fica a noite inteira
sobre o último andar
É lá que eu quero morar.
Quando faz lua no terraço
fica todo o luar.
É lá que eu quero morar.
Os passarinhos lá se escondem
para ninguém os maltratar:
no último andar.
De lá se avista o mundo inteiro:
tudo parece perto, no ar.
É lá que eu quero morar:
no último andar.
Homem de verdade não é aquele que constrói um castelo para você morar, mas o que faz do próprio coração o melhor lugar para você ficar.
São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons deixam a vontade impossível de morar neles; se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições.
Nota: Trecho da crônica Sugestões para atravessar agosto, publicada originalmente no jornal "O Estado de S. Paulo", em 6 de agosto de 1999.
...MaisQueria contigo morar
Para realizar um grande desejo
Viver sem medo de amar
E em teus braços morrer no chamego.
Acordar e sentir o doce cheiro que exalas
Apertar-te e realmente certificar que não é um sonho,
Você realmente está ao meu lado!
E como um anjo
Dizer-te palavras doces e singelas
Numa fria e ainda escura manhã de outono.
Queria que todo dia
Pudéssemos nos tratar pelo que sentimos um pelo outro
Não pelas pequenas coisas que nos interferem
Numa apaixonada troca de olhares
Nos abraços apertados
Que deveriam ser
Acompanhados de beijos
E promessas de amor.
Ao teu lado
Sinto em demasiada alegria
Como um bebê no colo de sua mãe
Que sem ela
Ele nada seria.
Sinto também um fogo
Que queima sem parar.
Um coração que falta saltar
Através de uma simples troca de olhares
Ou de uma pequena briga
Ou de um simplesmente um acariciar sem malícia.
Um coração
Que mesmo quando amargurado
Sabe entender o que dizes
Não deixa criar raízes
De palavras ofensivas
Ditas da boca pra fora
Que logo
E sem demora
São substituídas por gestos de carinho.
A cada dia que passa
Meu coração sem saber
Bate por você
À espera de um novo reencontro
Como se um dia
Se resumisse
Em uma eternidade
Sem você.
Você pra mim
É essencial
E único
É por isso
Que EU TE AMO.
Dedicado a Givaldo Jr.
Dentro do Corpo
Há dias em que morar em mim é como habitar um corpo alheio.
O peito pulsa em golpes bruscos, como martelos sem compasso,
e cada batida ecoa por dentro como se o coração buscasse um rumo que perdeu.
O ar pesa.
Não é que falte oxigênio — é que cada tentativa de inspirar
parece empurrar contra um muro invisível.
O pulmão enche, mas a dor o esvazia antes do suspiro terminar.
Os músculos se tornam fios trêmulos,
sustentando um corpo que ameaça despencar a cada passo.
O cansaço não é sono; é um colapso silencioso
que pede desligar tudo, como quem reinicia uma máquina cansada demais para funcionar.
Por dentro, tudo treme.
Não é frio, não é medo — é um estremecimento que começa no centro e se espalha,
como se o corpo tentasse se desligar para proteger o que resta.
E, no entanto, permaneço.
Não por escolha heróica,
mas porque, mesmo perdido, o coração insiste em bater.
E eu sigo, acompanhando-o,
como quem atravessa a noite sem saber se haverá amanhecer.
Morar fora é se conhecer muito mais. É amadurecer e ver um mundo de possibilidades à sua frente. É perceber que é possível, sim, fazer tudo aquilo que você sempre sonhou e que parecia tão surreal. É notar que o mundo está na sua cara e você pode conhecê-lo inteiro. É ver seus objetivos mudarem. É mudar de ideia. É colocar em prática. É sentir sua mente se abrir muito mais, em todos os momentos. É se ver aberto para a vida. É não ter medo de arriscar. É aceitar desafios constantes. É se sentir na Terra do Nunca e não querer voltar. É pensar em voltar e não conseguir se imaginar no mesmo lugar. Morar em outro país é se surpreender consigo mesmo. É se descobrir e notar que, na verdade, você não conhecia a fundo algo que sempre achou que conhecia muito bem: você mesmo.
Não toque a alma
Se não quiser morar em meu pensamento
Nem pegue minha mão
Caso queira ir por um atalho
Sou assim
Cheio de verdades
Ou é tudo
Ou infinitas saudades.
Eu estava recém-separada e com aquele discurso cafona de de não morar junto nunca mais. Mas aí você começou a jogar sujo, e fez coisas terríveis e imperdoáveis, como brincar com o meu filho e saber o número do meu pé. E eu fui estudando desesperadamente para descobrir os seus defeitos, porque não era possível alguém acordar bem-humorado e ainda por cima fazer cappuccino com aquela espuma profissional. E assim eu fui ficando… uma semana, um mês, sete anos. E assim estou, sem planos de ir embora.
