Indiretas de amor: demonstre interesse com sutileza đ
HĂĄ pais que nĂŁo criam filhos; criam dependentes e chamam isso de amor. Alimentam cada capricho, negociam cada limite, compram cada silĂȘncio, removem cada consequĂȘncia e, no fim, aplaudem uma obediĂȘncia que nunca foi virtude, mas conveniĂȘncia. O que chamam de proteção Ă©, muitas vezes, medo de frustrar; o que chamam de cuidado Ă© incapacidade de educar; o que chamam de amor Ă© apenas a recusa em suportar o desconforto de dizer ânĂŁoâ. Cada responsabilidade assumida no lugar do filho Ă© um pedaço de carĂĄter que deixa de ser construĂdo. Cada dificuldade evitada Ă© uma força que deixa de nascer. Pais que fazem da prĂłpria vida um escudo permanente nĂŁo estĂŁo preparando os filhos para o mundo; estĂŁo preparando o mundo para carregar filhos que eles mesmos decidiram nĂŁo formar. A tragĂ©dia nĂŁo começa quando os pais morrem. Ela começa no exato instante em que deixam de educar e passam a servir. Porque o pior abandono nĂŁo Ă© deixar um filho sozinho; Ă© entregĂĄ-lo Ă vida sem consciĂȘncia, sem disciplina e sem a capacidade de existir sem depender de alguĂ©m.
A vida nunca premiou os amaDORES que confundiram amor com superproteção, nem os poupaDORES que sequestraram dos filhos o direito de enfrentar a realidade. A vida sempre pertenceu aos enfrentaDORES. Porque quem poupa um filho da dor nĂŁo o livra do sofrimento; apenas adia o encontro com ele, tornando-o maior, mais caro e, muitas vezes, irreversĂvel. Pais que retiram cada pedra do caminho acabam retirando dos prĂłprios filhos a capacidade de caminhar. No afĂŁ de evitar lĂĄgrimas, fabricam fraquezas. No medo de decepcionar, educam para a dependĂȘncia. No excesso de ajuda, condenam Ă escassez de carĂĄter. O amor que nĂŁo disciplina deixa de formar e passa a deformar. E a pior deformidade nĂŁo Ă© a do corpo, mas a de uma consciĂȘncia que acredita que viver Ă© encontrar alguĂ©m disposto a carregĂĄ-la para sempre.
Pais que transformam o amor em superproteção deixam de criar filhos e passam a fabricar dependĂȘncia. O conforto que oferecem hoje pode ser a incapacidade que condenarĂĄ o amanhĂŁ.
Vamos repensar?
Erich Fromm â âO amor Ă© uma arte.â
âUma sociedade que ensina a consumir tudo desaprende a cultivar algo. O amor deixou de ser uma construção diĂĄria e passou a ser uma expectativa imediata.â
Carlos Eduardo Balcarse
Ao beijo atribuĂdo
sem tom
de amor:
Teu crescer
pouco a pouco
em respirar leve,
de tendĂȘncias breves
ĂĄ tudo que se segue;
Decaindo a tarde
ninguĂ©m ignoraâ
nada mais
por aqui.
Tudo Ă© possĂvel
ao que crer
no incrĂvel,
que se-nos-deu,
horas vagas
vagariam
de amor implĂcito
a olho nu;
Num lance de palavras
despertei-te entĂŁo
tua tĂŁo sonhada sinfonia,
ao conservador
saco plĂĄstico
chega para ti
o meu presente entĂŁo.
â
Vista-se
de amor
e o resto
"mande pro ralo",
Ă© um tal
de bem-me-quer
que consulta
o caso raro;
Eu te digo:
Tem coisas que deixam
"â em linha de frente"
um romance
pouco divulgado.
Amor,
se fosse
pra entender,
poucos o viveriam,
assim:
Todos
na expectativa
de possĂveis
melhores dias,
encana,
desencana,
a veracidade
pairando no olhar;
sem promessas
de excelentes venturas
mas ao mesmo tempo
nĂŁo deixando
de acreditar.â
