Setembro (crônica) "Olho pela... Marcelo Hypolito Botelho
Setembro (crônica)
"Olho pela janela e vejo passar mais alguns dias simples. Há uma paz morna no ar, um acalento que só pertence às coisas que consigo enxergar quando o coração está grato e o espírito finalmente descansou. Por dentro, os sonhos ainda pulsam com a mesma força de antes, mas o caminhar agora é solitário. Não sigo triste, tampouco abatido; sinto apenas uma perplexidade silenciosa, um estado pensativo de quem assistiu ao tempo correr rápido demais. Muitos anos se foram.
É engraçado como a mente viaja. Hoje é setembro, mas as minhas lembranças insistem em voltar para janeiro. Penso naquele céu em festa, no frescor da noite e nos corpos a descansar sobre a areia, celebrando uma ilusão de eternidade em luzes. Hoje tudo é diferente. O cenário mudou, as pessoas mudaram, e eu acabei ficando exatamente onde estava - no lugar de onde, talvez, nunca devesse ter saído.
Nessa jornada, a vida me ensinou do jeito mais duro que as pessoas esquecem. Descobri que há quem nos fira com precisão, mesmo sendo capazes de distribuir sorrisos largos e fáceis para estranhos e desconhecidos numa viela qualquer. A hipocrisia dos afetos rasos já não me surpreende.
Agora, o horizonte me oferece mais algumas luas, mais algumas noites e mais alguns céus. Não há estrelas em festa desta vez, ou corpos com olhares voltados as luzes multicoloridas, o firmamento está quieto. Mesmo assim, encontro motivos para comemorar algo que pouquíssimos se permitirão vivenciar ao longo de suas passagens por este mundo: uma liberdade verdadeira. Uma independência da alma que nada nem ninguém pode roubar, quebrada apenas, de vez em quando, pelas memórias barulhentas do fim de dezembro e do início de janeiro. Mas o inverno já se foi. O silêncio me acolhe, e o setembro também há de passar quieto e bonito."
Marcelo HB
