*O FILTRO É O PROBLEMA* No primeiro... Paulo H Salah Ad din

*O FILTRO É O PROBLEMA*

No primeiro sábado realmente quente depois do inverno, fui ao parque central da cidade.
Não por esperança. Tenho idade suficiente para desconfiar de qualquer coisa que prometa renovação.
A primavera tinha chegado sem pedir licença. Havia flores demais, folhas novas demais, gente demais tentando recuperar em poucas horas aquilo que o frio havia roubado durante meses.
As crianças ocupavam os espaços com a irresponsabilidade própria de quem ainda não descobriu que a vida cobra juros. Algumas brincavam. Outras apenas estavam ali, largadas ao sol, como se não houvesse nada urgente no mundo.
Os adolescentes circulavam em pequenos grupos. Ensaiavam aproximações. Um olhar demorava mais que o necessário. Uma risada surgia sem motivo. Um deles ajeitava o cabelo antes de passar perto de alguma garota. Pequenas operações de guerra, ainda sem mortos.
Os adultos eram mais complicados.
Alguns caminhavam como se estivessem cumprindo uma obrigação médica. Outros conversavam, sorriam, fotografavam flores, filhos, cães, os próprios pés, qualquer coisa que pudesse provar depois que haviam participado daquele dia.
Havia também os de sempre.
Sentados com a expressão de quem fora condenado a respirar o mesmo ar que os outros.
Reclamavam da quantidade de pessoas.
Do barulho.
Das crianças.
Do calor.
Da primavera.
Esses deveriam ter ficado em casa.
Não porque o mundo lhes devesse silêncio, mas porque certas pessoas carregam uma espécie de quarentena particular. Saem de quatro paredes e levam outras quatro dentro da cabeça.
O curioso é que chamavam aquilo de realidade.
Fiquei observando.
O parque não era bonito.
Também não era feio.
Era apenas um lugar cheio de gente tentando interpretar o que estava diante dos olhos.
E foi aí que percebi o truque.
Talvez o caos nunca tenha sido tão caótico quanto parece.
Talvez o problema esteja no sujeito que olha.
Um homem vê uma multidão e sente ameaça.
Outro vê companhia.
Um enxerga crianças fazendo barulho.
Outro enxerga infância.
Um vê adolescentes desperdiçando tempo.
Outro reconhece, com alguma vergonha, a própria juventude.
A mesma cena. Cabeças diferentes.
E cada cabeça jurando possuir a versão correta.
Passei boa parte da vida fazendo isso.
Escolhendo um ângulo.
Defendendo uma interpretação.
Chamando suas preferências de princípios e suas feridas de experiência.
Depois comecei a perceber que muita coisa que eu chamava de verdade era apenas uma maneira confortável de permanecer sentado dentro da minha própria versão dos acontecimentos.

O sujeito cria uma explicação.
Depois passa a viver dentro dela.
Cria um inimigo.
Depois precisa encontrá-lo todos os dias.
Cria uma identidade.
Depois passa o resto da vida protegendo-a.
Cria uma história sobre si mesmo.
E quando alguém ameaça essa história, reage como se estivessem tentando arrancar-lhe a pele.
Talvez liberdade seja uma coisa bem menos gloriosa do que imaginamos.
Talvez seja simplesmente deixar de acreditar tanto na própria narrativa.
Eu olhei novamente para as pessoas.
As crianças continuavam brincando.
Os jovens continuavam tentando impressionar uns aos outros.
Os adultos continuavam fingindo que sabiam para onde estavam indo.
Os mal-humorados continuavam mal-humorados.
Nada havia mudado.
Só havia mudado o lugar de onde eu estava olhando.
E isso foi desconfortável.
Porque, quando o observador percebe que também faz parte da cena, perde a vantagem de julgar.
Não há mais plateia.
Não há mais personagem principal.
Há apenas alguém olhando.
E esse alguém também está sendo observado pela própria consciência.
Nesse instante, minha história pareceu menos importante.
As coisas que eu havia defendido.
As coisas que eu havia perdido.
As pessoas que eu culpei.
As versões que construí para suportar determinadas noites.
Tudo começou a parecer uma coleção de móveis dentro de uma casa que eu já não precisava habitar.
Foi estranho.
Não houve revelação.
Nenhuma luz desceu do céu.
Nenhuma música começou a tocar.
Apenas uma pequena suspeita.
Talvez eu não seja aquilo que penso sobre mim.
Talvez você também não seja.
Talvez sejamos menos definidos do que passamos a vida tentando parecer.
Fiquei ali por mais alguns minutos.
Sem procurar significado.
Sem tentar consertar o mundo.
Sem transformar o parque em uma lição.
As pessoas continuavam passando.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não precisei decidir o que aquilo significava.
Foi quase nada.
Mas, para quem passou anos carregando explicações, quase nada já é uma forma razoável de liberdade.