O Cinema, a Sorveteria e o Banana... IvoMattos

O Cinema, a Sorveteria e o Banana Split

...e eu nem tive tempo de agradecer. Quem sabe um dia...

Em frente à pracinha havia um cinema: o Cine Rios.

Nos intervalos das “engraxadas” — eu era engraxate, ainda iniciante — ficava na porta do cinema, viajando naqueles painéis de fotografias de “mocinhos e bandidos”.

Eu gostava de ficar olhando para aquelas imagens e imaginando as histórias. Depois, ficava esperando a matinê de domingo, quando, então, aconteciam aquelas batalhas do bem contra o mal.

O mocinho bom sempre vencia.

No fim do filme, vinha a continuação dos seriados intermináveis, que sempre terminavam com algum suspense. Acho que era para a gente voltar no domingo seguinte.

Perto do cinema havia uma sorveteria.

A mais linda do mundo.

Pelo menos era a única que eu conhecia.

Nas paredes, ficavam expostos grandes desenhos dos sabores dos sorvetes. Eu passava um tempo enorme olhando para aqueles painéis e viajando naquelas imagens.

O meu preferido era o banana split.

Eu nem conhecia o sabor.

Gostava da imagem.

O dono da sorveteria classificava os meninos que podiam ou não entrar no recinto. Lógico, pela aparência.

Como eu era um dos que não podiam entrar, o negócio era ficar do lado de fora, olhando pelo vidro e imaginando.

E foi ali, naquela sorveteria, que um dia aconteceu uma coisa que nunca esqueci.

Um homem bom, usando botas e chapéu de boiadeiro, entrou.

Ele mandou que o homem ruim servisse o melhor sorvete — justamente aquele da fotografia que eu tanto admirava: o banana split — para aquele menino que não podia entrar na sorveteria.

E assim foi feito.

Sem relutar.

Talvez aquele homem nunca tenha imaginado o que fez.

Talvez nem tenha percebido.

Mas, naquele dia, alguém abriu uma porta para mim.

Uma porta que, até então, eu só conseguia olhar de fora.

E eu nem tive tempo de agradecer.

Quem sabe um dia...

Do outro lado da pracinha havia um bar que vendia umas balas com figurinhas de jogadores de futebol.

Havia também a promessa de ganhar uma bicicleta, desde que você conseguisse preencher um álbum imenso.

Ganhar aquela bicicleta era quase impossível.

Mas sonho de criança não entende de impossibilidade.

Foi assim que, um dia, aos oito anos, eu comprei o salário inteiro do meu pai em figurinhas.

Eu nem tinha um álbum de figurinhas.

E, claro, também não ganhei a bicicleta.

Mas acho que, naquele dia, eu comprei alguma coisa que não cabia em álbum nenhum.

Comprei um sonho.

E, para um menino de oito anos, talvez isso já fosse uma espécie de riqueza.