DICOTOMIA Autor: Marco Arawak Há uma... Marco A Moreira Cardoso...

DICOTOMIA



Autor: Marco Arawak


Há uma fronteira quase invisível entre aquilo que desejamos e aquilo que somos capazes de suportar. É ali que o amor começa a nos dividir.


De longe, parece simples. Gostar, querer, aproximar-se, sentir falta. Uma pequena gramática de presenças e ausências. Mas basta atravessar a superfície para descobrir que, por baixo do gesto mais banal, existe quase sempre uma pergunta que não sabemos responder.


Queremos companhia, mas também espaço. Queremos atenção, mas tememos a vigilância. Pedimos sinceridade e, quando ela chega sem delicadeza, desejamos que certas verdades permanecessem intocadas.


Queremos ser procurados, mas nem sempre queremos ser encontrados.


É assim que o contraditório se instala, primeiro nas pequenas coisas, depois em tudo.


Dizemos que queremos alguém que nos conheça profundamente, mas tememos ser conhecidos por inteiro. Desejamos transparência, embora preservemos dentro de nós regiões que nem sequer sabemos explicar. Procuramos segurança e, quando a encontramos, às vezes sentimos falta daquilo que nos fazia tremer.


O raso não é o oposto do profundo. É apenas aquilo que ainda não foi atravessado.


Por trás de um simples “fica” pode existir o medo de ser deixado. Por trás de um “preciso de espaço”, a necessidade de não desaparecer dentro de alguém. Por trás de um silêncio pode haver indiferença, medo, cansaço ou uma verdade que ainda não encontrou linguagem.


O amor promete encontro, mas devolve cada um à própria solidão.


Quanto mais nos aproximamos, mais percebemos a distância que permanece. Ninguém atravessa inteiramente o território de ninguém. Há sempre uma região inviolável, um lugar onde continuamos estrangeiros até para aqueles que mais amamos.


E talvez seja justamente isso que nos assuste.


Queremos ser compreendidos sem sermos completamente decifrados. Queremos pertencer sem deixar de existir por conta própria. Procuramos no outro uma morada, embora saibamos que nenhuma morada pode substituir aquilo que somos.


Queremos permanência, mas somos feitos de mudança.


Queremos certezas, mas muitas vezes é o imprevisível que nos desperta.


Queremos liberdade dentro do vínculo e vínculo dentro da liberdade.


Queremos que o outro permaneça, mas não queremos permanecer os mesmos.


E talvez nenhuma dessas contradições seja um erro.


Talvez sejam apenas sinais de que amar não é possuir uma resposta, mas sustentar perguntas que não cabem numa resposta.


Entregar-se é uma forma estranha de coragem. Não porque elimine o medo, mas porque decide não obedecer inteiramente a ele.


A razão calcula o risco.


O desejo ignora a conta.


E, entre os dois, existimos nós.


A razão não é inimiga do sentimento. É a consciência do preço. Sabe que toda entrega modifica quem entrega, que todo vínculo abre possibilidades de perda e que aquilo que nos transforma também pode nos desorganizar.


Ainda assim, avançamos.


Às vezes queremos alguém que nos liberte da solidão, mas tememos torná-lo indispensável. Queremos intensidade, mas recuamos diante do excesso. Pedimos profundidade e, quando ela finalmente nos alcança, descobrimos que ser visto é também perder alguns esconderijos.


Na superfície, queremos o abraço.


No fundo, queremos ser reconhecidos.


Na superfície, queremos companhia.


No fundo, queremos que alguém compreenda a nossa solidão sem tentar ocupá-la.


Na superfície, queremos alguém que fique.


No fundo, queremos continuar sendo nós mesmos enquanto esse alguém permanece.


É nessa passagem do raso ao profundo que a dicotomia deixa de ser contradição e se revela condição.


Não está entre o amor e o medo.


Está no próprio amor.


Porque amamos justamente aquilo que pode nos atingir. Abrimos a porta sabendo que o mesmo gesto que permite a entrada também torna possível a ferida.


Queremos o outro porque somos incompletos, mas precisamos permanecer inteiros para que o encontro não se transforme em desaparecimento.


Vivemos entre forças que não se anulam: permanecer e partir, aproximar-se e preservar-se, entregar-se e guardar-se, ser dois sem deixar de ser um.


Essa é a verdadeira dicotomia.


Não escolher entre extremos, mas descobrir que ambos podem ser verdadeiros ao mesmo tempo.


Toda escolha carrega aquilo que recusamos. Toda aproximação conserva alguma distância. Toda entrega guarda, em algum lugar, a possibilidade da retirada.


Talvez amadurecer seja abandonar a necessidade de resolver aquilo que a própria existência insiste em manter aberto.


Há conflitos que não pedem solução.


Pedem consciência.


O amor talvez seja isso: não abolir a distância, mas aprender a habitá-la. Não esperar que o outro nos complete, mas reconhecer que ninguém nos completa e, ainda assim, escolher compartilhar a incompletude.


Dois seres inteiros aproximando-se sem a pretensão de se tornarem um.


Duas solidões que se reconhecem.


Não para se possuir.


Não para se salvar.


Mas para testemunhar, ainda que por um instante, aquilo que existe de mais inacessível em cada um.


Porque intimidade não é atravessar completamente o outro.


É chegar suficientemente perto sem destruir o mistério.


Amar é permanecer diante desse mistério sem exigir que ele deixe de ser mistério.


É querer ficar e saber partir.


É entregar-se sem desaparecer.


É pertencer sem possuir.


É aproximar-se sem destruir a distância que torna possível o encontro.


Talvez essa seja a única eternidade possível entre seres finitos: não vencer o tempo, não impedir a perda, não garantir o amanhã, mas fazer com que duas existências se reconheçam profundamente sem jamais poderem possuir-se por inteiro.


E talvez seja aí que o amor deixe de ser promessa e se torne verdade.


Quando já não precisamos vencer a dicotomia para permanecer.


Quando compreendemos que a contradição não é a falha do amor.


É a sua forma mais humana de existir.


Porque somos assim também: rasos naquilo que dizemos, profundos naquilo que calamos; contraditórios no que desejamos, lúcidos apenas depois de sentir.


No fim, talvez amar não seja encontrar uma resposta.


Talvez seja ter coragem de permanecer inteiro diante da pergunta: Será?