A Misteriosa Mulher Hispano-Libanesa Ela... Felipe ARodrigues
A Misteriosa Mulher Hispano-Libanesa
Ela tinha olhos de fronteira,
fala baixa, fumaça ligeira.
Entrava nos lugares sem pedir licença,
misturando perigo com elegância densa.
Perfume amadeirado,
silêncio calculado.
Daquelas mulheres
que fazem o caos parecer organizado.
Metade Beirute, metade Tijuana,
fria de dia, de noite insana.
Andava como quem sabe demais,
como quem já viu impérios caindo em jornais.
Ria pouco.
Observava muito.
E quando falava espanhol
parecia oração e delito.
Usava ouro discreto no dedo,
vestido escuro, cigarro aceso.
Tinha algo de santa cansada
e contrabandista sofisticada.
Os homens olhavam demais.
Ela nunca devolvia igual.
Porque certas mulheres aprendem cedo
que mistério também é poder emocional.
Ela carregava um ar melancólico e fino,
vinho barato, hotéis, cassino.
Parecia saída de algum bolero antigo
onde todo amor termina em perigo.
Não prometia futuro.
Nem paz.
Só aquela sensação estranha
de querer ficar
mesmo sabendo
que ela sempre vai embora antes.
E talvez fosse isso
o mais bonito nela:
a forma seca, elegante e cruel
com que transformava ausência
em vício silencioso.
