DOGMA E DOGMATIZAR SOB O PRISMA... Marcelo Caetano Monteiro

DOGMA E DOGMATIZAR SOB O PRISMA ESPÍRITA. Autor: Marcelo Caetano Monteiro. No vocabulário espírita, é necessário distinguir dogma de dogmatizar. O primeiro pode... Frase de Marcelo Caetano Monteiro.

DOGMA E DOGMATIZAR SOB O PRISMA ESPÍRITA.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
No vocabulário espírita, é necessário distinguir dogma de dogmatizar. O primeiro pode designar um princípio doutrinário estabelecido; o segundo implica transformar uma afirmação em verdade incontestável, protegida contra o exame da razão e da experiência.
Sob o prisma de Allan Kardec, essa diferença é essencial. Kardec não propõe uma fé fundada na obediência intelectual. O Espiritismo, em seu método, procura observar os fatos, confrontar os ensinamentos, raciocinar sobre suas consequências e submeter as conclusões ao crivo da razão. Por isso, aceitar um princípio espírita não deveria significar abandonar a faculdade crítica.
Dogmatizar, portanto, seria contrariar o próprio espírito do método kardeciano quando se transforma uma interpretação pessoal em verdade absoluta, quando se impede a discussão ou quando se utiliza a autoridade de Kardec para encerrar uma questão que ainda requer estudo.
A lucidez espírita está justamente nessa atitude: ter convicção sem transformar convicção em imposição; respeitar a Doutrina sem convertê-la em instrumento de dogmatismo; crer, mas saber por que se crê.
Kardec resume essa postura ao afirmar que o Espiritismo “não reclama uma fé cega”, mas deseja que o homem saiba por que acredita (O Livro dos Espíritos, Conclusão, VII).
Assim, o problema não está simplesmente na palavra dogma, mas na postura intelectual que pode acompanhá-la. Um princípio pode ser estudado; dogmatizar é impedir que seja examinado. E, para Kardec, a verdade não precisa temer a investigação racional.
DOGMA E ESPIRITISMO: ENTRE A CRENÇA E A RAZÃO.
A palavra dogma procede do grego dógma (δόγμα), ligado a dokeîn, “julgar”, “considerar”, “opinar”. Em sua origem, portanto, não significava necessariamente uma imposição religiosa, mas uma opinião ou princípio estabelecido. Com o tempo, adquiriu o sentido de uma verdade apresentada como definitiva e que não admite contestação.
É justamente nesse ponto que a posição de Allan Kardec exige precisão. Seria incorreto afirmar simplesmente que Kardec jamais empregou a palavra “dogma” em relação ao Espiritismo. Ele a emprega, inclusive, ao tratar da reencarnação, que aparece em O Livro dos Espíritos como “dogma da reencarnação” e “dogma da pluralidade das existências corporais”. O termo, porém, não deve ser interpretado automaticamente no sentido moderno de uma crença imposta sem exame.
O método de Kardec é outro: observar, comparar, raciocinar e submeter as conclusões à experiência. Na Conclusão de O Livro dos Espíritos, ele afirma que a força do Espiritismo está em sua filosofia e no apelo à razão e ao bom-senso, acrescentando que a Doutrina não reclama fé cega, mas quer que o homem saiba por que crê.
Essa afirmação é fundamental. O Espiritismo, na concepção kardeciana, não pretende substituir um dogmatismo religioso por outro dogmatismo de natureza espírita. Ao contrário, apresenta princípios decorrentes do estudo dos fenômenos e de suas consequências filosóficas e morais. Kardec reconhece, inclusive, que no começo de uma ciência podem surgir opiniões contraditórias e que a experiência é necessária para distinguir o erro da verdade.
Há, portanto, uma distinção importante: um princípio doutrinário não se torna dogmático simplesmente porque é fundamental. Dogmatismo seria transformar uma conclusão em autoridade absoluta, impedindo sua análise racional. A atitude kardeciana é substancialmente diferente: investigar, confrontar, observar e raciocinar.
Por isso, a fidelidade a Kardec exige cautela tanto para quem afirma “o Espiritismo possui dogmas” quanto para quem declara, sem qualquer nuance, “Kardec nunca utilizou a palavra dogma”. Ele utilizou o vocábulo; o que precisa ser compreendido é o sentido em que o empregou e, sobretudo, o método pelo qual os princípios espíritas são examinados.
O ponto central permanece extraordinariamente atual: no Espiritismo de Kardec, crer não significa abdicar da razão. A convicção deve ser acompanhada pela compreensão, e a compreensão permanece aberta ao aprofundamento proporcionado pelo estudo e pela experiência.
Fontes:
Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Introdução e Conclusão, especialmente itens VI, VII e IX.
Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, questão 222, sobre a pluralidade das existências.
Allan Kardec, Revista Espírita, para o exame do emprego do termo “dogma” no contexto doutrinário.