Me Perdoa mas eu Tentei
Aqueles dias foram horríveis. Tragédias aconteciam, mas estavam fora do meu alcance; eu não desfrutava de ocasiões realmente felizes. Não conseguia chorar; o meu sorriso era amargo. Eu estava completamente vazio.
Este terno
Vê se você muda
Eu tô falando sério
Ler Pablo Neruda
É cheio de mistério
Vento de regresso
Vidas a conflitar
Outra gambiarra
Não irá me chocar
Uh... tira logo este terno
Você nunca avisa
É frio e impontual
Vejo no seu punho
Uma atração fatal
Estufa bem o peito
Antes da mancada
Ao menos você ri
Na hora marcada
Uh... eu já tirei este terno.
Quando você tiver certeza que se livrou de mim, eu surgirei novamente e lhe farei duvidar, pois é na ausência que me faço ainda mais presente e nos seus pensamentos que estabeleço a minha melhor morada.
Quero-quero
Me pergunto o que eu quero
Quero-quero beleza florestal
Voo rasante na incredulidade
Por um porquê fora do banal
Tenho certeza destas dúvidas
De anos atrás, de poucos dias
Elas apenas mudam de forma
Mas nunca foram esclarecidas
A maioria quer ir a um lugar
O destino é pouco importante
Se almeja a dispersão rápida
Fugir do ontem dali em diante
Melhor se ninguém procurasse
Chega, aproveita e rememora
São tão poucos querendo ficar
Sabedoria mesmo é ir embora
Quero-quero o que não tenho
Ponto de chegada e um pódio
Conquista que compense suar
Chamar sal de cloreto de sódio.
Aquela guria (que eu amo)
Eu amo aquela guria mais que tudo no mundo porque ela esteve comigo quando eu menos mereci e mais necessitei, da mesma forma que eu enxuguei o seu choro e na solidão do meu quarto chorei. Eu a amo porque ela me fez lembrar que sou capaz de verdadeiramente amar outra pessoa, que, no caso, é aquela guria.
O escolhido
Aquele foi um olhar de amor, eu pensei
Uma mulher sempre percebe, eu concluí
Como se pontos tivessem sido entregues
Como se esquecesse o que me trouxe ali
Um homem de verdade não diz "te amo"
De forma gratuita e indiscriminadamente
Entretanto, o denuncia de outros modos
Também retumbantes e desesperadamente
O amor feminino costuma despertar temor
É bem mais fácil envolver-se com outras
Do que com a garota que escolheu você
E você nunca a acha em quaisquer bocas
Aí existe a fuga desenfreada e cansativa
Negando a si mesmo a maior obviedade
Gostar por gostar você gostou de tantas
Ela você ama e já comenta toda a cidade
O sentimento latente bate na sua porta
Ele se chama Amor e pede para entrar
Você pensa muito porque não percebeu
A sua disposição imensa em se entregar.
O resgate
Um fantasma voltou a me assombrar
Eu o vi em todas as fotos, estava lá
Eu estou sentindo-me desesperado
Até escrevi um mirabolante recado
Achava que havia me livrado, errei
Estou palpitando, mas no fundo sei
Há muito tempo não me sentia assim
Com motivo pra sonhar antes do fim
Ela nunca será minha, porém é linda
Uma intuição dizia que a veria ainda
Cá estamos, na loucura e sobriedade
Estranhos mesmo na mesma cidade
Que pena da minha própria pessoa
Logo eu que estava bem numa boa
Subestimei o poder da madrugada
E, no caso, resgatei a minha amada.
Tudo o que eu faço
Sim, eu faço absurdos
Tomo banho no escuro
Jogo tabuleiro sozinho
Pra poder te conquistar
Danço tango de tanga
Invento um outro hino
Me despeço do mundo
Pra tentar me declarar
Flerto com o abismo
Faço perfil sem foto
Sou ateu na catedral
Pra você se lembrar
Viajo até Bangladesh
Vou de pijama à rua
Salto de parapente
Pra você se tocar
Aprendo mandarim
Saio na madrugada
Escrevo cem cartas
Pra esse fogo cessar
Gosto de beterraba
Encanto a serpente
Uso terno e gravata
Pra esse lance rolar.
Eu não acredito em signos, porém acredito menos ainda em uma relação amorosa bem-sucedida entre dois aquarianos.
Ao natural
Se desse pra te tirar da memória
Eu já teria te deletado do sistema
Só que eu lembro de quase tudo
E estou com um baita problema
Na areia da praia ou na calçada
A saudade leva o mesmo nome
Até no lado de lá deste planeta
Não há outra a quem eu chame
Política, economia e sociedade
Fico atento às novidades todas
Mas sem nenhuma notícia tua
De Dubai, as experiências boas
Sinto em segredo, sei esconder
Falar sobre tudo sem me expor
Evocando os teus olhos verdes
Crise fiscal só me causa torpor
Foi um prazer ter te conhecido
Na contramão da miopia geral
Uma observação atenta saberia
Que só por ti escrevo ao natural.
Boas ações
Deixa eu fingir que me importo
Com a ação que subiu neste dia
Com as lamentações do padeiro
Deixa, é questão de ter simpatia
Vou levar a sério todo o diálogo
Só pra ver até onde pode chegar
Se der problema, a gente resolve
A vadiagem não autoriza a parar
Vou estar com um cara supimpa
Que se convenceu de que é o rei
Ele contará seus feitos incríveis
E eu, como se imagina, fingirei
Uma zombaria sutil e divertida
Na palhaçada que é ter vínculo
Suportando horas prolongadas
Com qualquer vivente ridículo
Sou protagonista de boas ações
Ajudo um desesperado por mês
Em nome do marketing pessoal
É hora de atender outro freguês.
Quando ela entrou no rock bar
Quando ela entrou no rock bar
Eu estava olhando pela janela
Meia-noite e quinze de sábado
Acreditei numa vida mais bela
Todas as ações espalhafatosas
Ao menos refletiam a verdade
Cabeça no lugar não foi o forte
Mas confie: não faltou vontade
É fácil perceber interesse real
Ainda tenho alma e me dedico
Nada espero ganhar em troca
De afeições puras não abdico
Não importa o que pensarão
Jogados num mundo carente
Homens e mulheres imóveis
Gente sem coração de gente
Sim, eu faria tudo outra vez
Devoto das causas perdidas
Um cara estranho a olho nu
Entre as chegadas e partidas
Quando ela entrou no rock bar
Eu estava saltando de alegria
Sem tempo para ver o relógio
Apaixonado por uma melodia.
Contemplação
O que tu me entregas é tão pouco
Mas não me imagino sem ter isto
Eu não apostaria no nosso futuro
Só que por algum motivo insisto
Quando vejo teu riso espontâneo
Sou transportado a anos dourados
Com a mágica que nos torna livres
E prontos para os dias ensolarados
É um milagre contemplar a beleza
Quando a realidade fecha portas
Erguendo barreiras em sequência
Nos afastando das melhores rotas
Como eu gostaria de tê-la uma vez!
Por um minuto, em tom de despedida
A ponto de confundir com uma ilusão
Doce que nem a mulher mais querida.
