Mario Quintana- Brevidade da Vida
Sinto que minha vida é um filme em preto e branco passando em uma sala de cinema vazia, onde eu sou o único espectador que não consegue ir embora antes dos créditos finais. A beleza está no contraste, na forma como a sombra define a luz e a ausência define o que restou.
Trago no peito a lembrança de um tempo simples, onde o riso corria solto e a vida cabia inteira na inocência de dois caminhos que ainda não conheciam despedidas. Éramos feitos de chão, de poeira e de afeto bruto, desses que não se explicam, apenas se vivem, como se o mundo fosse pequeno demais para nos separar. Mas o tempo, silencioso e inevitável, foi abrindo distâncias onde antes só havia presença, transformando parceria em memória. Hoje carrego comigo aquilo que ficou, não como peso, mas como parte de quem me tornei, marcado pelas ausências que ensinaram mais que qualquer permanência.
Porque existem laços que nascem lado a lado, mas o destino insiste em escrever em caminhos diferentes, deixando na alma a saudade do que poderia ter sido eterno.
- Tiago Scheimann
Sigo pela vida como quem atravessa campos desconhecidos, guiado mais pelo instinto do que pela certeza, aprendendo que nem toda busca termina em conquista. Há batalhas que travamos em silêncio, onde o verdadeiro troféu não é vencer, mas suportar o peso de continuar mesmo quando tudo parece perdido.
Carrego nos ombros as marcas de cada tentativa, não como derrota, mas como prova de que resisti quando o mundo esperava minha queda. E entre erros e acertos, compreendi que a vitória nem sempre está no resultado, mas na coragem de permanecer de pé diante do inevitável. Porque no fim, a verdadeira caçada é contra nós mesmos e sobreviver já é, por si só, a mais difícil e silenciosa das vitórias.
- Tiago Scheimann
A minha vida é uma colcha de retalhos feita de momentos de lucidez e longos períodos de neblina existencial, onde eu me perco de quem eu achava que era. Costuro esses pedaços com o fio da escrita, tentando criar um manto que me proteja do frio que sopra de dentro para fora.
Há uma diferença entre estar vivo e estar consciente da vida, e eu já não consigo mais separar os dois, porque cada instante carrega uma análise implícita, e, nesse excesso de lucidez, a simplicidade se tornou inacessível.
A vida não me deu respostas, me deu resistência, e talvez isso seja mais útil do que qualquer explicação, porque entender não muda o que aconteceu, mas resistir muda o que ainda pode acontecer.
A vida não ficou mais leve, eu que aprendi a carregar o peso com uma dignidade que nasceu do sofrimento.
A espera pelo primeiro amor não foi apenas tempo, foi vida doada. Foi a paciência de quem cultiva uma flor em solo estéril, acreditando que o amor, por si só, teria o poder de fazer brotar a reciprocidade.
A vida não me moldou com cuidado, ela me atravessou até que eu descobrisse o que em mim era inquebrável.
A vida tem essa mania de nos despir nos momentos mais impróprios, deixando a carne exposta e a alma no frio, mas é justamente no tremor do corpo que descobrimos que a nossa pele é feita de uma resistência que nenhum inverno conseguiu, atéhoje, congelar por completo.
O sentido da vida não é algo que se encontra escondido atrás de uma montanha mágica, mas algo que se inventa todos os dias entre o escovar dos dentes e o apagar das luzes, na insistência teimosa de acreditar que o amanhã ainda tem algo a nos oferecer.
A vida não é sobre esperar a tempestade passar, nem sobre aprender a dançar na chuva como dizem os pôsteres motivacionais; é sobre entender que você é a própria chuva, o trovão e o arco-íris, e que nada disso faz sentido sem o solo firme da sua aceitação.
A vida no Sul é feita de horizontes que parecem não ter fim e de um silêncio que não é vazio — é carregado de memória, de ausência e de tudo aquilo que o vento insiste em contar para quem aprende a escutar. Aqui, o tempo não corre; ele se assenta. Ele respeita quem finca raiz e não se dobra à pressa de um mundo que esqueceu de sentir.
Entre o frio cortante das manhãs e o calor denso de um chimarrão amargo, existe um ritual que sustenta a alma: o sorgo que gira na roda, a caninha boa que aquece o peito e as lembranças de um povo que aprendeu a resistir antes mesmo de aprender a sonhar. Não é só costume — é sobrevivência transformada em tradição.
Há pegadas de marujo marcadas no chão, há couro curtido pelo sal do litoral e uma identidade moldada entre o campo bruto e a água inquieta. Aqui, a gente aprende cedo que viver é manter o equilíbrio mesmo quando tudo balança — seja no lombo de um cavalo ou no balanço incerto de uma canoa. Aprende-se a ler o céu como quem lê o destino e a entender o silêncio das marés como se fosse linguagem.
Foi assim, olhando o velho pai, que vieram os primeiros ensinamentos — não em palavras, mas em gestos. Nos tiros de laço lançados contra o vento, na paciência quase sagrada da tarrafa aberta na lagoa, na firmeza de quem nunca precisou dizer muito para ensinar tudo. É nesse chão que se aprende que herança não é o que se recebe, é o que se honra.
E quando o olhar encontra o reflexo de uma lagoa verde e azul, não é só paisagem — é espelho de uma identidade inteira. É memória viva, é música que atravessa gerações sem pedir licença, é sentimento que não cabe em explicação. Ali, naquele instante, tudo faz sentido sem precisar de tradução.
Viver no Sul não é apenas existir em um lugar — é carregar um estado de espírito que mistura dureza e sensibilidade, silêncio e profundidade. É entender que a vida não precisa ser alta para ser intensa, nem rápida para ser verdadeira.
É um jeito de viver que não se explica — se sente.
Se carrega no peito como marca definitiva.
E se honra, todos os dias, como quem sabe exatamente de onde veio e por que permanece.
- Tiago Scheimann
Há dias em que eu não quero ser forte. Quero apenas descansar de mim mesmo. Mas a vida não oferece pausa para a alma cansada. Então sigo, mesmo exausto, porque desistir nunca foi uma possibilidade que o destino me permitiu.
Existe uma exaustão que não se explica. Ela não vem de um esforço recente, mas de uma vida inteira tentando ser suficiente. É o peso de existir em um lugar que nunca soube acolher quem eu sou. E ainda assim, eu permaneço.
Há pessoas que carregam oceanos dentro do peito e, ainda assim, passam pela vida fingindo ser apenas pequenas poças de silêncio.
Continuo existindo não porque compreendi plenamente a vida, mas porque alguma centelha silenciosa dentro da minha alma ainda acredita que sobreviver também pode ser uma forma de transcendência.
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