Hoje a Felicidade Bate em minha Porta
Era melhor ter vestido os papéis que me ensinaram, mesmo que arranhassem minha pele. Melhor ter me aninhado na bolha protetora, na zona de conforto de um mundo redondo e raso, especialista em anestesiar dores e inflar egos da turma dos privilegiados.
São Paulo, minha vida. Despertar ao som do trânsito, o cheiro de café e pão fresco na padaria da esquina. O cinza dos prédios cortado pelo verde teimoso de uma praça. A correria da Avenida Paulista, sonhos pulsando em cada olhar. Noites iluminadas, o samba na viela, o livro no metrô. A solidão na multidão e a descoberta de um sorriso familiar no ônibus lotado. Chuva de verano alagando lembranças. É cansaço e eterno movimento. Minha história escrita no asfalto, nos muros, no céu que teimo em enxergar. São Paulo, não te troco por nada.
Minha alma tem a textura de uma casa abandonada, onde o vento sopra entre as frestas de memórias que eu deveria ter enterrado.
Minhas cicatrizes criaram relevos na minha alma, elas limitam meu alcance, mas definem a singularidade da minha jornada.
Não busco salvadores, busco testemunhas. Alguém que valide minha travessia sem tentar consertar o que é, inerentemente, humano.
Minha trajetória não é estética, é ética. Há uma beleza ferida na honestidade de assumir que nem tudo está bem.
Não confunda minha resistência com força. A força busca a vitória, a resistência só quer sobreviver a mais uma noite.
De que serve a minha poesia
se a sua boca não me diz,
se o silêncio faz sangria
no que eu quiz fazer feliz
de que serve o verso escrito
com o peso da intenção
se o meu grito mais bonito
não alcança o seu perdão .
pois a rima se esvazia
e o papel vira desterro
de que serve minha poesia
se seu beijo é o meu erro.
De que serve a minha poesia
se a sua boca não me dá
o destino , atravessia,
o destino de eu estar
guardo versos na lapela
metáforas ao relento
mais a rima mais singela
morre aondabor do vento
pois , se o lábio não confirma
o que a alma já escreveu
toda estrofes se desmancha
entre o seu mundo e o meu .
Minha confiança em Deus é o que faz do meu cansaço, repouso, e de cada queda o ensaio de um novo salto.
O desejo de morrer foi minha única preocupação; renunciei a tudo por ele, até à morte.
O segredo de minha adaptação à vida? Mudei de desespero como quem muda de camisa.
Minha avidez de agonias me fez morrer tantas vezes que me parece indecente abusar ainda de um cadáver do qual já não posso extrair nada.
Cada um com sua loucura: a minha foi julgar-me normal, perigosamente normal. E como me parecia que os outros estavam loucos, acabei ficando com medo, medo deles e, o que é pior, medo de mim mesmo.
Suportaria eu um só dia sem esta caridade de minha loucura que, diariamente, me promete o Juízo Final para o dia seguinte?
