Irmao Nao Va embora
Mesmo cercado de pessoas e de amor, a solidão é uma companhia eterna. Não no sentido de estar sozinho, mas no de saber que ninguém compreende plenamente o que sinto, o motivo das minhas lágrimas ou a profundidade das minhas dores. Elas são particulares, habitam um lugar onde apenas eu consigo entrar.
As pessoas ouvem falar delas, podem até imaginar o que representam, mas jamais poderão vê-las ou senti-las da forma como eu as vejo e sinto. Minhas dores crônicas são aquilo que mais detesto em minha vida e, ao mesmo tempo, aquilo que está mais presente nela. Nunca me abandonam. Fazem-me chorar, refletir e imaginar como seria existir sem elas.
Às vezes penso que, se não as tivesse, talvez este texto jamais existisse. Talvez eu fosse uma pessoa diferente, com outros pensamentos, outras sensibilidades e outros silêncios. Por isso, gostando ou não, elas fazem parte de quem sou. Não as escolhi, mas aprendi que carregá-las também moldou a forma como enxergo o mundo, a dor e a própria vida.
- Tiago Scheimann
Escrevo porque há dores que não sabem gritar, apenas se transformam em palavras. Sou feito desse homem que sofre, observa, reza, recorda e continua, convertendo abandono em linguagem e fragilidade em algo que o tempo não consegue destruir.
Não escrevo para parecer forte, escrevo porque conheço a fragilidade de perto. Entre lembranças, orações e silêncios, aprendi a transformar ausências em linguagem e a dar sentido às ruínas que encontrei dentro de mim.
Minha escrita não nasceu dos dias fáceis. Nasceu do abandono, das perguntas sem resposta, das noites longas e das memórias que insistiam em permanecer. Talvez escrever seja apenas a forma mais humana que encontrei de resistir.
Transformei minhas fragilidades em tinta para que a dor não fosse apenas sofrimento. Entre a lembrança e a fé, entre a queda e a permanência, fui aprendendo que algumas cicatrizes não pedem cura, pedem significado.
Escrevo como quem acende uma vela em meio à tempestade: não para expulsar toda a escuridão, mas para provar que, mesmo ferida, a alma ainda é capaz de produzir luz.
Sou feito de memórias que não passaram, de orações que ninguém ouviu e de batalhas que quase ninguém viu. Talvez por isso minhas palavras carreguem o peso sereno de quem aprendeu a transformar
A dor não me visitou para me quebrar, veio para me ensinar a reconhecer, no que sangra, a única verdade que não sabe mentir.
Há tristezas que não pedem consolo, apenas uma cadeira vazia e o respeito de quem aprendeu a ouvir o próprio ruído interno.
A tristeza mais funda não faz alarde, ela se senta ao lado da alma e a convence de que o silêncio também é um idioma.
Há dores que não procuram resposta, porque a pergunta já é a resposta: continuamos vivos, mesmo depois do que nos diminuiu.
Minha melancolia não é desistência, é o modo que encontrei de olhar o abismo sem negociar minha humanidade.
O sofrimento, quando não me destrói, me afina, ele remove excessos e deixa exposta a nota grave que sempre esteve escondida.
Há um tipo de tristeza que não afunda: ela paira, pesada, sobre a rotina, transformando o banal em lembrança de naufrágio.
