Infinito
"Como humanos finitos e limitados diante da vastidão do infinito saber, só nos resta ter fé ou crença em alguma coisa."
Enquanto o dia infinito sem sol se arrastava, eu piscava devagar para o teto rachado, onde aranhas teciam teias preguiçosas como minhas próprias desculpas. "A banda parar de tocar", murmurava para mim mesmo, ecoando aquela frase quebrada que o usuário jogara, talvez um erro de digitação, talvez um grito abafado de uma mente cansada como a minha. Mas que banda? A orquestra invisível da vida, com seus violinos desafinados e tambores surdos, que nunca parava de martelar na cabeça, mesmo quando eu implorava pelo silêncio?
Sozinho no sofá que cheirava a mofo e memórias podres, eu rolava para o lado, evitando o esforço de acender a luz. Amargo era o resíduo do café na língua, misturado ao gosto metálico da derrota autoimposta. A preguiça me ancorava, uma âncora enferrujada no fundo, de um mar de nada, onde peixes mortos flutuavam como promessas quebradas. Por que me mexer? O mundo lá fora, com suas corridas e risos forçados, não sentia minha falta e eu, solitário rei de um reino vazio, não sentia falta dele.
Deixei os pensamentos vagarem como nuvens cinzentas, preguiçosos demais para chover. O tigre flamejante?
Agora era só um gatinho ronronando debilmente, sua fúria dissipada no ar úmido. A morte, ah, ela demorava, preguiçosa como eu, talvez deitada em seu próprio sofá eterno, esperando que eu a chamasse. Mas eu não chamava. Somente esperava, no vazio que se expandia, engolindo horas como um buraco negro faminto. Continuei assim, ou melhor, parei de continuar porque no fim, o que era a história senão uma sucessão de nadas, amargos e solitários, ecoando até o silêncio final.
Máquina do Infinito
William Contraponto
O céu repete antigos labirintos,
com lógica de um sonho recorrente,
estrelas são os cálculos extintos
de uma mente que pensa eternamente.
Os átomos se alinham no compasso
do tempo que não sabe pra onde vai,
há dúvida moldando cada traço,
e o caos revela a ordem que se esvai.
Um pensamento pulsa entre os planetas,
em código que nunca se decifra,
e o vácuo grita verdades secretas
que a razão recusa, mas registra.
O universo é só um pensamento,
máquina viva sem operador,
reflete em mim seu movimento,
sou engrenagem do seu motor.
As galáxias giram como ideias,
que buscam forma e nome sem cessar,
mas toda luz produz suas aldeias
de sombra que ninguém pode evitar.
Se o mundo é mente, somos devaneio
de um cérebro em combustão,
e a vida, esse constante entremeio
entre a matéria e a percepção.
O universo é só um pensamento,
máquina viva sem operador,
reflete em mim seu movimento,
sou engrenagem do seu motor.
Quanto mais eu reflito, mais longe do mundo eu fico e mais distante do infinito me vejo por compreender tamanha beleza e mistério, imensidão, na qual me encontro.
Eu não sei nada!
Nas noites de inverno e de verão, com fim do dia e de seu coração, infinito é o que dura quando chego perto de suas mãos.
O nosso reino é a nossa luz, E nele bate o coração do infinito Que nos faz ver a claridade Da unidade, Do amor E da beleza da vida
Paz no ❤️
Soneto das Línguas do Ser
Em cada língua, um tom da consciência,
um modo do infinito se dizer;
no inglês, a mente em fria reverência,
no russo, o abismo aprende a renascer.
O italiano canta em transparência,
faz do divino um gesto de prazer;
o chinês respira a impermanência,
e o verbo volta ao nada, sem sofrer.
O português? É carne e transcendência,
onde razão e alma vêm beber;
é ponte entre o corpo e a existência,
eco de um Deus que tenta se entender.
Pois toda língua é um espelho do espírito —
e o homem fala pra lembrar o infinito.
Ao infinito e além!
Corria o ano de 1977 quando a NASA decidiu lançar ao Espaço duas naves não tripuladas, Voyager 1 e Voyager 2. Oito anos havia se passado da maior conquista já realizada pela humanidade, o pouso na superfície lunar em 1969, e agora era vez de descobrir novos mundos, de conquistar novas terras, de conhecer novos astros. Quase cinco décadas depois, elas são os artefatos feitos pelas mãos humanas mais distantes de nós. Já estão a bilhões de quilômetros da Terra, portanto, fora do nosso sistema solar, porém continuam enviando imagens inéditas e incríveis dos lugares por onde passam. Um feito surpreendente até mesmo para os engenheiros que as projetaram.
Um detalhe muito especial a bordo nas duas sondas é o mapa desenhado indicando a localização do nosso planeta e dois discos de ouro que tocam, ininterruptamente, canções e sons diversos mostrando a diversidade da cultura humana. Uma tentativa otimista de se comunicar com vida extraterrestre dizendo a possíveis ETs onde estamos e o que fazemos. Até agora, nenhuma resposta chegou, nenhum ruído ou sinal inteligível foi captado pelas nossas antenas oriundo das viajantes solitárias.
Quando e onde as duas aeronaves vão parar de voar ou talvez estacionar em algum lugar qualquer? Encontrarão elas algum ser inteligente e capaz de se comunicar com os terráqueos? Serão elas destruídas por algum outro objeto ou por alguma civilização distante? Talvez nunca tenhamos as respostas e fiquemos aqui conjecturando, por muito tempo, na nossa fértil imaginação.
Este projeto espacial já quase cinquentão me faz refletir sobre o que estaria por trás desta busca da humanidade por outras vidas inteligentes. Vejo que há uma mensagem por trás destas iniciativas de se vasculhar o espaço sideral, de se tentar descortinar este grande teatro onde estrelas e planetas brilham e reinam absolutos.
Em primeiro lugar, observo que há no homem um desejo ardente por fazer parte de algo maior do que ele, algo que o faça se sentir grande, imponente, relevante. Uma sede por expandir-se e, ao mesmo tempo, por pertencimento. De onde vem tal desejo? Segundo, vemos também uma vontade de se comunicar, quase um apetite por se revelar e trocar informações com alguém, como se disso dependesse sua própria existência. Por que isso? E ainda, podemos notar uma avidez por saber se estamos sozinhos, se estamos “perdidos no Espaço”, ao mesmo tempo demonstrando um não-querer viver na solidão do Universo.
Como se precisasse de alguém além-Terra que pudesse preencher seu vazio existencial, que pudesse carregar o hiato que há entre o mundo real e o ideal ou simplesmente responder às suas perguntas existenciais. Quem sabe aqui possamos vislumbrar uma certa similaridade com o “Mito da Caverna”, aquela velha parábola de Platão que fala de um prisioneiro que, ao ser liberto de um mundo onde sombras são projetadas na parede, de repente, descobre a existência de um mundo exterior, com objetos reais que o faz perceber as sombras como ilusões. Enfim, algo ou alguém parece estar faltando no palco da existência humana para lhe dar sentido e propósito.
Ao buscar respostas para tantas perguntas, lembro de alguns salmos que trazem alento ao meu coração. No salmo oito, por exemplo, o escritor pergunta: “Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste; Que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites?” E ele mesmo finaliza: “Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome sobre toda a terra!” 8:3-4 e 9. E sobre a sede de se comunicar e de se relacionar, o salmista também nos apresenta uma resposta. Numa de suas viagens a Jerusalém, diante de um momento de grande aflição, Davi compôs este belo hino como um cântico de peregrinação: “Levanto os meus olhos para os montes e pergunto: “De onde me vem o socorro?” O meu socorro vem do Senhor, que fez os céus e a terra”. 121:1-2.
No fundo, o que a NASA estava fazendo ao lançar as duas naves para o Espaço parece se resumir a esta pergunta feita por Davi: de onde nos virá o socorro?
Embora possamos sim esperar por possíveis contatos por meio das Voyagers, considerando a grandiosidade do cosmos e a plausibilidade da existência de outros seres inteligentes além de nós, podemos nos alegrar e nos deliciar hoje mesmo na presença paterna de um Deus que não apenas existe desde o sempre, mas também se comunica e se relaciona com suas criaturas demonstrando seu amor que não falha e não diminui um só centímetro para com seres finitos e inconstantes como nós.
Que haja em nós não apenas uma busca por seres interestelares, mas um grande desejo de conhecer, glorificar e exaltar o grande autor desta maravilhosa aquarela celestial, um Deus criador e criativo, ao infinito e além!
Na água cristalina, um mergulho sereno,
Enquanto chapadamos, no infinito terreno.
A alma se renova, leve e inteira,
Ao contemplar a natureza verdadeira.
(Chapada dos Veadeiros-Go)
💫 “Ecos do Teu Nome no Infinito”
Quando pronuncio o teu nome em segredo,
O ar suspira, o tempo se inclina;
E cada estrela, em tímido enredo,
Desenha em lume tua face divina.
És como a aurora que beija os montes,
E veste o mundo de nova emoção;
Teu riso — fonte que verte horizontes —
Desata em música o meu coração.
Teu olhar é verbo que o céu recita,
É lume antigo que o amor acendeu;
E o meu destino, qual flor bendita,
Desabrochou só porque és meu.
Se em tua ausência o mundo se apaga,
É porque em ti reside o viver;
E toda saudade que o peito propaga
É o eco eterno do meu querer.
Ah, se puderas sentir o que sinto,
Saberias — enfim, sem temor —
Que o próprio céu, ao fitar-te, sucinto,
Abençoou-me chamando-te Amor.
— Maycon Oliveira Dos Santos
Quando tudo acabar e vai acabar, nos juntaremos ao infinito.
Acompanharemos o tempo como uma mãe acompanha seu filho....
Olhos Perdidos
Olhos perdidos no infinito
Os pensamentos vão longe
Tão longe que chegam perto de ti
Mas são apenas pensamentos.
26/02/2018
S. Salla
Eu gosto de assistir o pôr-do-sol, pois o sol cobrindo o horizonte em um poente infinito, estimula nossas mentes, nosso corpo e contempla-nos com a mais doce calmaria.
A névoa desce,
abraça o asfalto frio,
Onde a visão se rende
ao infinito que não se vê
Estrada molhada,
pista que se esvai,
Onde o verde ao lado,
em bruma se retrai
Lá na frente,
luzes tímidas a surgir,
Guiando o passo
que insiste em prosseguir
Não importa o destino,
nem o que se perdeu,
Só a jornada
que a neblina te deu
Um convite ao silêncio,
ao caminhar calmo e lento,
Onde a pressa não existe,
só o presente momento
Entre o céu e o chão,
um véu a cobrir,
Seguindo em frente,
sem saber o que virá a seguir
Amei-te
como quem olha para desertos e vê canteiros
como quem mergulha num mar frio e vê infinitos
como quem toca em espinhos e vê encantos
como quem voa em vazios e toca em plumas...
Sai de mim .
Tentei gritar , romper , fugir ,fingir não ver ...
Mas os teus ensejos e trejeitos faziam do meu
peito um cordel de brinquedos.
Desalentos ...
Amei-te
como quem esquece dos seus templos
como quem adormece os seus desejos
como quem fere a honra sem calma
como quem rasga com estupidez sua alma ...
Como quem carrega nos ombros o peso da utopia .
Agonia ...
Amei-te
e não quis mais amar-te
Findou-se o tempo
Calaram-se as canções
Morreram-se as flores
Emudeceram-se os versos
Sobrou o silêncio.
Re-nasceu a lucidez .
Calmaria ...
A vida é um sopro do infinito que se manifesta no finito, quando o finito deseja se tornar infinito perde sua essência, pois o verdadeiro sentido não está em possuir tudo, mas em compreender o todo. O caminho não é sobre vencer os outros, é sobre vencer a si mesmo, afinal a força não é imposição, a força é harmonia do infinito com o finito.
'MISTURA INVULGAR...'
Não traço acepções olhando para o horizonte,o infinito apaga o sentido, e não se edifico.Delineei quimeras com estrelas e luas pálidas,eis o que me resta: um vulto, uma silhueta oblíqua.Contorço-me em viagens por veredas nunca feitos,rumo ao desconhecido, desfazendo em meu peito sinônimos, anônimo, sem nome, mas, minha trilha prossegue...
A pele é feita de sombras de espectadores,minha voz, o sussurro de antigos labores.Ninguém vê a fractura, o paradoxo visceral, opalco é minha cela, a plateia meu juiz,sou a cortina de amalgama, o gesto teatral.Invulgar como um cometa que caiu e não se extinguiu. Na terra fria e negra, um novo sol fabriquei.Sou mistura de abismo e de voo rasante...
O palco é minha cela, a plateia meu juiz,apresento o sorriso que nunca foi feliz.Cada ato é um naufrágio coreografado com arte,cada aplauso, um epitáfio que me rasga em parte.Sou o contorcionista da própria alma esfacelada,a procura de um centro na rotação desvairada.O desconhecido é meu único lar conhecido...
Anônimo na multitude, um rosto sem moldura,carrego o peso leve de uma existência à toa.Por trás da maquiagem, há um menino assustado,por trás do espetáculo, um silêncio sagrado.E o show precisa seguir, é imperativo e urgente,ainda que o actor principal esteja ausente.
Sempre em cartaz, a peça que não tem roteiro...
Nome raro, flor de estufa, rara írisnavegando em alto mar.Desenhei aspirações com fios de alquitarras,
e delas fiz névoa, labirinto, obelisco.Não sou o que percebem, sou o que não dizem,o vazio que habita no coração da risada. Aprópria procura que se nega na busca...
E assim se desdobra minha existência, entrelaçada,uma moeda de duas faces sempre jogada ao mar.O anônimo esplêndido, a mistura invulgar,a dança solitária que ninguém pode parar.O espetáculo que está sempre, sempre em cartaz,mesmo quando o teatro arde em chamas de paz.E no silêncio final, ecoa o verso: 'mistura invulgar'...
--- Risomar Sírley da Silva ---
