Mensagens de uma Querida Mae de Luto
Escrevo por instinto e não por razão
Sou aquele animal ferido por uma lança
acuado, revolto, inflamado
Com sua língua lambe a ferida
Sorve seu próprio sangue
A palavra é meu sangue
Escrevê-la é minha língua
Eu trilho por caminhos cheios de espinhos
Uma estrada com muros
E praças fechadas
Dentro do caos
Que é viver
Dentro dos maus
Que é morrer
Eu vivo pulando as janelas
Dos hospitais e dos hospícios
Tento esconder minha gana
E sede de vingança
Mas as tormentas encontram
O pouso perfeito
Em meu coração
E eu desfaço a noite
Da minha razão.
Eu ando
Um passo por vez
Eu ando
Um segundo por vez
Eu ando
Uma existência por vez
Eu ando
Uma paisagem por vez
Eu ando
Uma vida por vez
Minha alma acompanha meus pés
Viver aqui
É de uma beleza descomunal
É intenso
É raro
É único
É profundo
É desafiador
É estranho
É hilário
É milagroso
É intrépido
É quase surreal...
Há uma luta pela palavra perfeita
Pela fruta da macieira que se entregará pura
- Ingênua, macia, cheirosa, saborida
e cairá no corpo faminto e desejoso
e será contemplada como o mais puro ouro
- O melhor dos prazeres!
Passarei a vida em busca desta maçã
tão doce, sutil e verdadeira.
Quando ela adentrar os meus lábios
não me entregarei a mais ninguém…
O chamado
Será a qualquer momento
Como uma brisa suave
Ou como um terrível vento
Será a qualquer momento
Não perguntará as cores
Nem os meus mais sérios intentos
Será a qualquer momento
Desfazendo as teias
Ou estendendo tormentos
Será a qualquer momento
Iludindo os sentidos
Ou execrando por dentro
Será a qualquer momento
Um pior desatino
Ou o melhor dos unguentos
Será a qualquer momento
Com a data marcada
Ou com surpresa do tempo
Será a qualquer momento...
E antes que ela chegue
Eu me entrego, forte, lento...
A morte...
Será a qualquer momento!
Amar uma mulher
Não é tão fácil assim
Conquistá-la
Amar uma mulher é vestir-se dos melhores cortejos
E das maiores verdades
Amar uma mulher é interpretar
Mundos secretos e extraordinários
Num único toque
Num único instante
Amar uma mulher é deliciar-se
Da doce presença
De um quê inconstante
Amar é uma mulher
a entregar-se à vida
à morte
ao inteiro prazer
de apenas se permitir ser
amado completamente...
Sou uma religiosa
Sem religião
Sou uma ateia
Cercada de deuses
Sou uma peregrina
Parada no tempo
Sou uma profana
Que embeleza o templo
Sou o riso puro
Na sordidez desmedida
Sou a palavra dada
No silêncio da noite
Sou a ternura plena
Na entranha do vil
Sou a estranha imagem
Do meu próprio desvario
Cada caminho um descaminho
Cada detalhe uma soma
Cada espaço um entalhe
Cada espera uma demora
Sigo a estrada do porvir
Cheia de sonhos e alianças
Pelo surgir da aurora
Entro nos passos desta dança
(Promessa)
Vou fustigá-lo com uma vara doce
Como se fosse
A sua quinta vez...
Vou retratá-lo no cume dos meus olhos
Ditosos de sonhos
Como nunca se fez...
Vou recriá-lo sublime e insano,
Mocinho profano
Calor de minha tez...
Vou embrulhá-lo no dom do caminho
Deixá-lo sozinho
Na embriaguez...
Vou costurá-lo em finos e trapos
Princesas e sapos
Conhecem o talvez.
(Amar é...)
Um abraço ou um braço a quem necessita
Uma palavra ou um ouvido amigo
Uma mão que levanta ou que divide a bagagem
Um olhar que compreende ou aponta um caminho
Um pão para o faminto ou uma canção aos seus ouvidos
...
Uma música, uma louça lavada, uma casa arrumada
uma esperança plantada, uma confiança conquistada
um alento merecido, um convite ao cinema
uma verdade dita, uma virtude desperta
um gesto singelo, um momento
um tempo… Presente!
na solidão
abraço meu coração
com a pequena mão
de uma revelação
- odeio rimas pobres!
mas elas não me odeiam, não...
consola-me saber
que a vida é maior que eu
… flutuo no tempo-espaço
como uma piscadela da galáxia
– da menor galáxia do universo!
não tenho importância
na quase infinda dança dos astros
e essa liberdade me encanta…
é a liberdade da descoberta
da minha bela insignificância!
ah, como é leve existir apenas
enquanto os dardos me apontam
e minhas mãos aprontam a cena
– uma igual história!
um conto qualquer, outro poema
e já não preciso dar conta dos meus dilemas!
ah, como é bonito ser apenas
enquanto as folhas bailam
e meus pés andantes acenam
– um instante à toa!
um fragmento, uma suave pena
e já não preciso de fugas nem de aplausos
– UM SALTO!
E nova moradia se faz em mim:
a vida é boa…
a vida é boa
… a s s i m!
maiêu-tica
estou prestes a ter uma ideia genial
PSIU!
silêncio!
preciso me concentrar
está vindo… está vindo
estou quase parindo
a ideia que ao mundo agitará
q u a s e
q u a s e
q u a s e l á
respira, inspira, expira
cadê a caneta?
cadê o papel?
celular, cadê?
ela está vindo
está vindo
v i n d o
veio!
viu?
alguém pegou?
não?
NÃO?
não acredito!
que pena… que aborrecimento!
já passou…
como pode uma alma ser tão triste, tão triste
a ponto de não conseguir nem mais sonhar?
– a tristeza profunda é isso:
nada de sonhos
nada de perspectivas
nada de ilusões as quais se agarrar...
como pesa deixar ir:
estou tão agarrada aos meus pedaços
no compasso de uma dança destemida
tudo se torna fragmento de mim
mãe
pai
irmã
irmão
filha
filho
todos são peças do meu quebra-cabeça particular
e o adeus dilacera um pouco mais
o que ainda resta dentro da garganta:
estilhaços de uma voz emudecida
pela despedida
das partes do meu espírito que
ainda sonham
vejo os olhos deles pela última vez
mas nunca sei!
até que um alarme soe e me avise:
outra parte de você
se foi…
[nunca existi inteira
agora
sou a peça derradeira]
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