Homem Palavra
"O homem de espírito nobre converte em experiência todos os acontecimentos; entre essa experiência e sua razão há uma união estreita cujo produto são suas ações. Constrói porque ama e não para ser amado, estima a glória e despreza a ofensa, obedece e manda com o mesmo semblante e pelo mesmo motivo. Sabendo que a razão não é um dote inútil da natureza, faz-se piloto de seu próprio destino. A verdade é seu culto , então contente se aproximar-se dela quer possuí-la . Na sociedade dos homens brilha como um astro cuja claridade lhe dirige os passo com um movimento regular. É o amigo do homem sábio e remédio do vicioso. O tempo marcha não adiante dele, mas com ele, e ele apercebe-se dos anos mais pela força de sua alma que pela debilidade de seu corpo. Por isso, não sente a dor e considera-a como uma amiga que deseja romper seus laços e ajudá-lo a sair da prisão."
O sofrimento surge do apego demasiado que per si faz o homem ser incapaz de aceitar certas verdades implacáveis que permeiam a existência: a dor, a morte, a injustiça, dentre outros aspectos sombrios que inerentemente são parte da vida neste mundo manifesto de causalidade.
Sendo assim, a contemplação racional do desapego e a percepção da unidade que subjaz a estas supostas dualidades – vida e morte, prazer e dor, júbilo e sofrimento – é ponto primordial à ascese e à libertação da escravidão telúrica, que gesta terríveis grilhões que acorrentam o homem ao que é por essência das realidades inferiores e escravizadoras.
Desta forma, e com o cultivo da verdadeira ascese, emerge um novo tipo de ato – desprendido de todas as formas e anseios materiais, puro e altivo em si só – e aqueles que encontram tal núcleo espiritual e que passam a alicerçar sua vida única e exclusivamente nas coisas desta realidade – do espírito – tornam-se os heróis de estirpe olimpiana, como o guerreiro heroico que peleja totalmente liberto, em plena consciência de que a derrota é eminente – sabedor de que muito dificilmente encontrará a vitória. Ainda assim luta, brada e sangra.
"Eu sou nos fortes a força desprovida de desejo e de paixão."
Estão todos presentes à mesa
mas só um sabe que o gesto não se repetirá.
É um homem que veio de longe
cumprindo o delírio febril dos profetas;
a antiga promessa de uma chegada
escrita na memória branca das pedras.
Em silêncio enche doze taças
e dá a beber o sangue da sua herança;
o sangue de um sacrifício ainda por cumprir,
enquanto contempla a felicidade breve
nos rostos que, à direita e à esquerda, o cercam.
Uma estranha visão lhe incendeia o olhar.
Um momento de sombra que o atravessa,
como o pastor debruçado sobre o seu rebanho
ao pressentir a aproximação da tempestade,
fixando ternamente o lugar onde se senta
a ovelha que irá atrair a demência dos lobos.
Um manto branco ressalva a luz que o cobre.
É um rei, mas nada reclama para si,
basta-lhe o saber que é escutado, e que
alguém sobrará para lhe perpetuar o nome.
Ocupa agora o centro da mesa. De pé
com os braços estendidos para a frente
lentamente reparte o pão
como quem vira a última página de um livro
que não poderá voltar a ser fechado.
Para um homem se dispor a empreender uma obra que ultrapassa a medida das absolutas necessidades, sem que a época saiba uma resposta satisfatória à pergunta “Para quê?”, é indispensável ou um isolamento moral e uma independência, como raras vezes encontram e têm um quê heroico, ou então uma vitalidade muito robusta.
Sou reflexo do que o homem desfaz; pinto e escrevo a memória do que resta, traços de uma criação consumida pela própria destruição.
É quando o homem se sente sozinho que se aguça o paradoxo do universo limitado da existência e da vastidão infinda dos pensamentos.
O homem vive uma incessante luta para romper limites. Seu maior desafio, difícil de enxergar, é ultrapassar as fronteiras de seu egoísmo.
A "verdade", quando formulada pelo homem e dirigida à outro homem, é sempre relativa; a única verdade intrínseca é a dirigida de Deus para o homem.
O homem é capaz de expressar significantemente suas maiores frivolidades, e tímido em demonstrar as sensibilidades, por menor que sejam.
O ciclo de vida do homem por vezes se assemelha à trajetória de um fruto: acha que já amadureceu o bastante, até cair em sua própria soberba, até então apodrecer em seus caminhos vis, e, com a ação de Deus e do tempo, volta a ser semente novamente, e ter a esperança que pode não apenas voltar a ser o que era, mas também gerar frutos.
Um homem nem sempre julga o outro simplesmente pelo mal que este cometeu, mas talvez porque tenha o vil e inconsciente desejo de se sentir melhor e mais digno do que ele.
O homem tem a ilusão de achar tudo em sua vida tão perfeitamente normal que se torna quase sempre incapaz de romper por si só a inércia da mudança.
O melhor conceito de um homem sobre Deus e seus atos não passa de uma divagação lógica oriunda de seu universo finito.
