No Tempo de Deus Dentre todos os... Edison Carlos de Sá
No Tempo de Deus
Dentre todos os caminhos que percorri,
desde as primeiras descobertas,
entre as imprudências, os erros necessários
e as escolhas que um dia julguei certas,
aprendi que as maiores lições
não moram nos grandes acontecimentos,
mas no silencioso exercício dos dias.
Foi na rotina, no dia após dia,
nas batalhas que ninguém viu,
nos desafios que pareciam maiores que minhas forças,
nas coisas inacreditáveis
que a vida, sem pedir licença,
nos obriga a atravessar,
que encontrei as mais profundas verdades.
Aprendi na esperança,
mas também na expectativa que decepciona.
Aprendi que o mesmo coração
que sonha com o amanhã
também precisa aprender
a sobreviver às frustrações de hoje.
Aprendi no remédio amargo,
no tropeço inesperado,
na lágrima escondida,
e, sobretudo, na coragem
de levantar depois da queda
e chamar de recomeço
aquilo que um dia pareceu ser o fim.
E mesmo depois de tantas lições,
a vida ainda me surpreende.
Ainda há o arrependimento,
aquela antiga pergunta que retorna:
“E se eu tivesse escolhido diferente?”
Mas talvez sejamos, tantas vezes,
os próprios autores de nossas dores.
Culpados por nossas escolhas,
por aquilo que decidimos enxergar
quando a intuição, em silêncio,
já havia nos pedido para partir.
Ignoramos os sinais
porque preferimos acreditar
naquilo que construímos dentro de nós:
um castelo delicado de cartas,
erguido com sonhos, expectativas
e ilusões que chamamos de certezas.
E então o tempo nos ensina.
Ensina que sonhos não se tornam realidade
apenas porque os desejamos,
mas porque aprendemos a caminhar em direção a eles.
Que é preciso agir, persistir,
cair algumas vezes,
recomeçar tantas outras
e aceitar que, quase sempre,
o destino tem maneiras diferentes
de entregar aquilo que pedimos.
Porque aquilo que queremos para ontem
talvez ainda não pudesse florescer hoje.
Há coisas que precisam de preparo.
De raízes profundas.
De tempo.
De cuidado.
Há sonhos que Deus demora a entregar
não porque tenha esquecido de nós,
mas porque conhece o peso daquilo
que ainda não estamos preparados para carregar.
E talvez seja essa a mais difícil das lições:
confiar.
Confiar quando não compreendemos.
Esperar quando temos pressa.
Continuar quando não enxergamos o caminho.
Entregar quando tudo em nós
quer controlar o destino.
Pois há uma escrita que não pertence às nossas mãos.
É no tempo de Deus.
Na forma de Deus.
No cuidado de Deus.
E aquilo que hoje parece demora,
amanhã talvez revele que era proteção.
Aquilo que parece perda
talvez estivesse apenas abrindo espaço
para algo que jamais conseguiríamos imaginar.
A mim, então, cabe continuar.
Continuar caminhando,
mesmo sem conhecer a estrada inteira.
Continuar acreditando,
mesmo quando a esperança vacila.
Continuar fazendo a minha parte,
enquanto Deus, em silêncio,
cuida daquilo que meus olhos ainda não podem ver.
Porque aprendi, enfim,
que nem tudo precisa acontecer
quando eu quero.
Algumas coisas precisam acontecer
quando eu estiver pronto.
E outras,
somente quando Deus disser:
“Agora.”
