Amanda Liz: Porto Alegre Eu queria muito que você...

Porto Alegre

Eu queria muito que você falasse tudo, tudo o que aconteceu nesses últimos longos meses em que nos mantivemos afastados. Que você falasse da raiva que sentiu de mim, se sentiu, da barra que enfrentou, se sentiu minha falta ou não, dos problemas que não quis me contar, mas que agora quem sabe fosse uma boa hora, eu também te contaria todas as coisas que eu queria te contar todo esse tempo. No dia 31 de dezembro vão fazer 5 meses que eu vi o seu rosto pela ultima vez naquela Rodoviária de Porto Alegre. Eu ainda lembro sempre como se fosse um ritual. Lembro, sorrio, sofro e rezo. Sorrio quando lembro de nós, das nossas conversas, de como eu te explicava o " ser amigo". Lembra, eu costumava dizer que éramos amigos com beneficios. E você nem se tocava de como eu te olhava apaixonada. Eu dizia que éramos amigos só pra manter a leveza. Eu não queria te perder. E eu tinha muito ciúme de você e acho que isso que te levou pra longe e acho também que tem muitas outras coisas que te levaram pra longe,das quais eu precisava saber. E eu não sei dessas pequenas grandes coisas que foram minando nós dois. Eu lembro que o meu maior medo era não conseguir com que o nosso amor fosse o maior e o melhor da sua vida. Tinha medo dos fantasmas do passado e da mania que as pessoas tem de achar que o amor passado foi tão grande que o amor presente é tão pequenino e frágil e frágil. Eu tinha medo. Eu fico pensando se você pensa nessas coisas como eu penso. Se você olha as coisas e lembra de nós, como eu. Porque eu olho as coisas e vejo você e vejo nós em muitas coisas. Eu tenho que ir pra Porto Alegre em seguida, nesse mês de dezembro e eu sei que vai ser um amontoado de pequenas lembranças, uma bagagem que eu vou carregar pra cada canto que eu for. Sinto falta da perdição involuntária que era congelar na sua presença e de como era bom o teu perfume, a voz, o riso e de como você rodava pela cidade e lembro sempre de que como eu e você ficávamos indecisos a onde ir, mas no fundo a gente sabia onde queiramos ir. Era a vida se mostrando mais poderosa do que as nossas vidas, era eu e você felizes, ali, simplesmente, um com a companhia do outro e aquilo bastava, era a vida acontecendo, eu sentia tanta vida em nós. Era a natureza me provando ser mais óbvia do que todas as minhas crenças. Eu não mandava no que sentia por você, eu não aceitava, não queria e, ainda assim, era inundada diariamente por uma vida trezentas vezes maior que a minha. Eu te amava por causa da vida e não por minha causa. E isso era lindo. Você era lindo. Nós dois éramos lindo. E eu estou falando no passado, mas ainda é presente em mim.
Simplesmente isso. Você, a pessoa que eu ainda vejo passando na rua, me pegando pela mão e me levando embora, responsável por todas as minhas manhãs sem esperança, noites sem sono, sinto falta de quando a imensa distância física ainda me deixava te ver do outro lado da rua, passando apressado com seus ombros perfeitos. Hoje me pergunto o que é maior a distancia física ou essa que se instalou entre nós. Sinto falta de lembrar que você me via tanto, que preferia fazer que não via nada. Sinto falta da sua tristeza, disfarçada em arrogância, da facilidade que você tinha em simplesmente ir embora, colocar as coisas no porta malas do carro e ir, e de como eu ficava ansiosa e feliz porque de alguma forma eu sabia do seu retorno, eu esperava. E você, eu acho que de alguma forma sabia que tinha as armas suficientes para me reter. Ou não. Ou pensava que sabia. Então, agora eu digo que as armas suficientes para me reter era somente a sua presença, só isso. Sem sobrenome, cargo, carro e todas essas coisas que a gente sempre acaba achando que são iscas soltas ao redor. Era o sorriso, o cheiro de chiclete, o seu jeito organizado. Eu sinto falta até daquele seu jeito de querer que as coisas fossem do seu jeito e como você implicava com o horário. Prometi não tentar entender e apenas sentir. E o que permanece é essa abstinência de pessoas, eu vejo você em outros rostos mas isso não me faz querer outros rostos, porque quando eu vejo seu rosto por aí, eu olho, olho e então eu vejo que são só meus olhos. Mas não fui eu que escolhi que aquele fosse o último abraço, quando eu disse que queria você longe, na verdade eu queria que você dissesse que não ia a lugar algum, que seguraria a minha mão. Mas agora é outra que se perde em ombros tão largos, e se não tem em seguida terá, nada mais natural que outra esteja no lugar vazio que deixei ao seu lado, tomara que ela não se perca tanto ao ponto de um dia não enxergar o quanto esse teu abraço é o lado bom da vida. E eu acho que ninguém gosta desses filmes com finais felizes, onde tudo termina bem e continua bem e fica tudo bem. Acho que as pessoas gostam dessas histórias onde as pessoas sofrem e se perdem no final. Como aconteceu com nós. Eu queria muito acreditar que ainda houvesse um outro final, ou melhor, que não existisse um final. É que depois de tanto tempo eu começo acreditar que essas lembranças são só minhas. Estou escrevendo porque eu não quero que se perca nada, de tudo que passei nesses últimos tempos. Estou escrevendo porque eu ainda tenho fé de que alguém leia e me deseje fé, força. Eu queria muito que você me visse de verdade, sem a rotulação dos outros, sem a opinião alheia que gosta de pintar as pessoas generalizando. Queria que você me visse de verdade e você veria que tudo que digo é verdade. Me ocorreu agora, não é nas ruas, nem nos bares que você vai me ver, eu continuo em casa, eu continuo. Pensei nisso agora porque as vezes penso que posso te encontrar por aí, quando saio pra correr, quando vou aos bancos, na padaria, na fila do supermercado (risos). Mas lembro que não é aqui que seus passos vão pra lá e pra cá, é nas calçadas de lá.(mais risos). Eu acho que apesar de tudo esse amor me fez mais humilde, porque agora eu aceito até sua partida. Aceito porque eu sei que não seria fácil segurar minha mão. Que o mundo exige muito. Mas se por algum acaso você voltasse eu não cobraria nada, nem questionaria nada. Agora são 2h da manhã e eu vou dormir, as palavras já estão ficando perdidas. Eu sinto falta do barulho que o nosso amor fazia.

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Inserida por amandaliz