A ORIGEM TERNA DO NOME CLADISSA.... Marcelo Caetano Monteiro
A ORIGEM TERNA DO NOME CLADISSA.
CAPÍTULO VI
LIVRO: CLADISSA.
A ORIGEM TERNA DO NOME CLADISSA.
O NOME QUE NASCEU DA LUZ.
A pequena igreja permanecia quase vazia naquela tarde. O aroma da cera derretida misturava-se ao perfume discreto do incenso, enquanto os últimos raios do sol atravessavam os vitrais, desenhando manchas coloridas sobre o piso de pedra.
Cladissa auxiliava o venerando sacerdote na organização dos livros litúrgicos e das velas que seriam utilizadas na missa do domingo.
O velho padre chamava-se Anselmo.
Já carregava muitos invernos sobre os ombros. Seus cabelos eram inteiramente brancos, a voz serena e o olhar possuía aquela doçura que apenas os anos bem vividos conseguem oferecer.
Enquanto observava a jovem, sorriu discretamente.
— Sabes de uma coisa, minha filha?
Ela interrompeu o trabalho.
— O quê, padre Anselmo?
— Muitas vezes me perguntam por que te chamo de Cladissa.
Ela sorriu com certa timidez.
— Também já me fiz essa pergunta.
O sacerdote acomodou-se em um velho banco de madeira.
— A verdade é que esse nome não o encontrei em livro algum.
Ela franziu levemente a testa.
— Então... ele não existe?
O padre sorriu.
— Existe desde o dia em que precisei chamá-la.
Cladissa permaneceu em silêncio.
— Quando a trouxeram pela primeira vez à igreja, eras tão pequenina que mal conseguias sustentar-te sobre as próprias pernas. Contudo, havia em teu olhar uma claridade incomum. Não era a beleza da infância apenas... era uma luz tranquila, dessas que parecem iluminar sem ofuscar.
Ela abaixou os olhos, embaraçada.
— Eu nunca imaginei isso...
— Pois eu imaginei um nome que pudesse guardar essa lembrança.
Fez breve pausa antes de continuar.
— Pensei na palavra claritas, que em latim significa claridade, luminosidade. Depois, quase sem perceber, acrescentei-lhe uma sonoridade mais delicada. Nasceu "Cladissa". Não como título de nobreza, nem como nome de família, mas como um carinho de velho sacerdote para uma menina que me parecia carregar mais luz do que percebia em si mesma.
Os olhos da jovem umedeceram-se.
— Então... fui eu quem recebeu um nome inventado?
— Não, minha filha. Recebeste um nome encontrado.
Ela ergueu o rosto.
— Encontrado?
— Sim. Há nomes que herdamos de nossos pais. Outros parecem esperar silenciosamente pela pessoa certa para existirem.
Cladissa sorriu pela primeira vez desde que chegara.
— Nunca pensei que alguém pudesse criar um nome por afeto.
Anselmo respondeu com voz tranquila.
— Deus também faz isso conosco.
Ela o fitou sem compreender.
— Como assim?
— O mundo costuma chamar as pessoas pelo que possuem. Deus as chama pelo que podem tornar-se.
Aquelas palavras permaneceram suspensas entre ambos.
Depois de alguns instantes, Cladissa perguntou:
— Padre... por que tantas vezes sinto que não pertenço a lugar algum?
O velho sacerdote respirou lentamente.
— Porque tua alma ainda procura uma casa que não pode ser construída apenas com pedras.
— E onde ela está?
— Primeiro, no coração de Deus. Depois, dentro de ti mesma.
Ela permaneceu em silêncio.
— Mas às vezes sinto-me tão pequena...
Anselmo sorriu com ternura.
— A luz nunca precisou ser grande para vencer a escuridão. Basta uma única chama para que uma noite inteira deixe de ser absoluta.
Cladissa contemplou a pequena lamparina acesa diante do altar.
Sua chama era quase imperceptível diante da vastidão da igreja.
Mesmo assim, nenhuma sombra conseguia apagá-la.
— Padre...
— Sim, minha filha?
— Se um dia eu deixar de acreditar em mim, o senhor poderá lembrar-me outra vez do motivo desse nome?
O velho sacerdote levantou-se lentamente, aproximou-se e colocou a mão sobre sua cabeça, como quem abençoa uma filha.
— Não apenas eu. Enquanto houver alguém que enxergue bondade em teu coração, teu nome continuará dizendo aquilo que talvez esqueças: foste chamada Cladissa porque a verdadeira luz nunca faz ruído. Ela apenas permanece acesa, mesmo quando ninguém parece percebê-la.
Naquele instante, o sino da pequena igreja começou a tocar.
Cladissa sorriu serenamente.
Pela primeira vez, compreendeu que um nome pode ser mais do que uma forma de ser chamada.
Pode tornar-se uma lembrança silenciosa daquilo que Deus espera que uma alma jamais deixe de ser.
