Os olhos são como um jogo De roleta viciada Comandada pelo coração
Mirando o espelho estanhado Sinto que é apenas vidro Tentando guardar a minha sombra
Até que os gritos Se transformem em ecos A voz é errante e volátil
Ainda que bravio Segue sempre o rio Ele te levará à quietude do delta
Apenas as boas sementes Recordarão as raízes E o dia em que o vento as levou
Montando cavalos em pêlo Aprendi a fraqueza da carne E a dureza do chão
Alterno o lenho e o sangue Depois construo uma jangada E perco-me nos arcos do mar
Transformada a pedra em pó Ficaremos suspensos na vertical Do lugar de queda
As flores de plástico Não murcham no tempo Nem brilham ao sol
Declinando os cinco sentidos Como se fossem verbos meus Conjugo o sol e o tempo
O meu instinto é uma ave Pousando ao acaso Sobre as nuvens passando
No etéreo do meu corpo zenital Fazendo a vertical do lugar Reduzo o todo a um ponto
Podemos forjar os metais Ritmando as pulsações do fogo Mas apenas o ferro criará alma
Se não existissem os espelhos Nós seriamos apenas A nossa sombra no chão
Nem todos os gritos Têm a mística poética De voar até ao infinito
Nunca penses que dobraste um bambu Ata bem o seu colmo Ou sentirás o seu coice
A poesia é uma nascente Nos acasos do silêncio Alcançando mais longe
Antes do poente Aprende com o sol A verdade do tempo
À beira do rio Faço barcos de papel E parto à descoberta da foz
A voz dos poetas É sempre um vento selvagem Fabricando ecos
Ajude-nos a manter vivo este espaço de descoberta e reflexão, onde palavras tocam corações e provocam mudanças reais.