Ha mil Razoes para Nao Amar uma Pessoa
A saudade é uma moeda que não se desvaloriza. Troco por lembranças, por músicas, por fotos. Com ela compro consolo quando falta companhia. Às vezes a moeda pesa, mas é firme e confiável. E guardo ainda mais quando o cofre do peito treme.
Existe uma exaustão que o sono não cura, ela reside onde os remédios não alcançam e onde só a ponta da caneta consegue tocar.
Não sou um objeto quebrado, sou uma obra em reforma perpétua, tentando alinhar as peças enquanto o chão ainda treme.
Sigo. Não por coragem heróica, mas por uma teimosia visceral que me impede de aceitar o ponto final antes da hora.
A esperança é uma visita inesperada, ela senta em silêncio, não promete nada, mas sua presença torna o ar menos pesado.
Atravessando o rio gélido de um destino não tão bonito, em uma velha jangada, anunciando sua trajetória lenta, pesada, tocando um sino enferrujado, com seu som abafado, como se estivesse submerso, sendo afogado, feita de almas atormentadas, cheias de dor, pelo fundo pedregoso, margens lamassentas e ao horizonte, não existem margens, o rio não se finda e o céu, baixo e cinzento, curva-se como um teto prestes a ruir, comprimindo o ar nos pulmões já cansados, a corrente não conduz, apenas arrasta, e cada braçada é um adeus ao que ficou para trás, enquanto a jangada range, como se soubesse que não há porto, não há farol, não há terra firme, apenas o curso interminável dessa água fria que não acolhe, não absolve, não esquece. E assim sigo, não por esperança, mas por não haver retorno, deixando que o sino continue seu lamento mudo, até que o próprio som se dissolva na névoa, e eu me torne parte do rio que jamais termina.
A música de Sergei Rachmaninoff não é apenas ouvida, é sofrida em cada terminação nervosa, uma arquitetura de dor e glória onde os concertos para piano se erguem como catedrais de um romantismo tardio e visceral. Há uma beleza quase insuportável na forma como suas notas fortes golpeiam o silêncio, não por violência, mas por uma necessidade urgente de existir, enquanto as mãos gigantescas do mestre costuram harmonias complexas que parecem traduzir o peso de uma Rússia eterna e nostálgica. É um mergulho em águas profundas e gélidas, onde a melancolia se transfigura em virtuosismo, revelando que, por trás de cada acorde denso e cada fraseado melódico que se arrasta como um suspiro de despedida, habita a alma de um homem que transformou o próprio exílio interno em uma das linguagens mais sublimes e devastadoras que o mundo já ousou escutar.
Viver nesse estado não é uma escolha estética, é a única forma de habitar um corpo que já não reconhece o sol como uma promessa.
A poesia não salva ninguém do abismo, mas ela nos dá uma lanterna para que possamos descrever os monstros enquanto caímos. É a arte de cair com elegância, transformando o impacto inevitável em uma estrofe que o mundo lembrará quando não estivermos mais aqui.
O tempo não cura, ele apenas anestesia a ferida até que ela se torne uma cicatriz rígida, que dói sempre que o tempo muda ou que a alma esfria. Não acredite em quem diz que o tempo resolve tudo, o tempo apenas acumula poeira sobre o que não tivemos coragem de limpar.
A solidão é o preço que se paga por ter uma alma que não aceita imitações e que prefere o isolamento à companhia de quem só sabe falar do que é superficial. É um custo alto, mas a vista do deserto é muito mais honesta do que a da cidade iluminada por luzes artificiais.
Frases por vezes complexas, paradoxalmente intrigantes, frutos de uma mente em flagelo que já não distingue o real da fantasia melancólica. É o eco de uma alma cansada que, por vezes jogada ao pedregal, entrega-se aos abutres e corvos necrófagos, onde cada bicar das aves retira um pedaço do que outrora foi esperança. Ali, entre o pó e a pena, a mente finalmente cessa a luta contra o delírio, aceitando que a beleza, ainda que fúnebre e dolorosa, reside na coragem de desintegrar-se diante do próprio destino.
- Tiago Scheimann
Existir não é um presente é uma condição, e talvez o erro esteja em esperar conforto disso, porque a consciência não foi feita para ser leve, ela foi feita para perceber,
e perceber quase sempre dói.
A dor não chegou de uma vez, ela foi construída, em camadas tão sutis que quase passaram despercebidas, até que um dia percebi que já não era mais o mesmo, mas também não era alguém completamente perdido.
Eu não sou forte, eu sou persistente, e existe uma diferença tênue entre os dois, porque a força se esgota, mas a persistência se arrasta, e, mesmo aos pedaços, eu continuo.
A melancolia não deve ser vista como uma sombra que nos persegue, mas como a penumbra necessária para que as luzes da alma brilhem. Sem o contraste do escuro, a claridade da nossa própria resiliência se tornaria cega e sem profundidade alguma para o olhar atento. É no tom menor da existência que as lições mais cruas e honestas são sussurradas ao ouvido de quem tem coragem de ouvir. Aceite a sua tristeza como uma mestra rigorosa que te prepara para os grandes palcos da vida eterna.
- Tiago Scheimann
A verdadeira rebeldia não consiste em amaldiçoar o destino sob o peso de uma cruz inevitável, mas em carregar o próprio fardo com uma elegância que insulta a gravidade do sofrimento. É no meio do inverno mais rigoroso da alma que devemos cultivar um sol interno, cujos raios não dependem de estações externas para aquecer a vontade de continuar a caminhada.
- Tiago Scheimann
Não buscamos a salvação nas estrelas, mas a honra de sermos os únicos arquitetos de uma ordem que desafia o caos absoluto da matéria bruta.
- Tiago Scheimann
O passado é uma terra de sombras que não possui autoridade para ditar o ritmo do nosso passo presente, a menos que permitamos que o ressentimento se torne a nossa bússola. A libertação real ocorre no momento em que olhamos para as nossas feridas não como erros do destino, mas como o mapa geográfico de uma vitória que ainda está sendo escrita. Seja o estrangeiro de sua própria dor, observando-a com o distanciamento de quem sabe que o ator é muito maior do que a tragédia que ele encena.
- Tiago Scheimann
A dor me ensinou a falar uma língua que não se aprende em livros, uma língua feita de silêncio, de lágrimas contidas e de gritos que nunca encontraram eco e ainda assim, eu me tornei fluente nela.
