Ja Amei e não fui Amada
Desaprender também é aprender. Às vezes, a maior aprendizagem consiste em abandonar aquilo que já não nos permite evoluir.
“Terceirizamos tanto nossas escolhas que algumas pessoas já não vivem: administram expectativas alheias.”
“Talvez a nova forma de dependência não seja precisar possuir alguma coisa, mas já não conseguir decidir para onde dirigir a própria atenção.”
“Somos autores de consequências que somente conheceremos depois que nossas escolhas já tiverem sido escritas.”
“Estamos tão ocupados mostrando a VIDA que já não sabemos se VIVEMOS para mostrar ou mostramos para parecer que VIVEMOS.”
“Há quem queira mudar o mundo sem mudar; e há quem, quando muda, já não precisa que o mundo mude para começar a mudá-lo.”
“Toda dúvida contrai uma dívida: depois de questionar, já não temos o direito intelectual de acreditar sem examinar.”
“A ignorância desconhece sua dívida. A certeza acredita que já a pagou. A consciência descobre que continuará devendo.”
“Quando o absurdo deixa de causar espanto, o discernimento já está em perigo.”
Vivemos uma triste realidade que beira a irrealidade.
Nunca tivemos tanta informação disponível e, talvez, nunca tenha sido tão fácil fantasiar desinformação de conhecimento, opinião de ciência, crença de evidência e absurdo de verdade.
Basta acrescentar uma palavra difícil, uma explicação incompreensível, um pouco de “ciência”, alguma “física quântica”, uma promessa extraordinária e uma boa dose de convicção. Pronto, o inacreditável ganha aparência de credibilidade.
Só que o problema mais grave talvez não seja existirem pessoas dispostas a vender fórmulas mágicas. É existirem mentes suficientemente desarmadas para comprá-las.
A mente mente. E mente ainda melhor quando encontra argumentos sofisticados para acreditar naquilo que deseja acreditar.
Por isso, informação não é conhecimento. Conhecimento não é verdade. Convicção não é evidência. E inteligência, sem discernimento, também pode ser extraordinariamente eficiente na construção do próprio engano.
O senso comum comumente mente. Mas o discurso incomum também pode mentir, às vezes apenas com palavras mais difíceis.
É justamente aí que precisamos recuperar o espanto. Não o espanto de quem acredita em qualquer coisa extraordinária, mas o espanto de quem ainda consegue olhar para o absurdo e perguntar, como chegamos ao ponto de isso parecer razoável?
Porque uma sociedade que perde a capacidade de se espantar com o absurdo, pouco a pouco começa a normalizá-lo. Aceita o inaceitável, tolera o intolerável, acredita no inacreditável, justifica o injustificável e termina defendendo o indefensável.
Talvez por isso, desenvolver o discernimento tenha se tornado uma urgência educacional.
Precisamos de pensamento crítico, mas também de alfabetização do discernimento, de uma pedagogia do discernimento capaz de ensinar não apenas adquirir conhecimento, mas examinar a autoridade que concedemos às informações, crenças, emoções, narrativas e até certezas.
A guerra contemporânea é puraMENTE mental.
E, nessa guerra, talvez a derrota mais perigosa aconteça quando alguém coloca uma ideia dentro de nós e ainda nos convence de que fomos nós que a pensamos.
Pensar é necessário. Discernir é descobrir se aquilo que pensamos merece continuar sendo pensado.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador
Aprender a desaprender não é apagar o que foi aprendido. É retirar a autoridade daquilo que já não resiste ao discernimento. Há conhecimentos que precisam ser adquiridos; outros precisam perder o direito de continuar decidindo por nós.
Carlos Eduardo Balcarse
Nem toda aprendizagem acrescenta alguma coisa. Algumas nos ensinam a retirar peso daquilo que já sabíamos. Desaprender também é aprender, quando o discernimento modifica a autoridade do aprendido.
Carlos Eduardo Balcarse
A ideia que não pode ser interrogada já não pede compreensão: exige submissÃO.
Carlos Eduardo Balcarse
Quem precisa vencer toda discussão talvez já tenha perdido a oportunidade de aprender com ela.
Carlos Eduardo Balcarse
