Indiretas de amor: demonstre interesse com sutileza 😉

Por mais descobertas que se tenham feito nos domĂ­nios do amor-prĂłprio, ainda ficarĂŁo muitas terras por descobrir.

Qualquer amor encerra um abismo, que Ă© o prazer.

Muitas vezes o amado desencadeia a força lentamente acumulada no coração daquele que ama. O amor Ă© uma coisa solitĂĄria. É esta descoberta que faz sofrer.

O amor lança fora o medo, porque o medo produz tormento. Aquele que teme não é aperfeiçoado.

Amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus.

O Medo do Amor

Medo de amar? Parece absurdo, com tantos outros medos que temos que enfrentar: medo da violĂȘncia, medo da inadimplĂȘncia, e a nĂŁo menos temida solidĂŁo, que Ă© o que nos faz buscar relacionamentos. Mas absurdo ou nĂŁo, o medo de amar se instala entre as nossas vĂ©rtebras e a gente sabe por quĂȘ.

O amor, tão nobre, tão denso, tão intenso, acaba. Rasga a gente por dentro, faz um corte profundo que vai do peito até a virilha, o amor se encerra bruscamente porque de repente uma terceira pessoa surgiu ou simplesmente porque não hå mais interesse ou atração, sei lå, vå saber o que interrompe um sentimento, é mistério indecifråvel. Mas o amor termina, mal-agradecido, termina, e termina só de um lado, nunca se encerra em dois coraçÔes ao mesmo tempo, desacelera um antes do outro, e vai um pouco de dor pra cada canto. Dói em quem tomou a iniciativa de romper, porque romper não é fåcil, quebrar rotinas é sempre traumåtico. Além do amor existe a amizade que permanece e a presença com que se acostuma, romper um amor não é bobagem, é fato de grande responsabilidade, é uma ferida que se abre no corpo do outro, no afeto do outro, e em si próprio, ainda que com menos gravidade.

E ter o amor rejeitado, nem se fala, Ă© fratura exposta, definhamos em pĂșblico, encolhemos a alma, quase desejamos uma violĂȘncia qualquer vinda da rua para esquecermos dessa violĂȘncia vinda do tempo gasto e vivido, esse assalto em que nos roubaram tudo, o amor e o que vem com ele, confiança e estabilidade. Sem o amor, nada resta, a crença se desfaz, o romantismo perde o sentido, mĂșsicas idiotas nos fazem chorar dentro do carro.

Passa a dor do amor, vem a trégua, o coração limpo de novo, os olhos novamente secos, a boca vazia. Nada de bom estå acontecendo, mas também nada de ruim. Um novo amor? Nem pensar. Medo, respondemos.

Que corajosos somos nĂłs, que apesar de um medo tĂŁo justificado, amamos outra vez e todas as vezes que o amor nos chama, fingindo um pouco de resistĂȘncia mas sabendo que para sempre Ă© impossĂ­vel recusĂĄ-lo.

Martha Medeiros
CrĂŽnica "O Medo do Amor", 2003.

Nota: Texto originalmente publicado na coluna de Martha Medeiros, no website Almas GĂȘmeas, a 24 de novembro de 2003.

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Saudade Ă© solidĂŁo acompanhada,
Ă© quando o amor ainda nĂŁo foi embora,
mas o amado jĂĄ...

Aguinaldo Silva

Nota: Trecho de fala de um personagem da novela Fera Ferida, de Aguinaldo Silva. Muitas vezes atribuĂ­do de forma errĂŽnea a Pablo Neruda.

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Amor Epidérmico

Seus pais foram jantar fora e deixaram o apartamento sĂł para vocĂȘ, seu namorado e a tevĂȘ a cabo. Que inconseqĂŒentes! Em menos de um minuto vocĂȘs deixam a televisĂŁo falando sozinha e vĂŁo ensaiar umas cenas de amor no quartinho dos fundos. De repente, escutam o barulho da fechadura. Seu pai esqueceu o talĂŁo de cheques. Passos no corredor. Antes que vocĂȘ localize sua camiseta, sua mĂŁe se materializa na porta. Parece que ela estĂĄ brincando de estĂĄtua, mas nĂŁo resta dĂșvida que entrou em estado de choque. VocĂȘ diz o quĂȘ? MĂŁe, a carne Ă© fraca.

A desculpa é esfarrapada mas é legítima. Nada é mais vulneråvel que nosso desejo. Na luta entre o cérebro e a pele, nunca då empate. A pele sempre ganha de W.O.

VocĂȘ planeja terminar um relacionamento. Chegou Ă  conclusĂŁo que nĂŁo quer mais ter a seu lado uma pessoa distante, que nĂŁo leva nada Ă  sĂ©rio, que vive contando piadinhas preconceituosas e que nĂŁo parece estar muito apaixonado. Por que levar a histĂłria adiante? Melhor terminar tudo hoje mesmo. Marca um encontro. Ele chega no horĂĄrio, vocĂȘ tambĂ©m. Começam a conversar. VocĂȘ engata o assunto. Para sua surpresa, ele ficou triste. NĂŁo quer se separar de vocĂȘ. E para provar, segura seu rosto com as duas mĂŁos e tasca-lhe um beijo. Danou-se.

Onde foram parar as teorias, os diĂĄlogos que vocĂȘ planejou, a decisĂŁo que parecia irrevogĂĄvel? Tomaram Doril. VocĂȘ agora estĂĄ sob os efeitos do cheiro dele, estĂĄ rendida ao gosto dele, estĂĄ ligada a ele pela derme e epiderme. A gravação do seu celular informa: seus neurĂŽnios estĂŁo fora da ĂĄrea de cobertura ou desligados.

Isso nunca aconteceu com vocĂȘ? Reluto entre dar-lhe os parabĂ©ns ou os pĂȘsames. Por um lado, Ă© Ăłtimo ter controle absoluto de todas as suas açÔes e reaçÔes, ter força suficiente para resistir ao prĂłprio desejo. Por outro lado, como Ă© bom dar folga ao nosso raciocĂ­nio e deixar-se seduzir, sem ficar calculando perdas e danos, apenas dando-se ao luxo de viver o seu dia de PigmaleĂŁo.

A carne Ă© fraca, mas vocĂȘ tem que ser forte, Ă© o que recomendam todos. Tente, ao menos de vez em quando, ser sexualmente vegetariano e nĂŁo ceder Ă s tentaçÔes. Se conseguir, bravo: terĂĄ as rĂ©deas de seu destino na mĂŁo. Mas se nĂŁo der certo, console-se. Criaturas que derretem-se, entregam-se, consomem-se e nĂŁo sabem negar-se costumam trazer um sorriso enigmĂĄtico nos lĂĄbios. Alguma recompensa hĂĄ de ter.

Martha Medeiros
CrÎnica "Amor Epidérmico", 1999.

Nota: Texto originalmente publicado na coluna de Martha Medeiros, no website Almas GĂȘmeas, a 30 de novembro de 1998.

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PARA VIVER UM GRANDE AMOR

Para viver um grande amor, preciso Ă© muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister Ă© ser um homem de uma sĂł mulher; pois ser de muitas, poxa! Ă© de colher... — nĂŁo tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro Ă© preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lĂĄ como for. HĂĄ que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, Ă© preciso atenção como o "velho amigo", que porque Ă© sĂł vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitĂ­ssimo cuidado com quem quer que nĂŁo esteja apaixonado, pois quem nĂŁo estĂĄ, estĂĄ sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, hĂĄ que compenetrar-se da verdade de que nĂŁo existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade Ă© um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizĂ­vel liberdade que traz um sĂł amor.

Para viver um grande amor, il faut alĂ©m de fiel, ser bem conhecedor de arte culinĂĄria e de judĂŽ — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, nĂŁo basta ser apenas bom sujeito; Ă© preciso tambĂ©m ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viĂșva tambĂ©m, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessĂĄrio ter em vista um crĂ©dito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, Ă© de amor, Ă© de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarĂ”es, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que hĂĄ de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor Ă© muito, muito importante viver sempre junto e atĂ© ser, se possĂ­vel, um sĂł defunto — pra nĂŁo morrer de dor. É preciso um cuidado permanente nĂŁo sĂł com o corpo mas tambĂ©m com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. HĂĄ que ser bem cortĂȘs sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.

Vinicius de Moraes
Livro de Letras

O sentimento do amor nĂŁo-correspondido Ă© diferente, Ă­ntimo, impiedoso. É como jogar uma bola para o cĂ©u e ela, desafiando a gravidade, desaparecer. E Ă© impossĂ­vel nĂŁo ficar ali esperando ela voltar.

Tudo que me desejar de negativo baterĂĄ no peito e voltarĂĄ pra vocĂȘ em forma de amor e paz.

O amor Ă© como o capim: vocĂȘ planta, cultiva, espera crescer e depois vem uma vaca e acaba com tudo.

AMOR FEINHO
Eu quero amor feinho.
Amor feinho nĂŁo olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
nĂŁo teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho Ă© magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que nĂŁo fala, faz.
Planta beijo de trĂȘs cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho Ă© bom porque nĂŁo fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos Ă© o que Ă©:
eu sou homem vocĂȘ Ă© mulher.
Amor feinho nĂŁo tem ilusĂŁo,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

Adélia Prado
PRADO, A. Bagagem. Rio de Janeiro: Record. 2011. p. 97

Palavras ao vento

A primeira letra do alfabeto Ă© tambĂ©m a primeira letra da palavra amor e se acha importantĂ­ssima por isso! Com A se escreve "arrependimento" que Ă© uma inĂștil vontade de pedir ao tempo para voltar atrĂĄs e com A se dĂĄ o tipo de tchau mais triste que existe: "adeus"... Ah, Ă© com A que se faz "abracadabra", palavra que se diz capaz de transformar sapo em prĂ­ncipe e vice-versa...
Com B se diz "belo" - que Ă© tudo que faz os olhos pensarem ser coração; e se dĂĄ a "bĂȘnção", um sim que pretende dar sorte.
Com C, "calendĂĄrio", que Ă© onde moram os dias e o "carnaval", esta oportunidade praticamente obrigatĂłria de ser feliz com data marcada. "Civilizado" Ă© quem jĂĄ aprendeu a cantar ÂŽparabĂ©ns pra vocĂȘ` e sabe o que Ă© "contrato": "vocĂȘ isso, eu aquilo, com assinatura embaixo".
Com D , se chega à "dedução", o caminho entre o "se" e o "então"... Com D começa "defeito", que é cada pedacinho que falta para se chegar à perfeição e se pede "desculpa", uma palavra que pretende ser beijo.
E tem o E de "efĂȘmero", quando o eterno passa logo; de "escuridĂŁo", que Ă© o resto da noite, se alguĂ©m recortar as estrelas; e "emoção", um tango que ainda nĂŁo foi feito. E tem tambĂ©m "eba!", uma forma de agradecimento muito utilizada por quem ganhou um pirulito, por exemplo...
F é para "fantasia", qualquer tipo de "jå pensou se fosse assim?"; "fåbula", uma história que poderia ter acontecido de verdade, se a verdade fosse um pouco mais maluca; e "fé", que é toda certeza que dispensa provas.
A sétima letra do alfabeto é G, que fica irritadíssima quando a confundem com o J. G, de "grade", que serve para prender todo mundo - uns dentro, outros fora; G de "goleiro", alguém em quem se pode botar a culpa do gol; G de "gente": carne, osso, alma e sentimento, tudo isso ao mesmo tempo.
Depois vem o H de "história": quando todas as palavras do dicionårio ficam à disposição de quem quiser contar qualquer coisa que tenha acontecido ou sido inventada.
O I de "idade", aquilo que vocĂȘ tem certeza que vai ganhar de aniversĂĄrio, queira ou nĂŁo queira.
J de "janela!, por onde entra tudo que é lå fora e de "jasmim", que tem a sorte de ser flor e ainda tem a graça de se chamar assim.
L de "lå", onde a gente fica pensando se estå melhor ou pior do que aqui; de "lågrima", sumo que sai pelos olhos quando se espreme o coração, e de "loucura", coisa que quem não tem só pode ser completamente louco.
M de "madrugada", quando vivem os sonhos...
N de "noiva", moça que geralmente usa branco por fora e vermelho por dentro.
O de "Ăłbvio", nĂŁo precisa explicar...
P de "pecado", algo que os homens inventaram e entĂŁo inventaram que foi Deus que inventou.
Q, tudo que tem um nĂŁo sei quĂȘ de nĂŁo sei quĂȘ.
E R, de "rebolar", o que se tem que fazer pra chegar lĂĄ.
S Ă© de "sagrado", tudo o que combina com uma cantata de Bach; de "segredo", aquilo que vocĂȘ estĂĄ louco pra contar; de "sexo": quando o beijo Ă© maior que a boca.
T é de "talvez", resposta pior que Žnão`, uma vez que ainda deixa, meio bamba, uma esperança... De "tanto", um muito que até ficou tonto... De "testemunha": quem por sorte ou por azar, não estava em outro lugar.
U de "ui", um Ă i" que ainda Ă© arrepio; de "Ășltimo", que anuncia o começo de outra coisa; e de "Ășnico": tudo que, pela facilidade de virar nenhum, pede cuidado.
Vem o V, de "vazio", um termo injusto com a palavra nada; de "volĂșvel", uma pessoa que ora quer o que quer, ora quer o que querem que ela queira.
E chegamos ao X, uma incĂłgnita... X de "xingamento", que Ă© uma palavra ou frase destinada a acabar com a alegria de alguĂ©m; e de "xĂŽ", Ășnica palavra do dicionĂĄrio das aves traduzida para o portuguĂȘs.
Z Ă© a Ășltima letra do alfabeto, que alcançou a glĂłria quando foi usada pelo Zorro... Z de "zaga", algo que serve para o goleiro nĂŁo se sentir o Ășnico culpado; de "zebra", quando vocĂȘ esperava liso e veio listrado; e de "zĂ­per", fecho que precisa de um bom motivo pra ser aberto; e de "zureta", que Ă© como fica a cabeça da gente ao final de um dicionĂĄrio inteiro.

O nosso amor Ă© como o vento. NĂŁo posso vĂȘ-lo, mas posso senti-lo.

Landon Carter
Um Amor para Recordar (2002)

Nota: Filme baseado no livro "Um amor para Recordar" de Nicholas Sparks.

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Le pregunté a un sabio
la diferencia fue
entre el amor y la amistad, el
me dijo esta verdad ...
El amor es mĂĄs sensible,
MĂĄs seguro de la Amistad.
El amor nos da alas,
La amistad de la tierra.
En el amor es mĂĄs cuidado,
La amistad en la comprensiĂłn.
El amor es plantado
y amorosamente cultivadas
Amistad viene mejilla,
y el intercambio de alegrĂ­a y tristeza,
se convierte en un gran y querido
compañero.
Pero cuando el amor es sincero
viene con un gran amigo,
y cuando la amistad es real,
EstĂĄ lleno de amor y afecto.
Cuando usted tiene un amigo
, o una gran pasiĂłn,
ambos coexisten sentimientos
dentro de su corazĂłn.

Desconhecido

Nota: Muitas vezes atribuĂ­do a William Shakespeare, MĂĄrio Quintana e Veronica Shoffstall, sem que se confirme nenhuma dessas autorias.

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O amor não é considerado um erro, e sim algo inevitåvel, por que se alguém passou pela vida e não amou, não viveu, só passou.

Amor nĂŁo se pede

Uma declaração de amor revoltado.

Se implorar resolvesse, nĂŁo me importaria. De joelhos, no milho, em espinhos, agachada, com o cofrinho aparecendo. Uma loucura qualquer, se ajudasse, eu faria com o maior prazer. Do ridĂ­culo ao medo: pularia pelada de bungee jump. Chorar, se desse resultado, eu acabaria com a seca de qualquer Estado, de qualquer espĂ­rito.
Mas amor nĂŁo se pede, imagine sĂł. Ei, seu tonto, serĂĄ que vocĂȘ nĂŁo pode me olhar com olhos de devoção porque eu estou aqui quase esmagada com sua presença? NĂŁo, nĂŁo dĂĄ pra dizer isso. Ei, seu velho, serĂĄ que vocĂȘ pode me abraçar como se estivĂ©ssemos caindo de uma ponte porque eu estou aqui sem chĂŁo com sua presença? NĂŁo, vocĂȘ nĂŁo pode dizer isso. Ei, monstro do lixo, serĂĄ que vocĂȘ pode me beijar como um beijo de final de filme porque eu estou aqui sem saliva, sem ar, sem vida com a sua presença? Definitivamente, nĂŁo, melhor nĂŁo.
Amor nĂŁo se pede, Ă© uma pena. É uma pena correr com pulinhos enganados de felicidade e levar uma rasteira. É uma pena ter o coração inchado de amar sozinha, olhos inchados de amar sozinha. Um semblante altista de quem constrĂłi sozinho sonhos. Mas vocĂȘ nĂŁo pode, nĂŁo, eu sei que dĂĄ vontade, mas nĂŁo dĂĄ pra ligar pro desgraçado e dizer: ei, tĂŽ sofrendo aqui, vamos parar com essa estupidez de nĂŁo me amar e vir logo resolver meu problema?
Mas amor, minha querida, nĂŁo se pede, dĂĄ raiva, eu sei. Raiva dele ter tirado o gosto do mousse de chocolate que vocĂȘ amava tanto. Raiva dele fazer vocĂȘ comer cinco mousses de chocolate seguidos pra ver se, em algum momento, o gosto volta. Raiva dele ter tirado as cores bonitas do mundo, a felicidade imensa em ver crianças sorrindo, a graça na bobeira de um cachorro querendo brincar.
Ele roubou sua leveza mas, por alguma razĂŁo, vocĂȘ estĂĄ vazia. Mas nĂŁo dĂĄ, nem de brincadeira, pra vocĂȘ ligar pro cara e dizer: ei, a vida Ă© curta pra sofrer, volta, volta, volta. Porque amor, meu amor, nĂŁo se pede, Ă© triste, eu sei bem.
É triste ver o Sol e nĂŁo vĂȘ-lo se irritar porque seus olhos sĂŁo claros demais, sĂŁo tristes as manhĂŁs que prometem mais um dia sem ele, sĂŁo tristes as noites que cumprem a promessa. É triste respirar sem sentir aquele cheiro que invade e vocĂȘ nĂŁo olha de lado, aquele cheiro que acalma a busca. Aquele cheiro que dĂĄ vontade de transar pro resto da vida. É triste amar tanto e tanto amor nĂŁo ter proveito. Tanto amor querendo fazer alguĂ©m feliz. Tanto amor querendo escrever uma histĂłria, mas sĂł escrevendo este texto amargurado. É triste saber que falta alguma coisa e saber que nĂŁo dĂĄ pra comprar, substituir, esquecer, implorar. É triste lembrar como eu ria com ele.
Mas amor, vocĂȘ sabe, amor nĂŁo se pede. Amor se declara: sabe de uma coisa? Ele sabe, ele sabe.

Mais vale calar um sentimento do que manifestar amor a quem nĂŁo pode compreender.

AMOR & LOUCURA

Contam que uma vez se reuniram todos os sentimentos e qualidades dos homens em um lugar da terra. Quando o ABORRECIMENTO havia reclamado pela terceira vez, a LOUCURA, como sempre tĂŁo louca, lhes propĂŽs:
- Vamos brincar de esconde-esconde?
A INTRIGA levantou a sobrancelha intrigada e a CURIOSIDADE sem poder conter-se perguntou:
- Esconde-esconde? Como Ă© isso?
- É um jogo, explicou a LOUCURA, em que eu fecho os olhos e começo a contar de um a um milhĂŁo enquanto vocĂȘs se escondem, e quando eu tiver terminado de contar, o primeiro de vocĂȘs que eu encontrar ocuparĂĄ meu lugar para continuar o jogo.
O ENTUSIASMO dançou seguido pela EUFORIA.
A ALEGRIA deu tantos saltos que acabou pĂŽr convencer a DÚVIDA e atĂ© mesmo a APATIA, que nunca se interessavam por nada. Mas nem todos quiseram participar.
A VERDADE preferiu nĂŁo esconder-se.
- Para que, se no final todos me encontram?
A SOBERBA opinou que era um jogo muito tonto (no fundo o que a incomodava era que a idéia não tivesse sido dela).
A COVARDIA preferiu nĂŁo arriscar-se.
- Um, dois, trĂȘs, quatro...
- começou a contar a LOUCURA.
A primeira a esconder-se foi a PRESSA, que como sempre caiu atrĂĄs da primeira pedra do caminho.
A FÉ subiu ao cĂ©u e a INVEJA se escondeu atrĂĄs da sombra do TRIUNFO, que com seu prĂłprio esforço tinha conseguido subir na copa da ĂĄrvore mais alta.
A GENEROSIDADE quase não consegue esconder-se, pois cada local que encontrava, lhe parecia maravilhoso para algum de seus amigos. Se era um lago cristalino, ideal para a BELEZA. Se era a copa de uma árvore, perfeito para a TIMIDEZ. Se era o voo de uma borboleta, o melhor para a VOLÚPIA. Se era uma rajada de vento, magnífico para a LIBERDADE. E assim acabou escondendo-se em um raio de sol.
O EGOÍSMO, ao contrĂĄrio, encontrou um local muito bom desde o inĂ­cio. Ventilado, cĂŽmodo, mas apenas para ele. A MENTIRA escondeu-se no fundo do oceano (mentira, na realidade, escondeu-se atrĂĄs do arco-Ă­ris). E a PAIXÃO e o DESEJO, no centro dos vulcĂ”es.O ESQUECIMENTO, nĂŁo recordo-me onde escondeu-se, mas isso nĂŁo Ă© o mais importante.
Quando a LOUCURA estava lĂĄ pelo 999.999, o AMOR ainda nĂŁo havia encontrado um local para esconder-se, pois todos jĂĄ estavam ocupados, atĂ© que encontrou uma roseira e, carinhosamente, decidiu esconder-se entre suas flores. A primeira a aparecer foi a PRESSA, apenas a trĂȘs passos de uma pedra.
Depois, escutou-se a FÉ discutindo com Deus, no cĂ©u, sobre zoologia. Sentiu-se vibrar a PAIXÃO e o DESEJO nos vulcĂ”es. Em um descuido, a LOUCURA encontrou a INVEJA e claro, pĂŽde deduzir onde estava o TRIUNFO. O EGOÍSMO, nĂŁo teve nem que procurĂĄ-lo: ele sozinho saiu disparado de seu esconderijo, que na verdade era um ninho de vespas.
De tanto caminhar, a LOUCURA sentiu sede e ao aproximar-se de um lago, descobriu a BELEZA. A DÚVIDA foi mais fĂĄcil ainda, pois a encontrou sentada sobre uma cerca sem decidir de que lado esconder-se. E assim foi encontrando a todos. O TALENTO entre a erva fresca, a ANGÚSTIA em uma cova escura, a MENTIRA atrĂĄs do arco-Ă­ris (mentira, estava no fundo do oceano) e atĂ© o ESQUECIMENTO, que jĂĄ havia esquecido que estava brincando de esconde-esconde. Apenas o AMOR nĂŁo aparecia em nenhum local. A LOUCURA procurou atrĂĄs de cada ĂĄrvore, embaixo de cada rocha do planeta e em cima das montanhas. Quando estava a ponto de dar-se pĂŽr vencida, encontrou um roseiral. Pegou uma forquilha e começou a mover os ramos, quando, no mesmo instante, escutou-se um doloroso grito. Os espinhos tinham ferido o AMOR nos olhos. A LOUCURA nĂŁo sabia o que fazer para desculpar-se. Chorou, rezou, implorou, pediu perdĂŁo e atĂ© prometeu ser seu guia.
Desde entĂŁo, desde que pela primeira vez se brincou de esconde-esconde na terra, o AMOR Ă© cego e a LOUCURA sempre o acompanha...