Mistério da Vida
🌿Quando Chega a Nossa Vez de Continuar a História 🌿
Por Kate Salomão
Era um dia frio, o vento parecia querer machucar, cheguei em casa logo após o sepultamento de minha avó Maria, me senti uma estranha em minha própria casa, o ambiente ecoava uma paz intrusa, um silêncio constrangedor.
Eu não consegui sentir nada.
Acontece que essa insensibilidade me assustou imensamente, eu era uma das netas mais apegadas em minha avó.
Com isso em mente caminhei dentro daquela casa enorme e sombria e me vi perdida sem saber em qual cômodo eu iria me esconder. Escolhi a sala. O sofá me pareceu convidativo, minha mente precisava desesperadamente de barulho, fosse qual fosse, então liguei a televisão, passava a "A lista de Schindler", entretanto minha alma gélida e insensível não se comoveu com a história triste do filme até que adormeci.
A realidade foi que enquanto eu sonhava, fui transportada para minha casa que estava acolhedora e iluminada pelo sol, a mesa da sala de jantar exalava a fragrância de lavanda do lustra móveis, que se misturava ao cheiro de bolo de fubá fresco recém tirado do forno.
Na sala de estar, sentada quieta e concentrada na notícia que passava na televisão, lá estava ela: a vó Maria com seu rosto idoso e suave, usando o seu lenço simples e branco nos cabelos finos e grisalhos, ela bordava um pano de prato e estava atenta ao jornal da tarde.
Acontece que passado algum tempo ela se levantou, colocou a caixinha de costura e o pano de prato inacabado sobre o sofá, olhou para mamãe e disse:
- Tenho que ir!
Bem acredite ou não, da sala de jantar de casa onde estávamos, o sonho nos transportou para o cemitério, nós entramos e pelas vielas estreitas seguimos em paz e lentamente, até que chegamos no túmulo com a foto da vovó.
Eu abruptamente e sem pensar disse:
- Vou com a senhora!
Ela disse com amor e decididamente:
- Agora não. Volte e viva.
Acordei com ânsia de vômito, eu sabia que agora era minha vez de escrever nossa história.
Estando pronta ou não.
Essa ponte divisória de mistérios que liga o mundo visível ao invisível é o tempero que a vida usa para dar sabor à existência.
Ciente do valor do hoje sei o preço do amanhã. O ontem já virou história, lembrança de um bon-vivant.
Não adianta questionar
O futuro é incerto
O passado mais ainda
Basta apenas esperar,
Aguardar o que está perto
"Ofereça aos outros, sempre, aquilo que gostaria de ter para si."
Ela cresceu com esse pensamento...tanto ao ponto de apenas oferecer para os outros e esquecer de si. Tanto que a menina cheia de sonhos, expectativas e vida, acabou sumindo. Acabou não sabendo o que é...o que quer...e vive se perguntando pra que ela está aqui. Vive se perguntando - por que esse nó na garganta? Por que os olhos enchem de lágrima no simples pensar no amanhã mesmo tendo tudo o que muitos gostariam de ter? Mas ela não é sempre assim..tem dias que ela acorda animada,imagina um futuro lindo. E tem dias que ela nem pensa em nada..apenas segue a vida, com esperança de encontrar o motivo de tudo, esperança de descobrir o mistério da vida. Às vezes sinto pena dela..porque mal sabe ela que a beleza de tudo está no próprio mistério, e que tudo o que acontece com ela é porque ela permitiu, porque ela fez as escolhas. Enquanto isso ela segue, com dias bons, dias ruins, dias saudosos, dias inesquecíveis e dias em que tenta de toda forma esquecer mas, parece impossível. E assim vai, oferendo aos outros o que gostaria de ter para si.
PENSAMENTADIALOGANDO COMIGO MESMO
Se me perguntarem o que é a vida ?
(para além do estado de estar vivo e respirando)
Eu direi a vida é um pouco disso e daquilo.
E se me pedirem para discodificar o isso e aquilo direi:
Isso – é tudo que conseguimos sentir.
Ou seja, a nossa realidade.
Aquilo – é o que almejamos e vimos nos outros.
Ou ainda, a realidade deles no nosso sonho.
E se a ninguém convencer então direi:
A vida é a mesma incógnita que ambos indagamos.
A vida é uma mistura louca de nuances, de mistérios e lucidez, que faz com que os homens a desbravem e se inquietem desejando saber mais, ou ainda
ignorar tudo...
"Um brinde a vida e tudo que ela nos proporciona, tanto ao amor como a indiferença, tanto ao conhecimento quanto ao mistério, tanto ao riso quanto ao choro, porque ao final, o que há de importante mesmo, é o estar e o sentir."
Ao deixar o útero materno, sem consciência, trocamos a bolha de água pela bolha de ar, apenas para descobrir que a vida é uma sucessão de bolhas, onde cada transição nos prepara para mergulhar no mistério da próxima
A morte é uma lei universal e inevitável legislada pelo Criador de todas as coisas; É igualdade para diferentes classes sociais, gênero, cor e naturalidade; É a prova de uma vida que têm um ponto final e um mistério sobre o que há após isso.
O ser humano tem uma estranha mania de querer saber o significado de tudo, como se o mundo fosse um quebra-cabeça ou um grande enigma que para a nossa sobrevivência precisa ser desvendado. Essa necessidade de interpretar o mundo acaba o tornando pesado e tirando da vida a sua leveza, sua poesia e a possibilidade de desfrutá-la com prazer.
"Somos muito mais do que um conjunto de átomos
organizados pela “Mão do Grande Arquiteto”;
muito mais do que obra do fogo de Prometeu,
mais do que a combinação sagrada de barro e sopro;
mais do que poeira de estrela, ou energia em movimento;
somos feitos de histórias, vividas ou imaginadas.
Somos feitos de sentimentos e emoções
escancarados ou secretos;
somos feitos de saudade e esquecimento;
somos feitos de sonhos imensos e adiados;
e do encantamento que brota das
pequenas coisas possíveis que conseguimos realizar.
Somos feitos da mágoa secreta,
por tudo que poderíamos ter sido
e das histórias que nunca iremos contar.
Somos feitos do orgulho bobo pela grandeza das histórias vividas;
enquanto escondemos em alguma dobra do coração,
a culpa pelas histórias que não nos permitimos.
Somos feitos do “Não” que calamos
e sufocaram o “Sim” que poderia ter feito toda diferença.
Acho que disso é feito homem,
desse ofício sagrado de preencher o Tempo que nos foi dado,
enquanto vai amalgamando a imensidão do Mistério,
com essa a matéria frágil de que somos feitos.
Somos os personagens de um misterioso e criativo
“Contador de Histórias”, que nunca nos permite
Tocar nesse roteiro sagrado e às vezes cruel."
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Precisamos de novos horizontes de sabedoria.
Discernir espiritualidade e gestão.
A casa da vida tem espelhos de mistério.
& janelas para novos caminhos.
