Ha como eu Queria q ela Soubesse

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A chuva hoje tocou a janela como quem pede licença para entrar. Dentro de mim há móveis que rangem com lembranças. As palavras saem mansamente, como se pedissem perdão. Às vezes penso que sou feito de corredores vazios. E nesses corredores ecoam os passos que um dia me ensinaram a voltar.

Há noites em que a cidade me parece um sopro cansado. Luzes que piscam como olhos que fingem não ver. Caminho entre rostos apressados e penso no que perdi. Perder também é aprender a medir o valor do que resta. E quando volto, minha casa me recebe com ternura de objeto amado.

Há um lugar onde guardo meus silêncios mais puros. É como um armário de madeira que não range. Quando tenho medo, entro ali e fecho a porta. O barulho do mundo fica distante como um inverno. E eu, reclinado, ouço uma paz que não pede provas.

Há uma beleza discreta nas despedidas sem motivo. Elas são como portais que não explicam viagem. Saímos de algo e carregamos somente um pedaço. Esse pedaço nos protege do vento intenso. E com ele seguimos, aprendendo a ser pequeno e inteiro.

Há amizades que chegam como salva-vidas improvisado. Não seguram a embarcação, mas dão tempo. Com elas aprendi a pedir socorro sem vergonha. O orgulho, às vezes, é coisa que afunda. E, por sorte, há mãos que nos puxam de volta.

Há dias em que a existência se manifesta como dor física, cada respiração é um lembrete de que ainda estou na arena.

Há dias em que a única coisa que me mantém de pé é a curiosidade de saber como será a próxima frase que a minha dor vai ditar para a minha mão. Sou o primeiro leitor da minha própria tragédia, assistindo ao espetáculo com a fascinação de quem não sabe o final.

Há uma tristeza que é hereditária, que vem no sangue como uma herança maldita de antepassados que também não souberam o que fazer com a própria vida. Eu tento quebrar essa corrente usando a poesia como um alicate, cortando os elos de amargura que tentam me prender ao passado.

Há dias em que caminho como quem atravessa um inverno sem fim. Dentro de mim, tudo parece frio, pesado, quase irreconhecível. Cada passo é menos coragem do que insistência em não cair. E sigo, não porque a dor diminuiu,
mas porque me recuso a deixar que ela escreva o fim da minha história.

Há noites em que sinto a alma caminhar por corredores invisíveis dentro de mim, como se Deus permitisse que certas dores permanecessem apenas para que eu jamais esquecesse a profundidade daquilo que sobrevivi.

Há em mim uma melancolia antiga, quase litúrgica, como se minha alma carregasse memórias de tempestades que minha própria consciência já não consegue nomear.

Há lembranças que não envelhecem, permanecem intactas dentro da alma, como feridas preservadas pelo próprio tempo.

Há dias em que minha consciência pesa como uma oração antiga esquecida entre ruínas espirituais.

Há pensamentos que não cabem em palavras. Permanecem vivendo dentro de nós como universos inteiros condenados ao silêncio.

Há uma solidão fértil, como terra depois da chuva, que não me isola: me prepara.

Há orações que não saem da boca; nascem no peito como lampejos de água para uma sede antiga.

Há um momento em que o coração deixa de esperar milagres, ainda assim, continua batendo como quem se recusa a abandonar o impossível.

Hoje é meu aniversário.
Mais um ano de vida se completa, e não há como deixar de agradecer. Sou profundamente grata a Deus pela oportunidade de estar aqui, de aprender e crescer, mesmo nos dias mais desafiadores. Sou grata pelas pessoas que lembraram, que celebraram minha existência, seja com palavras, gestos ou apenas um pensamento carinhoso. Embora a gratidão me preencha, reconheço que hoje meu coração está mais silencioso, um pouco mais introspectivo. Talvez seja o cansaço dos dias corridos, talvez seja apenas um daqueles momentos em que a alma pede pausa, para respirar e refletir. Ainda assim, escolho enxergar as bênçãos que me cercam: o amor de quem está ao meu lado, os vínculos que permanecem fortes mesmo à distância, e a chance de recomeçar a cada novo dia. Neste aniversário, desejo a mim mesma mais leveza e coragem para abraçar o que vem pela frente, com fé, esperança e o entendimento de que, mesmo em meio aos dias mais difíceis, a vida é um presente precioso.

21/11/24

Ainda hoje é preciso que pessoas negras se assumam como negras. Não há o que inventar: dentre os que se julgam brancos, pardo é preto.

"Há encontros que não mudam o destino, mas mudam a forma como enxergamos a vida."