Talvez os únicos que realmente... Alessandro Teodoro

Talvez
os únicos que realmente dominam todas as línguas sejam os mudos.
Não porque conheçam cada idioma, mas porque aprenderam aquilo que os falantes frequentemente esquecem: o silêncio também comunica — e, às vezes, comunica com uma precisão que nenhuma palavra alcança.
Há silêncios que acolhem, outros que denunciam.
Há os que pedem desculpas sem pronunciar uma só palavra, e há os que gritam uma revolta inteira sem emitir um único som.
Um olhar pode atravessar fronteiras que um discurso jamais conseguiria cruzar; um gesto pode ser traduzido em qualquer parte do mundo.
Talvez o problema de quem fala demais seja justamente acreditar que linguagem é apenas aquilo que sai da boca.
Confundimos eloquência com volume, inteligência com quantidade de argumentos e verdade com a capacidade de vencer uma discussão.
Os mudos, nesse sentido, talvez sejam os poliglotas mais completos: não precisam dominar palavras estrangeiras para serem compreendidos.
Conhecem a gramática universal do olhar, do gesto, da presença e até da ausência.
Sabem que existem coisas que, quando ditas, diminuem; e outras que, quando caladas, revelam.
No fim, talvez dominar todas as línguas seja descobrir que nenhuma é suficiente.
E que há momentos em que o silêncio não é falta de voz, mas o idioma mais difícil de aprender.
