Me Ame quando eu menos Merece

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A CRÔNICA DO MURO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Justo quando saio às pressas e não levo a minha câmera, o que raramente acontece, um grande motivo fotográfico assalta os meus olhos, em uma esquina distante. O que me resta é a transcrição paciente, sob os olhares curiosos de quem passa por mim.
Em um velho muro que o tempo castiga sem piedade, com os efeitos do sol, do vento e a chuva, leio a mensagem anônima que disponho a seguir: "Comunico aos familiares e amigos, que já não há mais motivo para sumiço, distanciamento e silêncio. Aqueles meus problemas foram resolvidos, não contraí novos problemas, minha saúde anda perfeita e vou bem, financeiramente. Logo, não existe mais o risco de choradeira e pedidos de socorro, empréstimo e locomoção motorizada. Apareçam; amo vocês.".
Quis fazer uma crônica sobre o assunto. No entanto, seria chover sobre o molhado. A crônica está na própria mensagem, sem necessidade alguma de aplicações ou adornos. Para quem sabe ler o mundo e a vida, cada momento já é uma crônica.

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AOS QUE APEDREJAM EM NOME DE DEUS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

No passado, quando a igreja católica instaurou a inquisição, ela não o fez por ser a igreja católica, e sim, por estar no poder, ser absoluta e composta por seres humanos. O ser humano é assim: faz do poder que tem em mãos uma arma de opressão ao próximo, visando a manutenção da própria supremacia e o domínio de seus conceitos, pensamentos, ideias e filosofias. Quem comunga é amigo; aliado; parceiro; irmão. Quem não o faz, é inimigo; representa o perigo iminente; tem que ser extirpado e virar exemplo para que mais ninguém discorde.
Qualquer denominação religiosa que tivesse o mesmo poder político e o domínio absoluto, naqueles tempos de ignorância também absoluta ou quase, faria igual. Dominaria pelo medo, a força, o castigo, a tortura e a morte. E para justificar as atrocidades, faria tudo em nome de Deus e com a fantasia do combate ao diabo. Às forças do mal. Com tais artifícios a igreja, católica ou não, sempre teve nações ao seu lado; multidões enfurecidas dispostas a tudo para defender a santidade ostensiva e truculenta de suas greis.
Hoje, pelo menos no Brasil, vemos a tentativa do retorno à inquisição, pelos evangélicos fanáticos. E quem são os evangélicos fanáticos? Não há como classificar por denominação, pois são muitas as denominações evangélicas, e corremos o risco de ser injustos, mas pode-se dizer que se trata de um grupo cada vez maior. Que avança vertiginosamente.
Nesse passo, existe o risco de tal grupo crescer tanto, a ponto de alcançar a supremacia, o poder absoluto, via trâmites políticos. Afinal, sabemos que a política vai onde a multidão está. O poder público, para sua manutenção, sempre se deixará dobrar pelos que representam mais votos; mais poder. E os religiosos que visam a supremacia dispensam escrúpulos, esquecem a ética e não medem atos nem esforços para conseguirem dominar... e a cada dia,esses grupos têm mais líderes e fiéis enfiados nos palácios dos poderes, com o único fim de se fortalecerem corporativamente.
Apedrejar umbandistas nas ruas já é inquisição. Tanto quanto ofender, segregar, fazer piadas, prejudicar... e quando os líderes religiosos martelam incessantemente nos templos, que os umbandistas são do diabo; que as testemunhas de Jeová, os budistas, espíritas e outros mais também são do diabo, incitam a intolerância; o ódio; a ignorância que gera tudo contra o que toda religião deveria pregar. E pregaria, se fizesse o certo. Se não distorcesse os ensinamentos originais.
Aonde andam os seres humanos de boa vontade? Sem eles, cadê a paz que deveria estar na terra? Quem ensinou a jogar pedra no próximo? Cristo? Buda? Kardec? Maomé? Deus? Quem? Religiões ou seitas (para mim não há diferença, senão pelo preconceito) deveriam ensinar amor, compreensão, respeito às diferenças e ao arbítrio, que é livre; não pode ser forçado por pedras, xingamentos, intimidação.
Não me sinto em um país com liberdade de culto. De religião. Muito menos com liberdade para não ter religião, como é meu caso. Às vezes, de alguma forma, também me sinto apedrejado por muitos religiosos; entre os quais, alguns amigos e familiares. Tomara que nunca seja também, de fato, apedrejado, e torço para que as pessoas hoje apedrejadas por causa de suas crenças ou orientações de fé deixem de sê-lo.
Vejam quanta ironia: um não religioso pedindo paz aos religiosos. Um "perdido" pedindo aos "salvos" que amem o próximo. Um homem "sem Deus no coração" pregando a união, o bem viver e a comunhão humana, esperançoso de que os "ungidos" se conscientizem dessa necessidade.
Precisava dizer tudo isto. Que me perdoem os que se julgam ou são de fato melhores do que eu... e se não for possível, que alguém me atire a última pedra... só assim não restará mais nenhuma para ser atirada, inclusive, nesse alguém.

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VESTIDO DE SORTE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quando a vi com aquele vestido simplório, sem nenhum detalhe atraente, mal consegui acreditar que o comprara, depois de nos encontrarmos casualmente na lojinha de um shopping center. Ela estava em dúvida sobre comprar aquele vestido e outro que, segundo minha opinião, fazia muito mais justiça a sua beleza. Não foi cantada. Somente a minha opinião.
Pois ao vê-la sob o traje que deplorei, e que para mim era mais ultraje do que traje, meu susto não poderia ser menor: jamais pensei que uma peça de vestuário tão sem beleza, brilho e graça pudesse ganhar tanta luz, magia e deslumbramento ao simplesmente pousar, sem nenhum retoque ou reparo, no corpo de uma mulher... e que mulher...

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NO CÉU DO ME CONCEITO

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Quando criança, tive grande admiração pelos adultos trabalhadores que eu conheci. Era fã do sorveteiro, por exemplo. Aquela roupa branquinha - pelo menos nas primeiras horas do dia -, que lhe dava enorme respeitabilidade, não era simplesmente uniforme. Não para mim. Era uma espécie de farda. Também olhava com espanto e admiração, os operários metidos em seus macacões, rumo ao trabalho nas indústrias ou na construção civil. Nesse tempo, queria ser qualquer uma dessas figuras, quando crescesse: sorveteiro, amolador de ferramentas, operário, motorista ou "gringo". Gringo, para mim, era vendedor de roupas e outros itens ou bugigangas, por causa do senhor português que vendia de porta em porta, e assim o chamavam, naturalmente por sua nacionalidade.
Se não desse para ser nada disso, tudo bem; eu me conformaria em ser arquiteto, médico, cientista, empresário, advogado, escritor, oficial do exército, músico e até professor. Acabei escritor e professor, o que mais tarde escolhi, não porque passei a desprezar as preferências da infância, mas porque descobri no meu íntimo essas vocações, que também dão pouco dinheiro, no meu caso, mas me causam muito prazer, além do enorme orgulho... o mesmo que teria, se fosse qualquer profissional bem resolvido, por amar a profissão e ter consciência de que o trabalho é motivo de orgulho.
Nestes tempos em que a mídia só louva os ricos, famosos, poderosos e influentes, apontando-os como os únicos bem sucedidos, por causa dos grandes resultados materiais que ostentam, às vezes creio que permaneci criança. O mesmo menino que ambicionava profissões bem simples e rudimentares, reconhecendo nelas uma dignidade que hoje não vejo reconhecida nos olhos de quase ninguém. Às vezes, nem mesmo nos de quem as exerce, por ser influenciado negativamente pela visão corporativa dos meios de comunicação.
Tenho, evidentemente, meus ícones culturais e artísticos. Amo a literatura e sou fã de alguns escritores. Aprecio artes plásticas, música, filmes, novelas, outras manifestações culturais, e isso me faz admirar quem as pratica. Também admiro cientistas, desportistas, arquitetos, advogados, empresários, médicos, conferencistas, porém não mais nem menos do que aqueles trabalhadores que sempre foram meus ídolos. Continuo tendo grande admiração pelo sorveteiro, o operário, o amolador de ferramentas, o motorista, o "gringo" e todos os outros cidadãos que, só por serem trabalhadores, honestos, e saberem viver dignamente com o que ganham, são bem sucedidos... e por essa virtude, são estrelas no céu do meu conceito.

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BEM-ME-QUER

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Quando fores quem pede ou assedia,
por um dia, um momento, pouco importa,
não quem cede, avalia, vê se dá,
serei risos gratuitos pra mim mesmo...
Como quem cumprimenta o próprio espelho,
farei gestos de apupo e reverência,
por achar o meu olho em um olhar
que me dê transparência pra seguir...
Seu amor sem patente nem escala
será santo remédio em minha estima;
meu afeto não rima hierarquia...
Vou deixar a saudade ser mais tua
uma vez, uma lua, um por acaso;
terminar uma flor no bem-me-quer...

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SOCIEDADES INTERNAS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

É profundamente lamentável quando as irmandades ideológicas ou de fé, os grupos de amigos ou confrades e as comunidades familiares decidem, velada ou ostensivamente, conscientes ou desapercebidos copiar a sociedade externa em seu aspecto mais pernicioso: estabelecendo o valor de cada um de acordo com o que possui. Com o que brilha na estampa. Com os favores e as bondades materiais que oferece; as vantagens que pode proporcionar. Às vezes, pelas meras fagulhas de prestígio com que possa beneficiar os potencialmente mais próximos ou mais identificados.
Fica bem mais difícil viver em sociedade, se até os nossos habitats estão divididos em classes e o respeito atende às demandas de conveniências, cotas e participações financeiras nas quais o desfavorecimento dos menos afortunados não é levado em consideração. A injustiça social que gera ódios, conflitos, guerras declaradas ou frias mundo afora, muitas vezes se justifica, injustamente, nas divisões em classes que se afagam ou se digladiam de acordo com expectativas e conveniências ou incômodos e caprichos nas relações mais estreitas.

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MINHA RIQUEZA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Caminhava para o ponto do ônibus, quando encontrei o Professor Rogério Lopes. Ele saía de uma loja de rações, e carregava nos ombros um saco de trinta quilos. Olhou fixo para mim, pediu que aguardasse um momento e pôs o peso no chão. Feito isto, abriu aquele sorriso largo, me deu um abraço de quebrar os ossos, um beijo no rosto, e disse bem alto:
- Cara! Que alegria ver você! Faz tanto tempo! Ainda bem que sempre o vejo na internet! Leio tudo que você escreve! Não perco nem um texto seu! Obrigado por tantas coisas maravilhosas!
Não conversamos por muito tempo, mas foi um momento especial para mim. Não é todos os dias que nos deparamos na rua, com alguém tão disposto a nos cumprimentar, e com tanta efusividade, alegria sincera e calor humano, mesmo estando com tanta pressa. Também é muito simbólico ver uma pessoa se despojar de seus pesos, desocupar os braços, as mãos e os ombros, para ter o prazer e a liberdade de abraçar um amigo e lhe dizer palavras amáveis.
O Rogério é, de fato, leitor constante de meus textos. A cada vez que publico algo em rede social percebo sua leitura, sua presença, e leio seus comentários ponderados; coerentes; dentro do contexto.
São várias as pessoas que me privilegiam com suas leituras, e às vezes os comentários, mesmo sabedoras de que minhas vindas ao computador são sempre ligeiras e limitadas às postagens e autopromoções como escritor e fotógrafo. Isso resulta poucas retribuições expressas, de minha parte, podendo até me deixar marcado como alguém esnobe ou antipático.
No dia a dia, são muitos os curiosos que me perguntam sobre quanto ganho, em dinheiro, como escritor. Ganho pouco dinheiro. Se não tivesse o meu emprego de arte-educador, pelo qual também não recebo grandes quantias, e alguns trabalhos como fotógrafo de vaidades pessoais e autoestima, passaria por privações com o que angario por escrever, lançar livros e permitir a utilização de meus textos em veículos diversos.
A grande riqueza, riqueza mesmo, que não enche barriga e bolso, como tantos dizem, mas enche minh´alma e meu coração de alegria e desejo de viver, viver muito, para também escrever muito, é tão somente a existência de amigos e leitores sinceros, que me pagam com carinho. Com admiração verdadeira. Com respeito. Com palavras sinceras e a certeza que me fazem ter, de que meus escritos fazem efeito em suas vidas.

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CPI

Demétrio Sena, Magé - RJ.

A missão de uma CPI é decidir se um crime, quando cometido por um político, mesmo assim é crime.

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"Sério"
Quando começamos a não gostar de ninguém,
certamente nos cansamos de nós mesmos.
"Nem tanto!"
Pra provar que gosta de alguém, não precisa
puxar o saco, afinal de contas isso dói!...

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SOLITÁRIA SAUDADE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quando vejo a saudade que não sentes,
ou a tua nenhuma nostalgia,
minha mente reage ao coração
e resfria os sentidos do meu ser...
Mas a falsa frieza não perdura,
pois o sol do que sinto atinge a neve;
faz a greve do afeto em desalinho
derreter os chavões de minha mágoa...
Eternizo a saudade solitária,
meus ensaios de orgulho são só fases,
frágeis quases que nunca se completam...
Restituo meus olhos pro vazio;
fio bamba da fé na eternidade;
linha tênue de horizonte sem luz...

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INÍCIO NO FIM

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quando fores a dona das próprias vontades,
tua voz não tiver que soar por um fio,
se não for mais pecado me olhares de frente
ou não for desafio enfrentares meus meus olhos...
A partir do momento em que fores quem és,
mesmo quando quem sou desconserte o teu senso,
teu incenso e teu véu de proteção velada
entre sombra e silêncio; rituais de fuga...
Nesse dia em que achares o tom da canção
para toda menção que a tu´alma fizer
de querer algo mais do que o meu mais ou menos...
Só aí me procures - ou fiques notória;
saberei desbravar os desertos de volta
e compor uma história que nasça do fim...

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SONHO DE CRISTAL

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Desmoronas em mim feito encosta na chuva,
quando as águas invadem as frestas do barro,
feito carro que perde a direção e voa;
cai no abismo profundo e se perde na treva...
Poderias ter tido a brandura comum
dos que saem sem surto, partem à francesa,
têm a delicadeza de fugir aos poucos
pra que a festa não tenha que acabar pra todos...
Mas querias o show da freada no asfalto,
como quem não quisesse quebraste o silêncio,
buzinaste bem alto pra depois caíres...
Desintegras no breu do sentido profundo
que meu mundo não faz ao deixar de ser teu
no andor do meu sonho de fino cristal...

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REFLEXÕES DE UM PATRIOTA CANSADO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

... Quando faço descaso das promessas de um político, há sempre alguém que me fale para dar um pouco mais de crédito ao ser humano. Tudo bem; eu concordo; e mesmo que pareça o contrário, acredito no ser humano. Mas veja bem: o ser humano.

... Se quem não deve não teme, o meu temor da justiça está devidamente justificado. Confesso que devo. Devo e temo. Minha culpa é de nascença. Nunca tive recursos para pagar em espécie o preço da inocência, do indulto nem da razão, nas eventuais questões de justiça.

... A saudade que tenho da ditadura, da qual não tenho qualquer saudade, se resume à ilusão que outrora tive de como seria, especificamente, a nossa democracia.

... Honestidade política é termo redundante. O ser humano tem que optar entre ser honesto ou político.

... Imprensa não dá notícias... vende-as. E para vender notícias, é preciso manipular os fatos até adequá-los à clientela mais vantajosa e rentável.

... A polícia está dividida entre aqueles policiais que apenas prendem, aqueles que prendem e depois aprendem com os que prendem, e os que não prendem, porque já nasceram sabendo mais do que aqueles a quem deveriam prender.

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MEDO E PREGUIÇA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Um país perde a força quando acaba o brio;
perde o sonho, a coragem de sonhar de novo;
faz o povo calar seus anseios mais seus
e se torna sombrio para quem quer ver...
Uma pátria destoa da canção dos tempos,
quando perde o desejo de gritar bem forte,
crê na sombra e na sorte ou na mão permanente
que se doa e dá tudo pra quem obedece...
Não há céu pro futuro de uma terra vaga;
nem o céu ilusório que as greis disseminam;
doce praga nos olhos dopados de medos...
Ao tragar a preguiça que os poderes servem,
a nação mais potente se desbota e brocha
feito rocha que cede aos açoites do mar...

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SEMPRE VOCÊ

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Você nunca deixou de ser meu sempre,
mesmo quando acenei pro quanto havia,
pois não via o sem fim do que nos ata
e devolve o que chega em seu abismo...
Sempre foi a presença inesgotável,
meu passado presente no futuro,
lá no muro do espaço grafitado
com as tintas de nossa eternidade...
É a força real do ponto fraco,
caco a caco de todos os mosaicos
entre os quais vou tentando ser inteiro...
Meu jamais agradece ao seu ainda;
você é minha única estação;
a única expressão de minhas fases...

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CREDO, AMOR E FÉ

Demétrio Sena, Magé - RJ.

A igreja dirá, quando a sua mente já estiver devidamente rendida, que aquele seu sonho é pecado. Que você viver do seu jeito faz pleno jus ao inferno, e ser exatamente quem é ofende a "Deus"... mas por favor; não aceite os arreios impostos à sua alma, como se você os merecesse por ter nascido e chegado até aqui.
No momento em que a igreja começar a vender para suas dúvidas, angústias e conflitos um "Deus" passional e vingativo contra quem se permite a liberdade, voa e até faz arte, não compre. Não aceite a falsa grife de um ser superior que o fez humano e não aceita sua humanidade. Que amaldiçoa e castiga todo aquele que não se torna uma ovelha em sacrifício permanente. Se tiver que ser assim, prefira compor o grupo dos que seguem à margem.
Não aceite um redil como habitat natural de seus conceitos; como figura ou símbolo de salvação. Escravidão não salva. Subserviência não dignifica. Os redis que se mostram ao pé-da-letra nada são além de ardis para os carentes de bênçãos e milagres que a própria vida já é, e ora disponibiliza ora não, em seus fenômenos, mediante os engenhos também naturais do que chamamos de fé. E esta não é maior nem menor em quem se autoflagela, com mais ou menos sofreguidão.
Desespero e temor do inferno, anulação pessoal e sangria da alma não combinam com fé. Meu respeito a quem busca "Deus" ou deuses, mas como forma de ser feliz, não de trocar um sofrimento por outro. Uma escravidão por outra. Nenhuma escravidão é melhor. Nenhuma opressão é boa, mesmo que risonha e com ares (doentios) daquela paz agoniada e sem paz de quem vê o "diabo" em quase tudo e vive a expulsá-lo com orações sofridas, hinos pungentes, contrição profunda e proibições pessoais.
Tudo perde o sentido se não é por amor. Se não é de vontade livre. Só é fé se for pelo amor; não pela dor... nem pelador... nem apelador. Amor não combina com joelhos que sangram, almas que desistem dos corpos, talentos que se amoldam às ordens e à tirania da vigilância e das lideranças externas.

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ENTREGA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quando gosto e confio não escondo nada;
emoções, pensamentos, mágoas nem conflitos;
meu silêncio, meu grito, minhas alegrias,
esperanças, receios, expectativas...
Não me privo de mim pra quem tem meu afeto;
sou exposto, sem casca, pinturas e panos,
nem as perdas e os danos escondo de alguém
que me torne cativo do seu bem querer...
Mostro sonhos, certezas, frustrações e tombos,
ponho rombos, remendos à flor de quem sou
e me dou feito servo por gosto e vontade...
Desembrulho minh´alma, revelo meu corpo,
desnovelo, destampo, desestabilizo
todo senso de aviso, recato e prudência...

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AQUELA QUE VEM

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quando aquela que vem chegar pra mim,
quero estar preparado pra segui-la;
dizer sim aos seus braços envolventes,
pra que a fila não perca o seu compasso...
Estou pronto e confesso que vivi,
comecei a seguir ao justo encontro,
feito rio que segue o seu percurso
sem confronto e recusa rumo ao mar...
Vejo aquela que vem, mesmo sem ver;
sinto a brisa, o frescor de minha vez,
posso ler entrelinhas desse dia...
Não me queixo do quanto me foi dado,
ganhei tanto passado de presente,
que não tenho futuro a reclamar...

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CIDADÃO ÍNTIMO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Não me privo de uma boa trama televisiva, quando há, só porque um sujeito me disse, depois que alguém lhe disse após ouvir de outro alguém, que novela emburrece. Nem procuro em outra emissora, o telejornal recomendado por quem desqualifica o daquela, que o desagrada, só porque desagrada ao grupo que ele segue, mas que não é menos corporativa, manipuladora nem politicopartidária, pouco importa para que lado atue.
Livre como sempre fui, posso ver o programa que desejo, no canal que desejo, e saberei desprezar o que fere meus princípios; não os de quem procura depositar na minha conta os seus interesses; ideologias; rejeiçoes; despeitos. Do folhetim ao futebol, do noticiário ao reality show, do filme ao programa de auditório, nada me prende nem assusta. Sei muito bem discernir por minha conta o que será proveitoso, relevante ou não.
No dia em que eu não tiver o controle nem do controle remoto do meu televisor, aí sim; não serei o cidadão pleno que o militante raivoso e pré-moldado se diz, mas está longe; muito longe de ser.

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HIPOCRISIAS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quando era membro de uma igreja cristã, fui a pessoa mais hipócrita sobre a face da terra. Para mim, o mundo estava completamente nas trevas; ninguém prestava, se não fosse convertido... em outras palavras, se não fosse como eu. Foi assim que aprendi com o meio, naquele tempo e lugar; foi assim que fui orientado a pensar e agir.
Faz muitos anos que não sou membro de qualquer comunidade religiosa. Mesmo assim, continuo sendo a pessoa mais hipócrita sobre a terra. Entre outros motivos, por me julgar melhor do que os convertidos, mesmo sabendo e não desejando fazê-lo. Sobretudo, por cair na tentação de me julgar a pessoa menos hipócrita sobre a terra.

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