Onde o toque acontece Há quem confunda... Jorgeane Borges

Onde o toque acontece

Há quem confunda pele com presença.
Beijo com encontro.
Desejo com conexão.

Mas há um abismo entre encostar em alguém e realmente tocar alguém.

Porque o toque que importa não começa nas mãos.
Começa na atenção.
No olhar que permanece.
Na escuta que não tem pressa.
Na vontade de conhecer o outro antes de atravessá-lo.

Eu acredito no toque que encontra ritmo.
Que não invade, não exige, não toma.
Que percebe.
Que espera.
Que responde.

Porque quando existe verdade, dois corpos não apenas se tocam: eles se reconhecem.

E talvez seja isso que tanta gente não perceba.

Há pessoas que passam uma vida inteira roçando em outras sem jamais alcançá-las.
Beijam bocas, mas não encontram almas.
Abraçam corpos, mas permanecem distantes.
Trocam calor, mas não presença.

Eu não quero um toque que apenas percorra minha pele.

Quero aquele que saiba chegar até onde ninguém chega.
Que encontre em mim o que não se entrega a qualquer mão.
Que compreenda que meu corpo é território de confiança, e que só se abre verdadeiramente quando existe algo maior do que desejo: conexão.

Porque, para mim, tocar alguém é uma forma de dizer:

eu estou aqui.
eu vejo você.
eu sinto você.
e, por um instante, não existe distância entre nós.

Talvez seja por isso que eu ainda espere pelo toque certo.

Não porque tenha medo de ser tocada,
mas porque sei a diferença entre ser tocada
e ser alcançada.