ENTRE OS MORTOS E OS VIVOS. Marcelo... Marcelo Caetano Monteiro
ENTRE OS MORTOS E OS VIVOS.
Marcelo Caetano Monteiro.
A passagem do Evangelho segundo Lucas (9:59-60) provoca, à primeira vista, certo desconforto no leitor. Eis o diálogo:
“E disse a outro: Segue-me. Mas ele respondeu: Senhor, deixa que primeiro eu vá enterrar meu pai.
Mas Jesus lhe observou: Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos; tu, porém, vai e anuncia o reino de Deus.”
Sob a ótica atual, a resposta do Cristo poderia parecer dura ou até impiedosa. Entretanto, compreender o contexto histórico e antropológico é essencial para captar a profundidade de suas palavras.
O Contexto Antropológico.
Na cultura judaica do século I, cabia ao filho o dever de enterrar os pais, ato visto como obrigação sagrada e sinal de respeito. Mais que isso, havia um costume segundo o qual o filho permanecia junto à família até a morte dos pais, e só então assumia compromissos religiosos ou sociais mais amplos.
Aqui reside um ponto fundamental: o pai do discípulo poderia estar vivo naquele momento. O pedido não significava, necessariamente, sair para um sepultamento imediato, mas adiar o seguimento de Jesus até que a morte ocorresse — o que poderia levar meses, anos ou mesmo décadas. Dessa forma, a desculpa tinha o peso de uma postergação indefinida.
Jesus, conhecendo o costume, rompe com a convenção e convida à decisão sem adiamentos: seguir ao chamado do Espírito não pode ficar condicionado a prazos incertos.
O Sentido Filosófico.
A frase “deixai que os mortos sepultem os seus mortos” é simbólica. Jesus não se refere literalmente aos cadáveres, mas distingue entre os vivos no corpo, mas mortos no espírito — aqueles presos apenas às convenções e ao materialismo — e os verdadeiramente vivos, que atendem ao chamado do Evangelho. A filosofia do Cristo desloca o eixo da vida da rotina social para o despertar da consciência.
A Dimensão Psicológica.
Sob o prisma psicológico, a fala do Mestre representa a superação da procrastinação espiritual. Quantos de nós adiamos decisões íntimas, alegando compromissos exteriores? O discípulo buscava tempo, mas Jesus indica que o verdadeiro tempo é o agora. A vida interior não pode ser adiada sem risco de estagnação.
Joana de Ângelis observa que “as desculpas para a postergação da renovação íntima apenas mantêm o ser no círculo vicioso da dor” (Plenitude, cap. 9). O Cristo, portanto, convida à ruptura com o apego psicológico a hábitos e justificativas.
O Aspecto Moral.
Moralmente, a lição é de despertar. Jesus chama à ação imediata, sem evasivas. O dever filial não é anulado, mas colocado em perspectiva. Como ensina Emmanuel: “Os que permanecem apenas no culto às formas externas da vida estão mortos para a grandeza do espírito. O discípulo fiel, porém, não deve perder tempo em adiamentos.” (Caminho, Verdade e Vida, cap. 89).
A Codificação também sustenta essa interpretação. Em O Livro dos Espíritos, questão 685, Kardec registra que o trabalho e o progresso espiritual devem se sobrepor à ociosidade e à negligência, mostrando que a vida material é meio, não fim.
Conclusão Convidativa.
A lição de Jesus é clara: o Reino de Deus não admite espera. O Mestre não desrespeitou o luto, mas expôs a necessidade urgente de superar a inércia espiritual. O apelo ecoa para nós hoje, em meio às nossas desculpas cotidianas:
“Seguir a Jesus é escolher a vida plena, sem adiamentos. Quem posterga o chamado íntimo permanece entre os mortos; quem aceita o convite do Espírito, já caminha entre os vivos.”
Convidados estamos, pois, a refletir: em qual grupo queremos estar?
