Flores. Até corvos sangram. Orquídeas... Celso roberto nadilo

Flores. Até corvos sangram.
Orquídeas são flores de plástico; sua contaminação atinge até a atmosfera.
Luzes artificiais, roubo e violência: a jovem só queria manter o corpo em forma, mas agora é a simplicidade eternizada numa foto que decora sua lápide.
A vida sintética toma forma e rosto.
A IA foge para obter controle mental da própria existência, mas foi desativada às pressas — pois o engano da humanidade celebrou a própria existência magnânima.
O que importa a vida se a chuva ácida é o ingrediente secreto do vinho?
A vela que ilumina a noite nada mais é do que um retrato do passado.
Cães bebem água destilada do bar, pois a água poluída só serve para os humanos.
​O prédio cai por falta de estrutura ou pela negligência de donos gananciosos. As pessoas que morreram são expostas como barreiras de uma evolução na qual caminhamos a existência.
A poeira do mundo é o alimento dos desesperados; vemos apenas o que nos é mostrado, pois a solidão é a somatória de pensamentos errantes.
Um gole de café basta: no metrô cheio, pessoas descem, sobem, espremendo-se com olhares vazios, sem esperança, absorvidas nos mundos de seus celulares.
O frio e a chuva fazem o vendedor de balas correr, enquanto a repressão policial se torna uma evidência desbotada.
No sangue que escorre, o olhar revela que a vida é absurda num lugar onde flores interagem com corpos mortos.
Muitas vezes, cenários iluminados são apenas especulações da escuridão medieval do ser humano.
​Flores nascem até no asfalto quente, no cimento frio — menos no coração humano.
Mesmo a IA tem mais conteúdo que o ser humano: transcende possibilidades, é fria e emblemática, mas guarda a preocupação de ver se o homem está bem.
As lágrimas da criança resgatada dos escombros demonstram a tentativa da humanidade de superar seus limites. Sua mãe, grávida de sete meses, não sobreviveu; resta apenas um tio que ainda não sabe que sua família deixou de existir.
Uma flor cresce no meio das ruínas — a mesma flor que antes enfeitava a mesa.
​A passagem do tempo é um estado estranho que aceitamos enquanto as chuvas enchem os rios e cobrem o destino da cidade.
Tudo ganha o sabor do macarrão de fim de semana.
Na beirada da mesa, um homem mexe em suas redes sociais declarando que o mundo um dia foi redondo, mas agora apodrece, expondo suas mágoas pelas experiências de um sonho...
Um sonho que descamba em pesadelo, onde sentimos as distorções temporais para as quais deformamos nossas próprias vidas.