Prólogo dos Reversos Nunca estive tão... Felipe ARodrigues
Prólogo dos Reversos
Nunca estive tão esgotado;
nunca estive tão vivo — prova e faca ao mesmo tempo.
Lembro-as com precisão cirúrgica:
esplêndidas e cautelosas mulheres,
cada uma com mapa próprio — Montevideo, Asunción,
Puerto Iguazú como fronteira de beijos,
Santa Cruz de la Sierra como verão que não pede perdão.
Elas passaram penduradas no meu varal — Frida me ensinou a expor as entranhas —
roupas secas de lembrança, camisetas com riso e manchas de café.
Vilariño me deu o corte: já não, já não, já não —
mas Benedetti sussurra que se amei, foi porque me ensinei a ser inteiro.
Sabines me pegou pela gola da camisa e mostrou a carne: amar dói e é urgente.
Bandeira transformou a cinza em hora: o passado esquece devagar, como fumaça.
Zóio Trocado me observa no espelho da noite,
me lembra que cada passo é disputa entre memória e invenção,
entre o peso da saudade e a leveza de me reinventar.
As mulheres que tive foram mapas e profissão,
ensinadoras de limites e surpresa, cautela que era luxo, esplendor que era armadilha.
Eu as trago no bolso, mas não as confundo com trocado:
não pago minha dignidade por nenhuma lembrança.
Joguei a eco bag fora, e o tabaco fedorento,
estranho conforto, me consola no impasse de saber
que ela ainda me rodeia,
como sombra insistente que não pode me prender,
porque eu quebrei aquilo, eu quebrei.
Se eu entrar num banco pra pagar minha conta
e disser que ainda gosto dela,
a minha conta não vai ser paga.
Palavras de saudade não têm agência;
saudade não compõe boletos nem resgata faturas.
Há dias em que a cidade me devolve como troco:
um sorriso, um aviso, a carteira vazia de certezas.
E ainda assim ando alto, mais alto que o medo —
porque ser exausto e ser vivo é a mesma matéria prima.
Fecho o capuz da noite sobre as fotografias:
não quero mais colecionar dor como quem junta selo.
Quero a precisão do bisturi: separar o que cura do que ocupa.
Que o passado vire mapa e não presídio.
Proclamo, então, este adeus sem teatralidade:
não te escolho para morrer comigo, nem te esqueço por vaidade.
Te guardo como se guarda uma faca afiada —
À mão, pronta para abrir o caminho.
E se o mundo insiste em medir tudo em cifras,
eu ofereço isto: a minha boca lembrando nomes,
a minha rotina pagando as contas,
meu corpo reclamando feridas,
minha lucidez calculando o próximo gesto.
Que o prólogo seja o último vestido pendurado no varal;
que a cinza das horas ilumine o início.
Que eu saia inteiro das paisagens — Montevideo, Asunción, Puerto Iguazú, Santa Cruz —
com o rosto gasto e a coragem renovada.
Porque nunca estive tão esgotado;
porque nunca estive tão vivo.
E isso, por enquanto, basta.
