"Dormir tarde sonhando em não ter... Sabrina Heinzen de Mattos

"Dormir tarde sonhando em não ter hora para acordar; acordar todas as noites sem saber quando vai conseguir dormir de novo. E, se der sorte, acordar só uma vez. Paciência testada e cansaço exacerbado, dia sim e outro também.
As refeições? Interrompidas. As festas? Perdidas. A vida a dois? Com hora marcada e se der.
Sem tempo ou energia para amigos, cursos, viagens ou qualquer plano que não envolvesse um bebê. De repente, meu mundo inteiro cabia dentro de uma criaturinha que dependia de mim para absolutamente tudo.
Antes de sermos mães, somos especialistas. Educamos os filhos dos outros com facilidade, criticamos, temos respostas para tudo. Até o dia em que o nosso nasce.
Olheiras profundas, dores nas costas e um cansaço que altera o corpo, a mente e o coração. Havia dias em que eu mal reconhecia a mulher diante do espelho. A barriga parecia ainda grávida, mas o bebê já corria pela casa. Galinha Pintadinha ocupava o lugar de Raul Seixas. O banho tinha plateia. Os objetos de decoração passaram a morar acima de um metro de altura.
Foi só depois de algumas vivências que percebi o que ninguém tinha me contado. A maternidade não seria apenas cansativa. O que ninguém avisa é que, no dia em que um filho chega, a mulher que somos precisa dar lugar à mulher que precisamos ser.
Quando saí do hospital com você nos braços, eu não fazia ideia de como seria a vida dali em diante. A única certeza era que tudo havia mudado. Você precisava aprender a viver fora do ventre. Eu precisava aprender a ser mãe.
Fomos descobrindo juntas, aos tropeços, com noites mal dormidas, medo, lágrimas e uma quantidade de amor que eu jamais imaginei ser capaz de sentir. Até então, eu acreditava conhecer o amor, mas existe um amor que só se revela quando um filho chega.
Durante um tempo, deixei muitas partes de mim em silêncio para ouvir apenas você: seus choros, suas necessidades, seus pequenos sinais. Minha vida passou a seguir o ritmo da sua.
Enquanto você crescia, eu também amadurecia. Você aprendia a reconhecer minha voz; eu aprendia a reconhecer uma força descomunal dentro de mim.
Nem sempre acertei. Houve dias em que o cansaço falou mais alto. Em outros, protegi demais. E não raro me perguntei se estava fazendo o suficiente. Nunca fui a mãe perfeita, mas isso deixou de importar quando entendi que você também não precisava de perfeição. Precisava de alguém que estivesse ali, aprendendo todos os dias, errando, pedindo desculpas quando fosse preciso e recomeçando no dia seguinte.
As revistas venderam uma maternidade impecável, com bebês limpos, casas organizadas e mães sorrindo o tempo inteiro. Na vida real, a casa fica bagunçada. A mãe chora escondido no banheiro e, quando menos se espera, nem escondido. Isso não faz de mim uma mãe pior, nem menos grata, nem menos feliz. Faz de mim uma mãe de verdade.
Você nasceu em um único dia, num estalo que mudou todo o meu mundo.
Mas eu não.
Eu continuo nascendo mãe todos os dias: nas manhãs calmas, nas tempestades da travessia, nas renúncias em silêncio e no orgulho de ver você criar as próprias asas.
Não sou mais a mulher de antes e nem pretendo voltar a ser.
Descobri que a maternidade não me anulou: ela apenas trouxe uma versão minha com um brilho que nunca mais vai se apagar."
(S.H.M.)