Há amores que se recusam a virar... Maurício Junior

Há amores que se recusam a virar passado.

Ficam suspensos em certos detalhes, no jeito como a luz entra pela janela numa hora específica do dia, como se alguém tivesse escolhido aquele horário há muito tempo e o costume tivesse ficado gravado nas paredes, para sempre.

As plantas continuam crescendo, teimosas, alheias a qualquer explicação. Ninguém pediu licença para elas.

Existe um perfume que não mora em nenhum frasco. Aparece do nada, dura um instante, e nesse instante o peito se enche inteiro, como se o tempo tivesse voltado só para dar um abraço rápido e depois ir embora de novo.

Há mãos que, mesmo ausentes, continuam presentes em outras mãos. Um jeito de tocar que se repete sem querer, um carinho que se aprendeu sem perceber que estava aprendendo. A pele esquece datas, mas nunca esquece afeto.

As cores das paredes, os objetos guardados exatamente onde foram deixados, os pequenos detalhes que qualquer estranho passaria sem notar: para quem ama de verdade, tudo isso é um santuário. Um jeito silencioso de dizer: “ainda moro aqui, ainda cuido de você.”

Porque existe um tipo de amor que não cabe em explicação, que não nasce num dia certo nem termina em outro. Ele só muda de forma. Deixa de ser abraço e vira lembrança que aquece por dentro. Deixa de ser voz e vira silêncio que acompanha os passos. Deixa de ser presença física e vira aquilo que sustenta a alma inteira, todos os dias, mesmo quando ninguém percebe.

Não existe medida para isso. Não existe régua, não existe calendário que dê conta.

Existe apenas o amor continuando a existir, do jeito que sabe: eterno, silencioso, inteiro.

E ele vive. Onde quer que esteja, ele vive.