Indiretas de amor: demonstre interesse com sutileza đ
NO INTERIOR DA FERIDA.
Escritor: Marcelo Caetano Monteiro.
NĂŁo peço que a dor se retire. Ela jĂĄ nĂŁo Ă© estrangeira. Habita-me como uma presença inevitĂĄvel, tĂŁo Ăntima que sua ausĂȘncia seria mutilação. Acostumamo-nos um ao outro nesta estrada do mundo, onde o amor Ă© escasso nĂŁo por impossibilidade, mas por temor. Poucos ousam sustentar o peso da liberdade que amar exige.
Estou ajoelhado nela, e ela ajoelha-se em mim. NĂŁo hĂĄ hierarquia nesse pacto. HĂĄ cumplicidade. A dor nĂŁo me domina, tampouco eu a domino. Existimos no mesmo espaço, como duas consciĂȘncias que se reconhecem no silĂȘncio. DĂłi, mas Ă© minha. E justamente por ser minha, nĂŁo a repudio. Seria negar a prĂłpria textura do que sou.
O horizonte tornou-se cinza. NĂŁo o cinza da neutralidade, mas o da revelação. A alegria que ainda subsiste vem Ășmida, dissolvida nas lĂĄgrimas que nĂŁo pedem testemunhas. HĂĄ uma lucidez amarga na compreensĂŁo de que a felicidade fĂĄcil Ă© distração. O que permanece Ă© a densidade da experiĂȘncia.
Deixa tudo como estĂĄ. NĂŁo por resignação, mas por fidelidade Ă busca. Ainda procuro a verdade, e essa procura nĂŁo admite adornos. A diferença, que antes feria como julgamento, perdeu importĂąncia. Diante do absoluto, as comparaçÔes sĂŁo ruĂdo. Cada ser estĂĄ ligado Ă prĂłpria travessia.
Se poucos amam, é porque amar implica assumir o risco da própria exposição. Amar assim é aceitar que não hå garantias. à lançar-se ao outro sem a promessa de retorno. E, ainda assim, continuar.
Permaneço na linha fina do meu horizonte. NĂŁo por esperança ingĂȘnua, mas por decisĂŁo consciente. A dor nĂŁo me define, mas me revela aos poucos a mim mesmo. E enquanto a verdade nĂŁo se deixa capturar, sigo caminhando, mesmo que o caminho seja feito de sombra e silĂȘncio. Ă pura lição e essĂȘncia absoluta do absoluto. GratidĂŁo.
DA ESCRITA COMO DESTINO DA CONSCIĂNCIA.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
NĂŁo nascemos prontos.
Somos rascunho.
Somos folha ainda em branco
Ă espera da coragem de ser escrita.
O mundo nĂŁo nos entrega sentido acabado.
Entrega-nos silĂȘncio.
E diante desse silĂȘncio
erguemos a palavra.
NĂŁo a palavra leve.
Mas a palavra que pesa.
A que nasce do conflito interior.
A que atravessa a noite da dĂșvida
e ainda assim decide existir.
O escritor nĂŁo sobe a um palco.
Desce ao abismo.
Ali onde a consciĂȘncia se fragmenta.
Ali onde as perguntas nĂŁo tĂȘm resposta imediata.
Ali onde o ser confronta sua prĂłpria nudez.
Escrever Ă© expor-se sem plateia.
Ă enfrentar a si mesmo
antes de enfrentar o mundo.
Cada frase Ă© um ato de responsabilidade.
Cada parĂĄgrafo Ă© escolha moral.
"Depois que eu partir."
A frase nĂŁo Ă© melancolia.
Ă exame de consciĂȘncia.
Que restarĂĄ de mim quando o corpo cessar.
Que ideia permanecerĂĄ.
Que inquietação continuarå a arder.
A tinta seca.
O papel envelhece.
Mas o pensamento, se verdadeiro,
migra para outras mentes.
O escritor nĂŁo busca aplauso.
Busca coerĂȘncia interior.
Busca traduzir o indizĂvel
e dar forma ao que inquieta o espĂrito humano desde sempre.
Escrever Ă© organizar o caos.
Ă impor estrutura Ă angĂșstia.
Ă transformar dor em conceito.
Ă converter amor em reflexĂŁo.
NĂŁo se trata de ornamentar a realidade.
Trata-se de iluminĂĄ-la.
Mesmo quando essa luz revela fissuras.
HĂĄ coragem em quem escreve com lucidez.
Porque escrever com lucidez
Ă© admitir a prĂłpria finitude
e ainda assim escolher deixar vestĂgio.
O texto Ă© mais que linguagem.
à presença prolongada.
Ă consciĂȘncia que atravessa o tempo
e dialoga com quem ainda nĂŁo nasceu.
Eu sou o que escrevo.
Sou a soma das ideias que sustento.
Sou a responsabilidade de cada palavra que lanço ao mundo.
O corpo findarĂĄ.
O silĂȘncio retornarĂĄ.
Mas aquilo que foi pensado com verdade
continuarĂĄ a provocar,
a inquietar,
a despertar.
Porque a escrita nĂŁo Ă© som que se dispersa.
Ă pensamento que se fixa.
Ă chama intelectual que passa de mente em mente
e se recusa a apagar-se.
E no confronto inevitĂĄvel com o tempo,
descobrimos que viver
Ă© redigir a prĂłpria consciĂȘncia
com a dignidade de quem sabe
que cada linha escrita
Ă© uma escolha eterna diante da prĂłpria alma.
HINO DA LUZ SERENA.
" Luz que desce mansa sobre o coração.
Clareia o passo. Acalma a aflição.
No silĂȘncio antigo do ser interior.
Renasce a esperança. Cessa o temor."
âLuz que ensina sem nunca ferir.
Mostra o caminho de servir e seguir.
Une as vozes num mesmo sentir.
Faz do amor a razĂŁo de existir.â
âLuz fiel que nĂŁo passa e nem some.
Guarda a alma. Sustém o nome.
Mesmo na noite mais densa e cruel.
Permanece viva. Justa. E fiel. ao infeliz que a abandone. "
â Vem luz, vem e nos conduza em paz.
Hoje e sempre. Como outrora e jamais.
Pois Ă© quando o espĂrito aprende a confiar.
Ă a luz que permanece e ensina a caminhar.â
DA GĂNESE INVISĂVEL DO VERSO.
Antes do primeiro poeta, jĂĄ havia silĂȘncio.
E o silĂȘncio nĂŁo era vazio. Era potĂȘncia.
A palavra nĂŁo começou na boca humana. Ela começou na necessidade metafĂsica de significar o mundo. Quando o primeiro ser consciente contemplou o cĂ©u e sentiu a vertigem do infinito, ali germinou o germe do poema. O verso nasce no assombro. Nasce da insuficiĂȘncia da prosa diante do mistĂ©rio.
A linguagem ordinĂĄria organiza. A linguagem poĂ©tica revela. Por isso o poema nĂŁo Ă© invenção arbitrĂĄria, mas emergĂȘncia. Ele irrompe quando a realidade excede os limites do discurso comum. Surge quando o espĂrito percebe que hĂĄ algo que nĂŁo pode ser dito diretamente, mas apenas insinuado.
A tradição sempre intuiu que o poeta nĂŁo cria do nada. Ele participa de uma corrente anterior. Na Antiguidade, falava-se em inspiração. NĂŁo como superstição, mas como reconhecimento de que a consciĂȘncia individual Ă© atravessada por conteĂșdos que a ultrapassam. O poeta Ă© mĂ©dium da memĂłria cultural. Ă intĂ©rprete de uma herança invisĂvel.
O Ăștero simbĂłlico de onde procedem os poemas Ă© a prĂłpria histĂłria do espĂrito humano. Cada geração deposita ali seus temores, seus ĂȘxtases, suas quedas e suas redençÔes. O escritor que nasce em determinado sĂ©culo nĂŁo começa em branco. Ele herda mitos, ritmos, arquĂ©tipos, formas. Ao escrever, ele reorganiza esse patrimĂŽnio.
Sob a perspectiva psicolĂłgica, o verso Ă© condensação de experiĂȘncias arcaicas. Sob a perspectiva metafĂsica, Ă© atualização de princĂpios permanentes. A imagem do Ăștero mantĂ©m-se rigorosa. HĂĄ concepção, hĂĄ gestação, hĂĄ parto. O poema exige maturação interior. O precipitado Ă© apenas discurso ornamentado. O verdadeiro verso Ă© aquele que atravessou a noite da consciĂȘncia.
A continuidade entre escritores nĂŁo Ă© mera influĂȘncia externa. Ă consonĂąncia estrutural. Quando dois poetas separados por sĂ©culos expressam angĂșstias semelhantes, nĂŁo Ă© coincidĂȘncia. Ă a condição humana reiterando-se sob novas circunstĂąncias histĂłricas. O estro Ă© continuidade do humano diante do enigma.
NĂŁo hĂĄ criação autĂȘntica sem humildade diante da tradição. A ruptura que ignora o passado empobrece-se. A inovação legĂtima Ă© transformação, nĂŁo negação. O novo que possui densidade Ă© aquele que conhece suas raĂzes. A ĂĄrvore que despreza o solo seca-se.
Assim, o metapoema reconhece sua própria origem e ultrapassa-se pelas entranhas permissivas de quem é leitor e criador . Ele sabe que fala de si mesmo enquanto se produz. Ele assume que sua voz carrega ecos. Não reivindica isolamento. Reconhece-se como elo de uma cadeia que começou antes e continuarå depois.
O ponto final nĂŁo encerra o processo. Ele apenas delimita uma forma provisĂłria. O silĂȘncio que o sucede jĂĄ contĂ©m o germe do prĂłximo verso.
E Ă© nesse ciclo ininterrupto que a poesia se mantĂ©m como testemunho da grandeza e da fragilidade humanas, perpetuando-se como chama que nĂŁo consome apenas papel, mas ilumina consciĂȘncias atravĂ©s dos sĂ©culos.
â Sonhei com peixes. Com esses peixes, a abundĂąncia estĂĄ lĂĄ, mas nĂŁo sei bem o porquĂȘ. O mundo Ă© justo ou estranho? JĂĄ nĂŁo sei o que pensar. A minha mente se perde nos laços que crio, nos pensamentos que emergem sem resposta. SerĂĄ que existe o vazio? Mas nĂŁo Ă© a fome que me atormenta. A noite, linda e escura, me abraça e acalma meu coração. Pois vocĂȘ Ă© como os peixes, um sonho etĂ©reo, assim como o mundo, que jĂĄ nĂŁo sei mais como compreender. SerĂĄ que o que estĂĄ por vir acontecerĂĄ, ou a incerteza serĂĄ nossa companhia? Olho a lua, as estrelas, o cĂ©u negro. E penso que, de alguma forma, estamos compartilhando os mesmos olhos, os mesmos destinos. Pois a mesma lua que vocĂȘ olha, Ă© a mesma que me espera. Espera por vocĂȘ.
sempre fui um roteirista,até que a vida passou a escrever a sua própria história, dai passei a fazer parte do elenco.
I
Caiu do nada.
Do nada surgiu
Aquela luz que emergiu
TĂŁo branca como uma fada.
II
Os olhos contorceram que lhe ver
A mĂŁo esticou-se para poder a ter
Os pĂȘs sumiram em saltos para conter
E a alma abandonou o corpo para suster.
III
Mas nada, nada a impediu
Que ser trajeto fosse traçado,
Cedo ou tarde refletiu
Aquele desejo forçado.
IV
A vontade atou o desespero
Lambuzou com sabor do tempero
Aquele sobejo ĂĄspero
Como a granula do enterro.
V
Mas do outro lado, via torrentes
Com raĂzes de capilares
Com batimento apertado naquela estrada,
Onde a sua marca jamais serĂĄ sarada.
@epereira 06/12/16
Se um dia viermos a separar, lembre-se que, antes de te conhecer estĂĄvamos separados, mas depois te de conhecer passei a te amar e te amarei mesmo se viermos a separar.
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