Mais que uma Mao Estendida
A escuridão não é a ausência de luz. É algo muito mais complexo. Eu já estive lá várias vezes, aliás, ela, de vez em
quando, vem ao meu encontro. Mas, mesmo nas sombras, eu sei que Deus está sempre comigo, nunca me
desamparou. Mesmo na escuridão completa, segura a minha mão e me mostra o caminho. A ausência física de claridade simboliza apenas a fração visível do que sinto, há uma densidade sombria que engole sentido e esperança. Porém, a percepção de uma presença divina me faz acreditar que existe, mesmo no ponto mais escuro, uma mão invisível capaz de me guiar quando minhas forças falham.
Chorar não adianta mais. Eu e meu choro fazemos companhia um ao outro.
Já chorei até não sentir mais nada, as lágrimas se esgotaram, deixando apenas um vazio duro. Hoje, o choro é como um amigo que visita minha face sem quase derramar gota, ele lembra o tanto que tentei e falhei em encontrar alívio na própria tristeza.
Acredite, a autoflagelação não é a resposta, ela gera mais perguntas. Quando a depressão sussurra que ferir-me me libertaria, cada corte na pele trouxe apenas interrogações sobre minha sanidade e limites. Vi que a dor física não silencia o tormento interno, ao contrário, escancara novas fraturas emocionais que não sei como curar.
Realmente devemos fazer a vida ser a mais harmoniosa possível, devendo nos espelhar em Jesus Cristo, que levou uma vida simples e o seu dever era amar. Ainda que sendo o príncipe dos exércitos, teve humildade de morrer por um pecado não cometido, só para nos salvar. Inspirar-me na trajetória de alguém que suportou sofrimento em prol do próximo me ensina que amar pode ser ato mais radical do que resistir à dor. Em cada gesto de humildade que tento ter, sei que carrego um fardo pesado, ser gentil num mundo que recompensa a dureza, mas busco nesse exemplo força para continuar, mesmo quando meu corpo falha em demonstrar fé.
Algumas pessoas se vão e, quando voltam, não cabem mais; não é rancor, é tempo. Tempo que moldou novos contornos em suas almas, que escavou distâncias silenciosas entre nós, e fez do reencontro um espelho onde já não nos reconhecemos. Porque certas ausências não se medem em dias, mas em metamorfoses.
Reconstruir-me foi o mais doloroso dos trabalhos. Após o AVC, era como montar um quebra-cabeça… sem saber se todas as peças ainda existiam. Cada palavra reaprendida, cada passo ensaiado, foi uma batalha contra a fratura da minha identidade. E essa reconstrução… não era só do corpo, mas da alma: repostar a autoimagem onde antes… só havia ruínas.
Sou mais da chuva… Ela desce como quem lava os silêncios que me habitam, desfaz a poeira invisível que cobre meu espírito.
Enquanto cai, borra as dores, dissolve as arestas do peito.
O sol, ao contrário, me expõe como vitrine vazia: sua luz varre os cantos,
revela rachaduras, escorre sobre minhas lágrimas… as que finjo… não existir.
Aprendi da forma mais dura: deixar o coração de lado e usar o cérebro como escudo. As pessoas são guerras silenciosas, pensam em si antes de estender a mão. Minha compaixão virou alvo, minha fragilidade, exploração. Hoje, sou um general cauteloso, planejando cada passo
em terreno hostil, pois a confiança cega só trouxe dor.
Caí, levantei, cresci e sigo mais forte, como árvore que desafia a fúria dos ventos, tecendo na dor raízes mais profundas e no tronco, a memória de cada tempestade.
A herança do passado constitui-se no mais oneroso legado que podemos receber, mesmo sem desejá-lo ou consentir em sua posse.
O amor, em sua natureza mais crua, é um paradoxo temporal e emocional, sua verdadeira dimensão só se revela na experiência da perda. Enquanto presente, é banalizado pela rotina, negligenciado pela falsa segurança da permanência. Somente na ausência é que suas camadas mais profundas se tornam perceptíveis, como uma arquitetura invisível que só se desenha no vazio.
Perdão do esquecimento
(inspiração adolescente)
Pequei!
Se pequei, pecastes mais!
Eu gritei...
E de um surdo eco me arrepiei.
De joelhos mais uma vez fiquei...
Procurei teu olhar sem encontrá-lo.
Queria-te por toda força junto a mim.
Mas nada fazia sentido...
Tudo desfeito!
O amor que nos unia, findou.
Ódio em teu olhar notei!
Compreendi que entre nós tudo estava acabado...
Chorei noites, fiz nascer dias.
Construí e imaginei mortes.
Mas seu perdão eu nunca mais teria...
1968
TRINTA E UM DE DEZEMBRO DE DOIS MIL E VINTE E UM
Mais um ano passou por mim
e por todos os seres.
2021 vai-se como todos os demais anos.
Apesar de ser, tão somente, ilusório,
o planeta retoma a trajetória a partir do mesmo ponto,
após 365 dias terrestres e uns quebrados.
Eu passei, também, com ele.
Envolvida pelo tempo,
entrelaço-me com as estrelas
querendo voar longe e bem mais...
Deixar os que estão por perto
para perder-me em mim.
Se possível, com outro ser que adentre novos buracos luzes:
- um parceiro, que busco, por haver me enganado no passado
- e por estar na labuta por (a)braços, cheiros e trilhas!
Mas quem se importa?
A vida,
penso saber,
é mais que ter parceiros individuais, ser d’um só coração.
Precisamos de muitos braços e corações para os projetos verdadeiros,
indo além:
• pensar e encontrar novos caminhos
• enfrentar o que for necessário
• superar as mágoas e tragédias
• estender as mãos aos irmãos para ajudar
• buscar conhecimento universal e sabedoria
• ter sonhos e esperança
• realizar o que for possível e, muito mais,
• para encontrar o improvável!
As pessoas devem ultrapassar as barreiras...
dos preconceitos e das divisões sociais.
A Mãe Natureza, tão maltratada por nós todos,
reivindica seus espaços e os reconquistará,
pois é da sua essência não se submeter ao imponderável!
Perfil felino
Sou mais felina do que dama.
Aquela que vai lenta, mas persiste.
Que dispara frente à caça e não domina.
Espreguiça ... ... ...
Mulher que, na busca de espaço e do seu canto,
Vai, por meio do aprendizado diário
da observação de gatos e de humanos,
À procura de:
. Brigar só em caso de autodefesa e proteção do outro;
. Ser confidente com abraço e ouvinte atenciosa;
. Acarinhar sem (a)parecer;
. Ser distante como forma de aconchego - dando espaço.
. E ainda, fugindo do perfil felino, ser
Amante fiel como forma de respeito!
Junho/ 2024
A indulgência é proclamada nas vozes dos que mais erram, e fazem-se soar em ecos de veneração; Aqueles que no seu cerne abundam em benevolência, altruísmo, não desejam ouvir-se nem necessitam de “aparecer” a olhares ostensivos.
Até o sol, consegue humildar-se, quando chega a noite; a humildade é a inferioridade mais elevada da inteligência.
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