É VEROSÍMIL O LIXO Autor: Góis Del... Góis Del Valle
É VEROSÍMIL O LIXO
Autor: Góis Del Valle
É verossímil o lixo
quando repousa onde o deixaram,
sem pedir licença,
sem explicar de onde veio.
Há lixo que chega limpo,
quase intacto,
com aparência de coisa nova.
Mas basta o tempo
para revelar o que guarda.
É verossímil o lixo
que escolhe a sombra dos cantos,
que se acumula longe dos olhos,
onde ninguém costuma procurar.
Há restos que mudam de lugar,
empurrados para debaixo,
para trás,
para dentro de alguma fresta.
Para debaixo do tapete.
Não desaparecem.
Apenas deixam de ser vistos.
O lixo também conhece o momento
de permanecer quieto.
Aprende onde não incomoda,
quando não exala,
quando não chama atenção.
Mas a chuva espalha.
O vento revela.
A maré devolve.
E aquilo que parecia distante
volta para a superfície.
É verossímil o lixo
quando ninguém está olhando.
É ali que ele ocupa espaço,
ali que se acumula,
ali que deixa sua verdadeira marca.
No fim,
não importa o valor da embalagem,
nem o lugar onde foi encontrado ou vendido.
Todo lixo revela,
cedo ou tarde,
aquilo que realmente é.
