Vocês que estão lendo isso entre um... Paulo H Salah Ad din

Vocês que estão lendo isso entre um gole e outro, permitam que um velho bêbado lhes roube alguns minutos.
Existe um tipo de despedida que não faz barulho. Ela não bate a porta, não deixa carta sobre a mesa nem leva as malas. Apenas vai ficando menor dentro de vocês, até que um dia percebem que já não riem da mesma forma, já não sonham com a mesma violência, já não amam com a mesma imprudência.
É assim que a vida vence.
Não matando. Domesticando.
A pior tragédia não é envelhecer. É tornar-se aceitável. É aprender a engolir a própria revolta para caber na sala, no casamento, no emprego, na fotografia de família. Aos poucos vocês deixam de ser tempestade e aceitam o papel de previsão do tempo.
Depois culpam os anos.
Mas foram vocês que assinaram cada rendição.
Olhem em volta deste bar. Cada mesa abriga alguém negociando consigo mesmo. Uns afogam arrependimentos no uísque. Outros escondem a solidão atrás de gargalhadas altas demais. Há quem chame isso de viver. Eu chamo de esperar a conta.
E ela sempre chega.
Quando chegar a de vocês, espero que não descubram tarde demais que passaram décadas preservando uma versão confortável de si mesmos, enquanto aquela pessoa perigosa, apaixonada e imperfeita morreu de fome em algum canto da alma.
Bebam, se quiserem.
Amem, se tiverem coragem.
Errem quantas vezes forem necessárias.
Mas nunca entreguem ao tempo aquilo que só vocês poderiam destruir. Porque o tempo leva apenas o corpo.
O resto... somos nós que abandonamos pelo caminho.