O Paradoxo de Te Esquecer. Eis a... Noele Batista
O Paradoxo de Te Esquecer.
Eis a armadilha:
para expulsar você da memória,
preciso primeiro encontrá-la.
Preciso lembrar do teu rosto
para dizer a mim mesmo
que não quero mais lembrá-lo.
Preciso pronunciar teu nome por dentro
para ordenar ao cérebro
que pare de chamá-lo.
Quanto mais tento apagar você,
mais desenho os teus contornos.
Quanto mais digo
“não vou pensar nela”,
mais o pensamento pergunta:
“nela, quem?”
E então você volta.
Porque esquecer exige lembrar
exatamente aquilo
que se deseja esquecer.
Talvez seja esse o paradoxo:
você já não precisa estar comigo
para continuar presente.
Basta que eu tente te esquecer.
Porque, enquanto eu lutar contra a lembrança,
ela continuará tendo teu nome.
E talvez o verdadeiro esquecimento
não aconteça quando eu finalmente disser:
“Eu te esqueci.”
Talvez aconteça em um dia qualquer,
quando o sol nascer,
a vida seguir,
e eu simplesmente não perceber
que passei o dia inteiro
sem tentar esquecer você.
Porque nesse dia, enfim,
para te esquecer,
eu não precisarei mais
pensar em você.
