Capítulo XVIII - O TESTEMUNHO DO... Marcelo Caetano Monteiro

Capítulo XVIII -
O TESTEMUNHO DO FILÓSOFO DO ABISMO.

Livro: NÃO HÁ ARCO-IRIS NO MEU PORÃO.
Escritor:Marcelo Caetano Monteiro .

Joseph bevouir - Escritor. .

Eu o vi.
Não com os olhos, pois estes sangrariam, mas com a lucidez que somente a dor oferece aos que vivem à margem da existência.
Vi o instante em que o lírio branco mas vermelho e insano nasceu entre os dedos trêmulos de Joseph Bevoiur. Nenhum motivo biológico. Nenhuma explicação botânica. Era arte.
Ou era Camille.

Mas o lírio nasceu no porão.
E isso muda tudo.

Sou o que restou da razão depois que a beleza foi assassinada pela obsessão.
Sou o filósofo do abismo.
E aqui, neste antro de memórias devoradas, trago palavras que não salvam — apenas explicam, em linguagem febril, o que nem o amor soube justificar.

Camille...
Tua presença é o próprio grito calado.
Tua ausência, a certeza de que Joseph jamais poderá voltar ao mundo dos homens.
Porque te amou.
E amar o impossível é o primeiro crime de toda alma sensível.

A gaita de fole, aquela maldita gaita, toca em descompasso com as teclas secas de um piano que não deveria sequer existir.
Mas existe.
Assim como Joseph, que ama e fere na mesma mão.
Assim como Camille, que aceita e morre com o mesmo olhar.

Talvez Joseph nunca tenha querido te ferir, Camille.
Mas há amores que nascem fadados à crueldade… como lírios em porões sem luz.

E eu…
eu apenas escrevo.
Escrevo como quem sangra para que vocês dois não sejam esquecidos, mesmo que nunca tenham existido fora das páginas deste livro.