O QUE ALLAN KARDEC PRETENDE DEMONSTRAR... Marcelo Caetano Monteiro
O QUE ALLAN KARDEC PRETENDE DEMONSTRAR NA REVISTA ESPÍRITA DE DEZEMBRO DE 1866?
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
O artigo publicado por Allan Kardec na Revista Espírita de dezembro de 1866, reunindo manifestações da imprensa francesa não espírita, está longe de ser uma simples compilação de notícias ou opiniões dispersas. Trata-se de uma construção argumentativa cuidadosamente elaborada, na qual Kardec procura demonstrar um fenômeno histórico e filosófico: as ideias fundamentais do Espiritismo já penetravam a sociedade, mesmo quando muitos de seus defensores rejeitavam o próprio nome da Doutrina.
Seu objetivo não era provar apenas a existência de simpatizantes declarados, mas evidenciar que determinados princípios espíritas como:
A existência de Deus, a sobrevivência da alma, a individualidade após a morte, a continuidade da vida espiritual e o progresso moral do ser humano, começavam a surgir naturalmente no pensamento filosófico, literário e científico do século XIX.
Kardec inicia seu raciocínio com uma afirmação que resume toda a tese:
“Por mais que digam e façam, as ideias espíritas estão no ar; vêm à luz de qualquer maneira, na forma de romances ou de pensamentos filosóficos, e a imprensa as acolhe desde que não seja pronunciado o nome Espiritismo.”
A expressão “as ideias espíritas estão no ar” revela uma compreensão sociológica da propagação das ideias. Para Kardec, uma doutrina não se consolida apenas pelo número de seus adeptos formais, mas pela capacidade de transformar gradualmente o pensamento coletivo.
Ele utiliza, inclusive, a conhecida referência de Molière: assim como o personagem Sr. Jourdain, em O Burguês Fidalgo, fazia prosa sem saber, muitos pensadores do seu tempo defendiam conceitos essencialmente espíritas sem reconhecer essa ligação.
A FILOSOFIA ESPÍRITA PENETRA PELA PORTA DAS IDEIAS.
Kardec apresenta aquilo que podemos chamar de a porta filosófica do Espiritismo. Segundo sua análise, muitos intelectuais já haviam ultrapassado o materialismo absoluto e admitiam uma realidade espiritual, embora sem aceitar as manifestações mediúnicas.
Entre os exemplos citados está Charles Duveyrier, apresentado pelo jornal Le Temps em 14 de novembro de 1866. O pensador afirmava que o homem não desapareceria após a morte, mas continuaria participando da marcha progressiva da Humanidade.
Kardec observa que Duveyrier já aceitava elementos essenciais da filosofia espírita: a existência da alma, sua sobrevivência e sua participação no processo evolutivo. Faltava-lhe apenas conhecer a explicação espírita completa.
Outro exemplo é Louis Jourdan, que, escrevendo ao filho desencarnado Prosper, declara sentir sua presença em uma vida superior. Para Kardec, essa manifestação revela uma convicção íntima da sobrevivência espiritual e aproxima-se ainda mais dos princípios espíritas, pois demonstra a aceitação da continuidade da vida após a morte.
Também cita George Sand, especialmente por suas reflexões apresentadas em Mademoiselle de la Quintinie. A escritora rejeitava a ideia de penas eternas e defendia que o ser humano poderia reparar seus erros em novas experiências existenciais.
Para Kardec, esses pensamentos demonstravam que a sociedade intelectual caminhava espontaneamente para concepções compatíveis com o Espiritismo.
OS FATOS:
A PORTA QUE A CIÊNCIA NÃO PODIA IGNORAR.
Além da propagação das ideias, Kardec apresenta outro elemento fundamental: os fatos espirituais que desafiavam as explicações tradicionais.
Ele escreve:
“Por outro lado, como é anunciado, uma porção de fenômenos se produzem, que parecem afastar-se das leis comuns e atordoam a Ciência, na qual em vão buscam a sua explicação.”
Kardec argumenta que os fenômenos mediúnicos não deveriam ser rejeitados pelo simples fato de parecerem extraordinários. Para ele, a história da ciência demonstrava que muitos grandes conhecimentos nasceram justamente da investigação de fenômenos inicialmente considerados estranhos.
Ele recorda o caso de Glück, compositor do século XVIII, cuja suposta previsão envolvendo Maria Antonieta foi divulgada pela imprensa. Kardec observa que críticos do Espiritismo admitiam possibilidades como a “segunda vista” ou a previsão de acontecimentos, mas recusavam aceitar a explicação espiritual oferecida pela Doutrina.
A mesma lógica aplica às mesas girantes. Respondendo ao escritor Ponson du Terrail, que ironizava os fenômenos, Kardec demonstra que um fato aparentemente simples pode conduzir a grandes descobertas:
“Há a mesma relação que existe entre o vosso corpo, quando valsa, e o vosso espírito, que o faz valsar; entre a rã que dançava no prato de Galvani e o telégrafo transatlântico; entre a maçã que cai e a lei da gravitação que rege o mundo.”
Seu argumento é metodológico: o valor científico de um fenômeno não está em sua aparência inicial, mas naquilo que pode revelar quando investigado com seriedade.
A DIFERENÇA ENTRE O ESPIRITUALISMO FILOSÓFICO E O ESPIRITISMO EXPERIMENTAL.
O ponto central do artigo está na afirmação de que muitos homens já haviam alcançado uma parte da verdade espiritual, mas permaneciam sem a comprovação experimental.
Kardec afirma:
“O que diz a mais o Espiritismo? Que essas mesmas almas revelam sua presença por uma ação direta, e que estamos incessantemente em comunicação com elas.”
Para ele, a mediunidade representa a passagem da hipótese para a experiência. O Espiritismo não seria apenas uma filosofia consoladora sobre a sobrevivência da alma, mas uma doutrina que procurava investigar essa sobrevivência através dos fenômenos.
Assim, na visão kardequiana, o espiritualismo filosófico respondia à pergunta: “a alma existe?”
O Espiritismo acrescentava outra questão: “a alma pode manifestar-se e demonstrar sua continuidade de existência?”
A CONSEQUÊNCIA MORAL:
O ESPIRITISMO COMO TRANSFORMAÇÃO DO HOMEM.
Kardec encerra o artigo com o caso do Sr. Pagès, divulgado pelo jornal L'Écho d'Oran em 24 de abril de 1866.
Impedido de receber sepultamento religioso por ser espírita, Pagès relata a transformação íntima que a Doutrina produziu nele:
“O Espiritismo fez de mim um outro homem.”
Esse testemunho possui grande importância para Kardec, pois demonstra que a validade de uma ideia também pode ser observada pelos seus frutos morais.
A Doutrina não seria apenas uma investigação sobre o mundo invisível, mas uma filosofia capaz de desenvolver no ser humano sentimentos de fraternidade, responsabilidade e solidariedade.
CONCLUSÃO.
No artigo da Revista Espírita de dezembro de 1866, Allan Kardec procura demonstrar que o Espiritismo não era um fenômeno passageiro, mas uma corrente de pensamento que avançava por diferentes caminhos.
Pela via filosófica, aproximava-se dos grandes pensadores que reconheciam uma realidade espiritual.
Pela via dos fatos, apresentava fenômenos que exigiam investigação.
Pela via moral, demonstrava sua capacidade de transformar indivíduos.
Sua tese fundamental era que o Espiritismo não dependia apenas do reconhecimento de um nome, porque suas ideias já estavam presentes no pensamento humano. Para Kardec, a Doutrina avançava porque encontrava apoio simultaneamente na razão, na experiência e na transformação moral do indivíduo.
O artigo de dezembro de 1866 é, portanto, uma defesa da tese de que o Espiritismo representava não apenas uma crença, mas uma etapa no desenvolvimento histórico do pensamento humano.
Fonte:
KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, dezembro de 1866. Paris: Administração da Revista Espírita.
Obs. Abaixo na foto ilustrativa:
Allan Kardec e George Sand.
