Indiretas de amor: demonstre interesse com sutileza 😉

O amor mais obcecante para alguém é sempre o amor de outra coisa.

O começo e a terminação do amor defrontam-se uma à outra, como enigmas.

O amor Ă© como as epidemias: quanto mais o tememos, mais expostos a ele estamos.

Amamo-nos sobre tudo, e aos outros homens por amor de nĂłs.

Por mais descobertas que se tenham feito nos domĂ­nios do amor-prĂłprio, ainda ficarĂŁo muitas terras por descobrir.

Qualquer amor encerra um abismo, que Ă© o prazer.

Muitas vezes o amado desencadeia a força lentamente acumulada no coração daquele que ama. O amor Ă© uma coisa solitĂĄria. É esta descoberta que faz sofrer.

O amor lança fora o medo, porque o medo produz tormento. Aquele que teme não é aperfeiçoado.

Amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus.

É difícil tentar dizer tudo quando só o seu olhar já me deixa sem palavras.

Quero poder conhecer vocĂȘ melhor, me divertir rindo das suas histĂłrias de quando era criança e do jeito como falava as palavras erradas. Quero me acostumar com o som da sua risada, o encaixe de nossas mĂŁos juntas, quero poder reconhecer o seu perfume de longe e poder cantar no meio de todos qualquer mĂșsica que lembre todos os nossos momentos. Eu quero isso e quero muito mais, eu quero, sim, quero eu e vocĂȘ pra realizar. Quero nĂłs.

A noite estĂĄ bela
EstĂĄ tĂŁo linda quanto ela
Pois a lua estĂĄ brilhando
Porém, ela irradiando
Ela acha que nĂŁo vi
Mas quando olhei jĂĄ percebi
Que gostaria de estar perto
Desta linda, estar bem perto
Te abraçando bem apertado
Com uns beijos misturados
Mas a ordem nĂŁo tem importĂąncia
Pois Ă© ela a relevĂąncia
De quando estou bem de pertinho
Sempre tem um bom carinho
Nesta noite muito linda
SĂł penso em ter a minha linda.

O Medo do Amor

Medo de amar? Parece absurdo, com tantos outros medos que temos que enfrentar: medo da violĂȘncia, medo da inadimplĂȘncia, e a nĂŁo menos temida solidĂŁo, que Ă© o que nos faz buscar relacionamentos. Mas absurdo ou nĂŁo, o medo de amar se instala entre as nossas vĂ©rtebras e a gente sabe por quĂȘ.

O amor, tão nobre, tão denso, tão intenso, acaba. Rasga a gente por dentro, faz um corte profundo que vai do peito até a virilha, o amor se encerra bruscamente porque de repente uma terceira pessoa surgiu ou simplesmente porque não hå mais interesse ou atração, sei lå, vå saber o que interrompe um sentimento, é mistério indecifråvel. Mas o amor termina, mal-agradecido, termina, e termina só de um lado, nunca se encerra em dois coraçÔes ao mesmo tempo, desacelera um antes do outro, e vai um pouco de dor pra cada canto. Dói em quem tomou a iniciativa de romper, porque romper não é fåcil, quebrar rotinas é sempre traumåtico. Além do amor existe a amizade que permanece e a presença com que se acostuma, romper um amor não é bobagem, é fato de grande responsabilidade, é uma ferida que se abre no corpo do outro, no afeto do outro, e em si próprio, ainda que com menos gravidade.

E ter o amor rejeitado, nem se fala, Ă© fratura exposta, definhamos em pĂșblico, encolhemos a alma, quase desejamos uma violĂȘncia qualquer vinda da rua para esquecermos dessa violĂȘncia vinda do tempo gasto e vivido, esse assalto em que nos roubaram tudo, o amor e o que vem com ele, confiança e estabilidade. Sem o amor, nada resta, a crença se desfaz, o romantismo perde o sentido, mĂșsicas idiotas nos fazem chorar dentro do carro.

Passa a dor do amor, vem a trégua, o coração limpo de novo, os olhos novamente secos, a boca vazia. Nada de bom estå acontecendo, mas também nada de ruim. Um novo amor? Nem pensar. Medo, respondemos.

Que corajosos somos nĂłs, que apesar de um medo tĂŁo justificado, amamos outra vez e todas as vezes que o amor nos chama, fingindo um pouco de resistĂȘncia mas sabendo que para sempre Ă© impossĂ­vel recusĂĄ-lo.

Martha Medeiros
CrĂŽnica "O Medo do Amor", 2003.

Nota: Texto originalmente publicado na coluna de Martha Medeiros, no website Almas GĂȘmeas, a 24 de novembro de 2003.

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Saudade Ă© solidĂŁo acompanhada,
Ă© quando o amor ainda nĂŁo foi embora,
mas o amado jĂĄ...

Aguinaldo Silva

Nota: Trecho de fala de um personagem da novela Fera Ferida, de Aguinaldo Silva. Muitas vezes atribuĂ­do de forma errĂŽnea a Pablo Neruda.

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Amor Epidérmico

Seus pais foram jantar fora e deixaram o apartamento sĂł para vocĂȘ, seu namorado e a tevĂȘ a cabo. Que inconseqĂŒentes! Em menos de um minuto vocĂȘs deixam a televisĂŁo falando sozinha e vĂŁo ensaiar umas cenas de amor no quartinho dos fundos. De repente, escutam o barulho da fechadura. Seu pai esqueceu o talĂŁo de cheques. Passos no corredor. Antes que vocĂȘ localize sua camiseta, sua mĂŁe se materializa na porta. Parece que ela estĂĄ brincando de estĂĄtua, mas nĂŁo resta dĂșvida que entrou em estado de choque. VocĂȘ diz o quĂȘ? MĂŁe, a carne Ă© fraca.

A desculpa é esfarrapada mas é legítima. Nada é mais vulneråvel que nosso desejo. Na luta entre o cérebro e a pele, nunca då empate. A pele sempre ganha de W.O.

VocĂȘ planeja terminar um relacionamento. Chegou Ă  conclusĂŁo que nĂŁo quer mais ter a seu lado uma pessoa distante, que nĂŁo leva nada Ă  sĂ©rio, que vive contando piadinhas preconceituosas e que nĂŁo parece estar muito apaixonado. Por que levar a histĂłria adiante? Melhor terminar tudo hoje mesmo. Marca um encontro. Ele chega no horĂĄrio, vocĂȘ tambĂ©m. Começam a conversar. VocĂȘ engata o assunto. Para sua surpresa, ele ficou triste. NĂŁo quer se separar de vocĂȘ. E para provar, segura seu rosto com as duas mĂŁos e tasca-lhe um beijo. Danou-se.

Onde foram parar as teorias, os diĂĄlogos que vocĂȘ planejou, a decisĂŁo que parecia irrevogĂĄvel? Tomaram Doril. VocĂȘ agora estĂĄ sob os efeitos do cheiro dele, estĂĄ rendida ao gosto dele, estĂĄ ligada a ele pela derme e epiderme. A gravação do seu celular informa: seus neurĂŽnios estĂŁo fora da ĂĄrea de cobertura ou desligados.

Isso nunca aconteceu com vocĂȘ? Reluto entre dar-lhe os parabĂ©ns ou os pĂȘsames. Por um lado, Ă© Ăłtimo ter controle absoluto de todas as suas açÔes e reaçÔes, ter força suficiente para resistir ao prĂłprio desejo. Por outro lado, como Ă© bom dar folga ao nosso raciocĂ­nio e deixar-se seduzir, sem ficar calculando perdas e danos, apenas dando-se ao luxo de viver o seu dia de PigmaleĂŁo.

A carne Ă© fraca, mas vocĂȘ tem que ser forte, Ă© o que recomendam todos. Tente, ao menos de vez em quando, ser sexualmente vegetariano e nĂŁo ceder Ă s tentaçÔes. Se conseguir, bravo: terĂĄ as rĂ©deas de seu destino na mĂŁo. Mas se nĂŁo der certo, console-se. Criaturas que derretem-se, entregam-se, consomem-se e nĂŁo sabem negar-se costumam trazer um sorriso enigmĂĄtico nos lĂĄbios. Alguma recompensa hĂĄ de ter.

Martha Medeiros
CrÎnica "Amor Epidérmico", 1999.

Nota: Texto originalmente publicado na coluna de Martha Medeiros, no website Almas GĂȘmeas, a 30 de novembro de 1998.

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PARA VIVER UM GRANDE AMOR

Para viver um grande amor, preciso Ă© muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister Ă© ser um homem de uma sĂł mulher; pois ser de muitas, poxa! Ă© de colher... — nĂŁo tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro Ă© preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lĂĄ como for. HĂĄ que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, Ă© preciso atenção como o "velho amigo", que porque Ă© sĂł vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitĂ­ssimo cuidado com quem quer que nĂŁo esteja apaixonado, pois quem nĂŁo estĂĄ, estĂĄ sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, hĂĄ que compenetrar-se da verdade de que nĂŁo existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade Ă© um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizĂ­vel liberdade que traz um sĂł amor.

Para viver um grande amor, il faut alĂ©m de fiel, ser bem conhecedor de arte culinĂĄria e de judĂŽ — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, nĂŁo basta ser apenas bom sujeito; Ă© preciso tambĂ©m ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viĂșva tambĂ©m, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessĂĄrio ter em vista um crĂ©dito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, Ă© de amor, Ă© de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarĂ”es, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que hĂĄ de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor Ă© muito, muito importante viver sempre junto e atĂ© ser, se possĂ­vel, um sĂł defunto — pra nĂŁo morrer de dor. É preciso um cuidado permanente nĂŁo sĂł com o corpo mas tambĂ©m com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. HĂĄ que ser bem cortĂȘs sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.

Vinicius de Moraes
Livro de Letras

O sentimento do amor nĂŁo-correspondido Ă© diferente, Ă­ntimo, impiedoso. É como jogar uma bola para o cĂ©u e ela, desafiando a gravidade, desaparecer. E Ă© impossĂ­vel nĂŁo ficar ali esperando ela voltar.

Tudo que me desejar de negativo baterĂĄ no peito e voltarĂĄ pra vocĂȘ em forma de amor e paz.

O amor Ă© como o capim: vocĂȘ planta, cultiva, espera crescer e depois vem uma vaca e acaba com tudo.

AMOR FEINHO
Eu quero amor feinho.
Amor feinho nĂŁo olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
nĂŁo teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho Ă© magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que nĂŁo fala, faz.
Planta beijo de trĂȘs cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho Ă© bom porque nĂŁo fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos Ă© o que Ă©:
eu sou homem vocĂȘ Ă© mulher.
Amor feinho nĂŁo tem ilusĂŁo,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

Adélia Prado
PRADO, A. Bagagem. Rio de Janeiro: Record. 2011. p. 97