DUAS Xícaras de café vazias O café... Paulo H Salah Ad din
DUAS Xícaras de café vazias
O café estava cheio, embora ninguém parecesse ter tempo para estar ali. Eu estava sentado numa mesa na calçada, debaixo da cobertura, diante de três xícaras. Duas vazias. Uma ainda pela metade, mas fria. Não sei por que não pedi outra. Talvez porque três cafés já fossem suficientes para aquela manhã. Talvez porque eu estivesse esperando alguma coisa. A essa altura da vida, a gente aprende que quase sempre está esperando alguma coisa sem saber exatamente o quê. Dentro do café, duas televisões estavam ligadas. O proprietário sabia o que estava fazendo. Não havia necessidade de som alto. Bastava a imagem. Um programa qualquer de revista, com pessoas sorrindo e especialistas ensinando como viver. Como comer. Como dormir. Como trabalhar. Como emagrecer. Como envelhecer sem parecer velho. Como ser feliz em cinco passos. Como descobrir seu propósito. Como se reinventar. Como abandonar aquilo que não serve mais. Eu olhava para aquilo e pensava que finalmente tínhamos conseguido transformar a existência humana em manual de instruções. “Seja você mesmo”, dizia uma legenda. Achei engraçado. Passamos a vida inteira sendo treinados para ser outra coisa e depois alguém aparece na televisão mandando a gente ser nós mesmos. Primeiro dizem que você precisa vencer. Depois dizem que precisa produzir. Depois que precisa cuidar da aparência. Depois que precisa viajar. Depois que precisa encontrar alguém. Depois que precisa se encontrar. Parece que até para estar perdido existe um procedimento correto. Na calçada, a vida continuava sem obedecer à televisão. Pessoas caminhavam para seus afazeres. Algumas depressa. Outras devagar. Um homem falava sozinho ao telefone. Uma mulher ria enquanto digitava alguma coisa. Um sujeito caminhava com a cara fechada, como se tivesse acabado de descobrir que segunda-feira não era um acidente. O trânsito avançava lentamente. Dentro dos carros havia pequenas peças da humanidade. Um motorista cantava. Outro parecia discutir com alguém. Uma mulher olhava fixamente para frente. Um homem ria. Um casal estava no mesmo carro, mas não parecia estar no mesmo lugar. Ela gesticulava. Ele respondia. Ambos olhavam para os lados, para a frente, para os semáforos, para os outros carros. Menos um para o outro. Talvez fosse amor moderno. Ou apenas dois desconhecidos pagando prestações juntos. Um carro passou com crianças no banco traseiro. Gritavam, riam, brigavam por alguma coisa que provavelmente seria esquecida antes do próximo semáforo. Olhei para elas e pensei que talvez aquela fosse a última fase realmente honesta da vida. Crianças ainda não aprenderam a fingir que estão bem. Se estão felizes, fazem barulho. Se estão irritadas, fazem mais barulho. Depois crescemos. Aprendemos a sorrir quando queremos mandar alguém para o inferno. Aprendemos a dizer “está tudo bem” quando nada está. Aprendemos a chamar de maturidade aquilo que muitas vezes é apenas desistência. A televisão continuava oferecendo respostas. Na tela, alguém falava sobre mudanças. “Você precisa se transformar.” Outra pessoa explicava que nunca é tarde para recomeçar. Eu olhei para as duas xícaras vazias. É fácil falar em recomeços quando não se precisa carregar aquilo que ficou para trás. As pessoas gostam da ideia de mudança porque ela parece limpa. Só esquecem que mudar também significa perder versões antigas de nós mesmos. Algumas foram embora porque morreram. Outras porque nunca existiram de verdade. Foram apenas personagens que aprendemos a representar para sermos aceitos. Talvez ser dono de si seja justamente parar de representar. Não significa descobrir uma grande verdade escondida dentro da alma. Isso parece coisa de programa de televisão. Talvez seja algo bem menos interessante. Saber do que você gosta. Saber do que não suporta mais. Admitir que algumas pessoas não fazem falta. Reconhecer que alguns sonhos eram apenas vaidade. Aceitar que você mudou sem precisar pedir desculpas. E principalmente entender que ninguém virá entregar o manual que esqueceram de colocar junto com você quando nasceu. A televisão continuava ligada. O trânsito continuava lento. O casal continuava discutindo sem se olhar. As crianças continuavam gritando no banco traseiro. As pessoas continuavam caminhando para algum lugar. Todos pareciam saber exatamente o que estavam fazendo. Talvez fosse apenas aparência. Talvez todos estivessem tão perdidos quanto eu. A diferença é que alguns aprenderam a disfarçar melhor. Peguei a xícara fria e tomei o último gole. Estava horrível. Não reclamei. Algumas coisas na vida ficam frias porque demoramos demais para decidir se ainda as queremos. Paguei a conta. Levantei. As televisões continuaram ensinando o mundo a viver. E o mundo continuou sem aprender. Fiquei alguns segundos parado na calçada, vendo aquela gente passar. Então percebi uma coisa desagradável. Talvez o problema nunca tenha sido não saber quem somos. Talvez seja saber e não gostar muito do que encontramos. É mais fácil deixar alguém dizer quem devemos ser. Dá menos trabalho. E enquanto pensamos nisso, o café esfria, o trânsito continua, os carros passam, as crianças crescem e a vida, indiferente, não espera ninguém terminar de se encontrar
