Misture Tabaco com Mate e Fume em Pé A... Felipe Rodrigues
Misture Tabaco com Mate e Fume em Pé
A fumaça subia lenta no vermelho da luz,
Montevideo pulsando pesada nos graves do sul,
copos brilhando dourados no balcão de metal,
e eu sozinho no canto, calmo, quase ritual.
Misture tabaco com mate e fume em pé.
Como quem já viu demais pra perder tempo com fé.
Gente dançando apertada num calor estrangeiro,
perfumes caros, olhares rápidos, desejo passageiro,
mas meus olhos estavam longe, presos na janela,
na garoa escorrendo fria pelos prédios da Ciudad Vieja.
As luzes cortavam fumaça em câmera lenta,
o baixo batendo no peito de forma violenta,
e ainda assim existia silêncio dentro de mim,
um silêncio bonito que não precisava de fim.
Uma uruguaia ria alto perto do corredor,
alguém falava espanhol arrastado sobre amor,
mas eu só observava o mundo girar devagar
com aquela paz estranha de não precisar entrar.
O mate amargo queimando o começo da boca,
o tabaco deixando a madrugada rouca,
e o tempo passando elegante, vulgar,
feito farol refletindo no Rio da Prata depois do bar.
Eu gostava disso:
dos trajetos sem pressa depois da fumaça,
das avenidas molhadas brilhando na praça,
do frio atravessando tecido e postura,
da beleza breve que existe na noite escura.
Misture tabaco com mate e fume em pé.
Ignore o excesso.
Observe tudo.
E permaneça.
