Consequências Gritarei. Gritarei porque... Dominique Dias Santos

Consequências




Gritarei.
Gritarei porque o silêncio pesa
mais do que a dor.


Porque há coisas que não deveriam
ser vistas em silêncio,
nem esquecidas com o passar dos dias.


Carrego a raiva dos rios envenenados,
a dor das espécies que desaparecem em silêncio,
a vergonha de uma humanidade
que se esqueceu de ser parte
e escolheu ser dona.


Sou consequência do descaso,
da destruição disfarçada de progresso,
do concreto engolindo o verde
enquanto a humanidade se acredita divina.


Minha existência é dor.
Dor que aprendi a silenciar
até agora.


Cansei de andar leve
para não incomodar.
De apagar minha luz
para não ferir os olhos dos conformados.


Eu sou a sombra dos animais
mortos sem motivo.
Sou o grito das árvores caídas.
Sou o sopro da Terra
sufocada sob a ganância.


E mesmo assim...


Eu respiro.


Eu resisto.


E essa resistência
já é revolução.


Porque minha dor não será mais invisível.
Minha raiva não será calada.


Já tentei enterrar aquilo que sinto,
mas algumas coisas criam raízes
mesmo no escuro.


Então deixo sangrar.


Que minha dor seja ponte.
Que minha raiva seja raiz.


Não posso devolver aos rios
o que lhes foi roubado.
Não posso devolver aos animais
a vida que lhes arrancaram.
Não posso apagar o fogo
depois que ele consome tudo.


Mas posso me recusar
a fingir que não vi.


Posso transformar o silêncio
em palavra.


A palavra em grito.


E o grito em memória.


Talvez eu seja pequena.
Talvez seja passageira.
Talvez um dia ninguém se lembre
do meu nome.


Mas eu estive aqui.


Eu vi.


Eu senti.


Eu não permaneci em silêncio.


Minha existência pode ser breve,
mas não precisa ser vazia.


Porque toda escolha deixa marcas.
Toda presença altera alguma coisa.
Toda vida, por menor que seja,
toca o mundo antes de partir.


E se não posso mudar
tudo aquilo que já aconteceu,


não farei nada
para deixar que aconteça em silêncio.


Gritarei.


Não porque acredito
que minha voz possa salvar o mundo.


Mas porque me recuso
a ser mais uma testemunha
que viu a destruição
e escolheu calar.


Minha raiva não será minha prisão.


Será minha voz.


E aquilo que fizer com ela
será a minha consequência.