Foi assim: Depois de algum tempo em São... IvoMattos

Foi assim:

Depois de algum tempo em São Paulo, meu irmão conseguiu comprar o primeiro carro da família. Como não podia deixar de ser, era um Fusca 67 azul, muito lindo. Aliás, o mais lindo do mundo.

No dia da compra, nem trabalhamos direito. A ansiedade para pegar o carrinho era enorme. Já era quase noite quando meu irmão finalmente chegou com o dito cujo.

Tudo certo. Arrumamos nossas malinhas no porta-malas. Naquela época, tínhamos mais felicidade do que coisas para carregar.

Pegamos três amigos e... estrada.

Assim que escureceu, surgiu o primeiro problema: cadê a luz dos faróis? Havia apenas uma claridade fraquinha. Nada, porém, que um eletricista de beira de estrada não resolvesse. Instalamos um par de faróis "Tremendão", moda da época, que consumiu boa parte das economias reservadas para a viagem.

Problema resolvido, seguimos viagem. Só alegria.

Depois de rodarmos mais uns 250 quilômetros, próximo a Avaré, apareceu outro pequeno contratempo: um pneu furado.

Coisa simples. Bastava trocar o pneu e seguir viagem.

Abre o capô, tira as malinhas. E eram tantas que cobriam o estepe.

Quando finalmente pegamos o estepe, veio a surpresa:

— Vixe! Está vazio!

Na pressa da viagem, ninguém tinha verificado as condições do referido pneu.

Era madrugada. Frio. Mês de junho. E lá fomos eu e um amigo pedir carona para encontrar um borracheiro sabe-se lá onde.

Depois de alguns minutos, parou um caminhão-cegonha. Sem muitas explicações, o motorista mandou que subíssemos na carroceria.

Se parado já estava frio, com o caminhão em movimento a situação piorou muito.

Rodamos uns dois quilômetros até que ele parou e nos chamou para a cabine aquecida.

Logo encontramos um posto com borracharia e restaurante. Enquanto o pneu era consertado, aproveitamos para tomar um café.

O motorista, como todo caminhoneiro, conhecia praticamente todos os outros caminhoneiros da estrada. Não demorou para encontrar um colega que seguia no sentido contrário ao dele.

Ficou fácil.

O outro motorista nos deixou perto do Fusca e ainda manteve os faróis do caminhão acesos para facilitar a troca do pneu.

Quando terminou, enchemos o homem de agradecimentos e... estrada novamente.

Como todos morávamos em Santa Mariana, a distribuição dos três amigos foi rápida.

Sempre que voltávamos para casa saindo de São Paulo, avisávamos nossa mãe.

Que castigo!

Ela passava a noite inteira nos esperando.

Mas fazer o quê?

Mãe é mãe.

Dormimos algumas horas, tomamos café de bule e partimos para a missão mais importante: mostrar o Fusca para a cidade.

Afinal, ele era objeto de desejo de muita gente. Naqueles tempos, ter um carro era privilégio para poucos.

O coitado do Fusca ainda estalava por todos os lados, consequência da longa viagem.

Azar o dele.

Tínhamos compromissos mais importantes.

Meu irmão ao volante e eu de carona, fomos direto para a cidade.

Paramos em frente ao Cine Plaza e ficamos ali, do lado de fora, exibindo nosso troféu com o mesmo sorriso de uma criança que acaba de ganhar um presente.

Não demorou muito e apareceu um conhecido (nome omitido por ordem judicial).

Para os nossos padrões da época, ele era milionário.

Nem nos cumprimentou.

Ficou olhando para o Fusca e disparou:

— Ué... a firma onde você trabalha deixa você viajar com o carro dela?

Tudo bem que o carro ainda não era exatamente da família Mattos. Era da financeira, e ainda faltavam vinte e quatro prestações — justamente as vinte e quatro do financiamento.

Mas ele não precisava ser tão maldoso.

A frase caiu como um balde de água fria.

Tirou um pouco da nossa alegria.

O dia perdeu o brilho.

Perdemos a vontade de passear pela cidade e voltamos para casa.

Para perto da mãe.

E, pensando bem, talvez ali fosse mesmo o melhor lugar para estar.