Longe (a dor de quem perdeu um filho)... Jorge Pincoruja

Longe (a dor de quem perdeu um filho)


Longe de ti, somos esferas frias
Foguetes de artificio sem romarias
Fontes que secaram de tanto chorar
Longe de ti, o mundo cismou e parou de girar
Levaram-se em ombros as sombras e as dores
As desilusões que eram tantas acabaram
E longe de ti,pereceram mirradas as flores
E até as próprias árvores, tristemente já secaram.


Longe de ti, as estrelas despencaram do céu
E nas noites negras nem a lua deu sinal
Todo o encanto que contigo havia, arrefeceu
E longe de ti nada tem valor afinal
Longe de ti, porque perto não podes estar
Ficaram na memória dias de sol ameno
E longe,tão longe ainda irás ficar
Até ao dia do teu regresso pleno
Longe de ti, no mais profundo universo
Na distancia que o ser já não sabe alcançar
Na sincope partida de qualquer verso
Que de tão longe de ti nunca soube como rimar.
Longe de ti, mas perto do olhar
Onde o espanto cresceu e se fez homem
Jazem por terra as latitudes desse lugar
Onde os olhos famintos nunca comem.